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Os últimos anos trouxeram à tona o fato de que algumas das mudanças mais transformadoras e inovadoras em matéria de justiça social estão acontecendo graças aos esforços de pessoas e plataformas que não fazem parte da estrutura padrão de ajuda humanitária ou do sistema formalizado da sociedade civil. Elas vêm de espaços de organização alternativos liderados por pessoas – ações coletivas e populares fundamentadas em relacionamentos, solidariedade e experiências vividas, e de natureza profundamente política – e de movimentos sociais – esforços sustentados e liderados por pessoas para promover mudanças sistêmicas. 

No Sul Global, houve algumas tentativas cruciais de amplificar essas vozes e examinar os desequilíbrios de poder que moldam a relação entre a filantropia e os movimentos sociais. Essas tentativas vêm sendo lideradas por organizações e espaços dedicados a explorar como a filantropia institucional pode se envolver, apoiar e nutrir espaços de solidariedade coletiva para movimentos sociais, incluindo, entre outras, as organizações Comuá, Filantropia pela Justiça Social e Paz (PSJP), Thousand Currents e TrustAfrica. Três estudos essenciais – realizados na África (2020), Ásia-Pacífico (2023) e Brasil (2024) – revelaram semelhanças marcantes nessa relação. Nas três regiões, os movimentos sociais estão promovendo mudanças transformadoras e altamente políticas, profundamente enraizadas nas comunidades locais e nas lutas por justiça. No entanto, eles continuam sem ser vistos por grande parte do financiamento filantrópico convencional ou sem o seu apoio. Os movimentos enfrentam barreiras sistêmicas, incluindo exigências burocráticas, modelos rígidos de financiamento e obstáculos linguísticos ou legais, que muitas vezes os deixam fora da distribuição dos recursos destinados a organizações mais formais, como as ONGs.

Apesar das diferenças regionais, esses movimentos compartilham de uma mensagem unificada: a filantropia precisa questionar seus fundamentos ideológicos, encarar de frente a sua parcela de responsabilidade pela preservação das desigualdades e refletir sobre como as suas próprias origens e dinâmicas de poder moldam os conceitos de impacto e responsabilidade. Eles pedem o desmantelamento de processos rígidos e burocráticos e a concepção de relações baseadas na solidariedade, reciprocidade, mutualidade e respeito.

Esses estudos são importantes porque destacam a necessidade urgente de uma mudança na filantropia – não apenas para fazer melhor, mas para se transformar fundamentalmente – trabalhando com os movimentos como parceiros efetivos na busca pela justiça e pela mudança sistêmica.

Com base nessas percepções, queremos avançar nesse trabalho, destacando as diferentes possibilidades de grantmaking e os mecanismos de financiamento existentes – especialmente no Sul Global – que estão permitindo que os recursos cheguem a novas formas emergentes de organização popular e reivindicação de direitos. Essas práticas refletem um tipo diferente de doação: mais flexível, baseada na confiança e fundamentada em um compromisso com a natureza política e relacional dos movimentos, e com a criação de ecossistemas de financiamento que sustentem – em vez de diluir – o poder e a autonomia dos movimentos.

Sobre o Relatório

Esse estudo explora a relação entre a filantropia institucional e os movimentos sociais na Ásia e no Pacífico. Baseado em 20 entrevistas detalhadas com ativistas e doadores de 12 países, o relatório centra-se nas vozes e experiências de pessoas que trabalham em movimentos populares – iniciativas coletivas lideradas por comunidades marginalizadas para promover mudanças sociais sistêmicas.

Conclusões Principais

Os movimentos são importantes:

Os movimentos sociais desempenham um papel fundamental na promoção da justiça e da mudança, mas continuam subfinanciados, mal compreendidos e, muitas vezes, excluídos da filantropia convencional.

Limitações da filantropia:

O financiamento institucional tende a favorecer ONGs com estruturas formais, marginalizando grupos de base e impondo aos movimentos normas burocráticas (“ONGização”).

Barreiras de acesso:

A língua, o registro, os modelos rígidos de financiamento e os requisitos técnicos para a elaboração de relatórios criam obstáculos ao acesso dos movimentos aos recursos.

Tensões entre doadores e movimentos:

As incompatibilidades em termos de valores, prioridades e poder de decisão reforçam as desigualdades entre doadores e movimentos.

O que os movimentos precisam dos doadores

Mostrar-se flexível:

Em relação à utilização dos recursos, prazos e exigências.

Repensar a apresentação de relatórios:

Abandonar os processos realizados exclusivamente em inglês e excessivamente burocráticos.

Ir além dos projetos:

Proporcionar apoio fundamental, de longo prazo, para sustentar os movimentos.

