No fim de 2025, MacKenzie Scott – umas das maiores filantropas da atualidade, e cuja forma de doar sem restrições a organizações tem estabelecido novos padrões em relação à filantropia convencional – divulgou as organizações que receberam nova rodada de doações de recursos financeiros.
Scott doou R$ 38,88 bilhões a 200 organizações, o maior valor anual desde que começou a divulgar suas ações filantrópicas em 2019. Nesta rodada de doações, a filantropa concentrou a escolha, em grande parte, em instituições que já haviam recebido recursos anteriormente. Caso do Fundo Casa Socioambiental, que esteve entre as donatárias também no ano anterior.
“Por trás dessa doação está uma mensagem poderosa: Eu confio em vocês. E confiança, para organizações que fazem filantropia de justiça socioambiental, é um ativo político. É o que nos permite inovar, sustentar estratégias e proteger quem está exposto a riscos”, afirma Cristina Orpheo.
Em entrevista à Rede Comuá, a diretora-executiva do Fundo Casa Socioambiental destacou a importância dessa doação em um contexto onde a organização completou 20 anos, o que demonstra o reconhecimento do trabalho que vem sendo realizado.
“É um presente potente para os próximos 20 anos — onde queremos ousar mais, chegar mais longe e continuar aprendendo com quem está na linha de frente da defesa da vida. Esse gesto inspira outros filantropos e instituições do Norte Global a repensarem práticas, escala e valor dos apoios, revisarem assimetrias de poder e ampliarem o diálogo com os fundos do Sul Global. Precisamos ocupar mais esses espaços — e essa doação nos dá mais legitimidade para fazê-lo”.
Leia abaixo a entrevista.
Como é para o Fundo Casa Socioambiental receber uma doação de Mackenzie Scott pelo segundo ano consecutivo?
Receber pela segunda vez uma doação da Mackenzie Scott é profundamente significativo para nós. É mais do que um aporte financeiro — é um reconhecimento internacional da relevância de um fundo filantrópico que, há 20 anos, mobiliza recursos e os direciona diretamente para quem realmente transforma os territórios: as organizações comunitárias.
Nosso papel enquanto doador é garantir que grupos indígenas, tradicionais, periféricos e organizações de base tenham acesso direto, ágil e confiante aos recursos de que precisam para desenvolver suas próprias soluções. Quando uma filantropa global, que doa grandes valores, aposta na autonomia e no protagonismo local e escolhe apoiar novamente um fundo do Sul Global como o nosso, ela confirma algo que defendemos há décadas: quem vive no território sabe o que precisa ser feito — e, quando recebe recursos com confiança, faz muito, faz bem e faz com coragem.
Essa segunda doação reafirma que o modelo de filantropia do Sul Global e de acesso direto funciona. Reafirma que investir em diversidade, cuidado e justiça socioambiental é estratégico para enfrentar a crise climática e fortalecer a democracia. E, acima de tudo, nos dá fôlego e liberdade para seguir ampliando o impacto do Fundo Casa sem perder nossa essência: apoiar quem cuida da vida, da natureza, das periferias e das comunidades todos os dias.

Qual a importância desse tipo de doação para a filantropia de justiça socioambiental em meio à onda conservadora e de retração de recursos no Norte Global?
A importância é enorme. Estamos vivendo um momento marcado por retração de recursos, insegurança política e uma onda conservadora que tenta deslegitimar agendas de justiça socioambiental no mundo inteiro. Nesse cenário, doações flexíveis, baseadas em confiança e sem amarras excessivas, são quase revolucionárias.
Esse tipo de financiamento:
- fortalece instituições locais justamente quando mais precisamos;
- protege um ecossistema de organizações que atendem populações vulnerabilizadas;
- dá autonomia para reagirmos com rapidez aos desafios nos territórios;
- mostra que existe outra forma de fazer filantropia — mais justa, mais horizontal e alinhada à democracia.
A filantropia baseada em confiança não é um detalhe. É uma escolha política. E quando alguém com a visibilidade da MacKenzie Scott decide apoiar organizações do Sul Global, ela ajuda a abrir espaço para outras doações acompanharem essa visão.
São 20 anos de Fundo Casa. Como esse recurso se posiciona nessa história?
O Fundo Casa nasceu pequeno, movido por um sonho grande: garantir que as comunidades que cuidam dos territórios tivessem acesso direto a recursos. Vinte anos depois, com quase cinco mil iniciativas apoiadas, receber esse tipo de doação é um marco na nossa trajetória.
Ela se posiciona como um reconhecimento da relevância do papel que exercemos: somos
um fundo que combina governança robusta, capilaridade territorial e uma atuação profundamente enraizada na justiça social e ambiental.
Essa doação chega justamente quando celebramos nossas duas décadas, e ela simboliza duas coisas importantes: validação internacional de um modelo de filantropia que nasce no Sul Global e que está mostrando resultados concretos; capacidade de sonhar e planejar mais longe. Vamos poder fortalecer ainda mais nossa estrutura, ampliar programas estratégicos e garantir que a filantropia liderada localmente siga crescendo.
É um presente potente para os próximos 20 anos — onde queremos ousar mais, chegar mais longe e continuar aprendendo com quem está na linha de frente da defesa da vida.
O que mais merece destaque nesse momento?
Quero destacar três pontos que considero essenciais:
É um voto de confiança nas comunidades — Por trás dessa doação está uma mensagem poderosa: “Eu confio em vocês.” E confiança, para organizações que fazem filantropia de justiça socioambiental, é um ativo político. É o que nos permite inovar, sustentar estratégias e proteger quem está exposto a riscos.
Essa doação fortalece um campo inteiro, não apenas o Fundo Casa – Ao apoiar um fundo como o nosso, a MacKenzie Scott está, indiretamente, fortalecendo o campo dos Fundos do Sul Global e seus mais diversos modelos, além de centenas de organizações indígenas, quilombolas, periféricas e comunitárias que dependem de recursos flexíveis para existir e resistir.
Esse gesto ajuda a abrir portas — Ele inspira outros filantropos e instituições do Norte Global a repensarem práticas, escala e valor dos apoios, revisarem assimetrias de poder e ampliarem o diálogo com os fundos do Sul Global. Precisamos ocupar mais esses espaços — e essa doação nos dá mais legitimidade para fazê-lo.