Construir confiança e mutualidade:

Atuar com humildade, transparência e valores compartilhados.

Disponibilizar recursos para o novo:

Financiar grupos liderados por jovens, mulheres, pessoas queer e formações emergentes.

Fazer o dever de casa:

Investir na compreensão de conjunturas locais e das ecologias dos movimentos.

Fazer perguntas mais ambiciosas:

Sobre poder, o papel da filantropia e a modificação dos sistemas.

Apoiar intermediários locais:

especialmente onde os movimentos não possam ser registrados com segurança.

Este Relatório desafia a filantropia a avançar da mera caridade para a solidariedade, do controle para a confiança, e de projetos para a mudança promovida por pessoas. Ele convida os doadores a repensarem a sua forma de envolvimento com os movimentos – não apenas para fazer melhor, mas para fazer diferente.

A pesquisa e autoria do relatório são de Poorva Rajaram (consultora) e Ashlesha Khadse (Thousand Currents). Ele contou ainda com as contribuições de Chandrika Sahai (Filantropia para a Justiça Social e a Paz, PSJP), Halima Mahomed (TrustAfrica) e Luam Kidane (Thousand Currents). A imagem e a arte da capa são de Ayan A (ayanbythesea.com). O relatório foi publicado em junho de 2023 pelas organizações Thousand Currents e Filantropia para a Justiça Social e a Paz (PSJP).

Sobre o Relatório

Em toda a África, novas ondas de movimentos populares vêm exigindo justiça social, política e econômica. No entanto, apesar de seu papel fundamental, esses movimentos muitas vezes operam fora do radar da filantropia institucional, que tende a se concentrar em ONGs com estruturas formais, em detrimento de organizações mais flexíveis, lideradas pela comunidade.

O relatório de Halima Mahomed destaca como os movimentos sociais africanos enxergam – e vivenciam – o envolvimento com a filantropia. Baseado em entrevistas com ativistas participantes de movimentos em oito países africanos, o relatório levanta questões urgentes sobre poder, solidariedade e o futuro da mudança social no continente.

Conclusões principais

Movimentos não são ONGs:

Os movimentos sociais africanos funcionam de forma diferente das ONGs. Eles são muitas vezes informais, fluidos e profundamente ligados à representação comunitária, resistindo ao registro formal e às exigências burocráticas que vão de encontro ao seu sistema de valores.

Pontos cegos da filantropia:

Os doadores institucionais costumam ignorar os movimentos ou evitam apoiá-los diretamente, especialmente quando promovem mudanças políticas. Quando ocorre o financiamento, ele é geralmente condicionado a obrigações rigorosas de prestação de contas, o que prejudica a capacidade dos ativistas de se dedicarem à organização da comunidade.

Financiamento incondicionado:

Os ativistas aceitam apoio externo, mas somente se ele respeitar a autonomia do movimento, sem procurar impor agendas, e compartilhar de valores comuns, fundamentados na solidariedade.

Recursos internos são importantes:

Muitos movimentos se sustentam por meio de contribuições locais de dinheiro, tempo, aptidões e solidariedade. Essa “filantropia interna” costuma ser a sua principal fonte de recursos e uma expressão fundamental de envolvimento da comunidade.

A questão do poder:

Uma preocupação central é: quem define a agenda? Os movimentos resistem a doadores que querem ditar prioridades ou transformar ações de base fundamentais em projetos profissionalizados e favoráveis aos doadores.

o que os movimentos precisam dos doadores

Respeitar a autonomia dos movimentos:

Os doadores devem apoiar os movimentos respeitando a sua forma de trabalhar, sem impor prioridades externas.

Simplificar processos:

Reduzir a papelada, os requisitos rígidos e as barreiras burocráticas ao financiamento.

Investir em relacionamentos e não apenas em projetos:

Construir confiança e parcerias de longo prazo com base no respeito mútuo e na solidariedade.

Apoiar ecossistemas:

Procurar ajudar os movimentos a se conectarem entre países e em torno de causas, fortalecendo as redes de solidariedade de liderança africana.

Valorizar doações internas:

Valorizar os recursos e as contribuições locais que sustentam os movimentos.

Este Relatório é um lembrete importante de que mudanças reais acontecem quando as pessoas se organizam coletivamente. Para que a filantropia seja relevante e eficiente na África, ela deve ir além do financiamento exclusivamente de ONGs e se envolver de forma genuína, flexível e humilde com os movimentos populares que moldam o futuro do continente.

O estudo é de autoria de Halima Mahomed e foi publicado no International Review of Philanthropy and Social Investment Journal (Volume 1, Edição 1, páginas 17-30) em 1º de setembro de 2020. Ele contou com o apoio do Centro Africano de Filantropia e Investimento Social (ACPSI), da Filantropia para a Justiça Social e a Paz (PSJP) e da Thiqa Consulting.

Um artigo subsequente, Beyond Us and Them (Além de nós e eles, janeiro de 2021), de Hope Chigudu – encomendado pela PSJP – reflete sobre as conclusões do estudo Filantropia Institucional e Organização Popular na África, de Halima Mahomed, pela perspectiva de uma participante e ativista. Baseada na análise de Halima, Hope aprofunda os argumentos a favor de uma reformulação da filantropia e desafia o setor a se revolucionar: a trabalhar de forma consciente, empática e transformadora.

Sobre o Relatório

Esse relatório explora a relação entre movimentos sociais e a filantropia no Brasil. Com base em pesquisas, entrevistas e grupos focais, ele destaca o papel crucial que os movimentos sociais desempenham na defesa da democracia, na promoção dos direitos e na resistência ao autoritarismo — e examina como a filantropia pode (e muitas vezes não consegue) apoiar esse trabalho.

Conclusões Principais

Os movimentos impulsionam mudanças:

Os movimentos sociais estiveram na vanguarda da democratização do Brasil, defendendo direitos, desafiando o autoritarismo e moldando políticas públicas, como o sistema de saúde pública.

Cenário perigoso:

Os ativistas enfrentam cada vez mais violência, ameaças e criminalização – especialmente ativistas negros, líderes indígenas, mulheres, comunidades LGBTQIAPN+ e defensores do meio ambiente. O Brasil continua sendo um dos países mais perigosos do mundo para os defensores dos direitos humanos.

Lacunas e barreiras ao financiamento

• A maioria dos recursos filantrópicos vai para ONGs e projetos formais e não para movimentos de base.
• Exigências burocráticas, barreiras linguísticas e imposição de registro formal impedem muitos movimentos de ter acesso a recursos.
• Apenas uma pequena fração dos recursos da filantropia é revertida diretamente aos movimentos sociais.

Autofinanciamento como forma de sobrevivência:

muitos movimentos dependem do financiamento da própria comunidade — mobilização de recursos locais, apoio mútuo e contribuições em espécie — para sustentar seu trabalho e manter a autonomia em relação às agendas de doadores externos.

Déficit de confiança na filantropia:

Existe uma desconfiança generalizada entre a filantropia e os movimentos, alimentada por diferenças nas agendas políticas, modelos de financiamento rígidos e carência de parcerias genuínas.

o que os movimentos precisam dos doadores

Financiar a autonomia, não o controle:

Apoiar os movimentos respeitando a sua forma de trabalhar, sem impor pautas externas.

Simplificar o acesso:

Reduzir a burocracia, formulários de requerimento complicados e obrigações de prestação de contas.

Investir no longo prazo:

Oferecer financiamento básico e flexível e não apenas subsídios baseados em projetos.

Aproximar-se da filantropia local:

Fundos comunitários e independentes, como os da Rede Comuá, mostram que a filantropia baseada na confiança e na solidariedade pode funcionar.

Mudar as relações de poder:

levar os líderes de movimentos para os espaços de tomada de decisões filantrópicas, para pensar juntos em estratégias de financiamento.

Os movimentos sociais não estão apenas resistindo à injustiça – estão construindo futuros alternativos com base na democracia, na igualdade e no cuidado coletivo. A filantropia precisa ir além da caridade e abraçar a solidariedade real para ajudar a sustentar essas lutas fundamentais no Brasil.

Este estudo foi coordenado por e contou com a curadoria de Graciela Hopstein, com pesquisa bibliográfica, trabalho de campo e produção liderados por Jonathas Azevedo. A pesquisa foi conduzida por Gelson Henrique e traduzida para o inglês por Dayse Boechat. Foi publicado em dezembro de 2024 pela Rede Comuá.

Agradecimento especial à Ana Valéria Araújo pela conexão com o PSJP para realização desta pesquisa.

publicações

Arte por Ayan A (ayanbythesea.com

As imagens nesta página foram apresentadas originalmente no relatório “Destacando as vozes dos movimentos sociais: organização popular e financiamento filantrópico na Ásia e no Pacífico”, publicado em junho de 2023 pela Thousand Currents e a PSJP. A arte apresentada é um retrato das relações complexas, baseadas na confiança, que os movimentos compartilham com alguns doadores que os apoiam. O design e as imagens também buscam retratar que, no espaço criativo que são os movimentos populares, todos são tecelões e improvisam à medida que se adaptam e evoluem conforme as realidades sociopolíticas em constante mudança.