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Fundo Casa Socioambiental completa 20 anos firmando alianças reais com os territórios

Reprodução Fundo Casa

Em duas décadas de atuação, o Fundo Casa Socioambiental apoiou mais de 4.300 iniciativas locais, com investimento direto em quem cuida dos territórios, transforma realidades e gera impactos reais para a vida das pessoas e para nossos biomas. 

Como organização da filantropia independente [que capta recursos de diversas fontes], a organização tem atuado em alianças de fundos socioambientais, como a Rede Comuá e a Alianza Socioambiental Fondos del Sur, como forma de fortalecer a pauta do apoio a grupos e comunidades locais, fundamental para a promoção de acesso a direitos e para o fortalecimento da democracia.  

E tem também investido em arranjos importantes com a filantropia tradicional, a exemplo da Teia da Sociobiodiversidade, em parceria com a CAIXA Econômica Federal, e o fortalecimento do apoio às brigadas comunitárias anti-incêndio, em parceria com a Itaúsa. 

“Há um predomínio de uma cultura de doação verticalizada e pouco adaptada à diversidade dos territórios. Temos buscado justamente tensionar esses modelos, promovendo uma filantropia mais distribuída, baseada na confiança e no protagonismo das organizações de base”, destaca Cristina Orpheo, diretora-executiva do Fundo Casa Socioambiental.

Entendendo a mudança climática como mais uma camada de iniquidade junto aos grupos e territórios apoiados, o Fundo Casa tem participado de COPs de Clima e fóruns de financiamento climático, buscando ampliar os recursos para essa pauta, que é transversal a todas as outras com as quais atua: “A filantropia de justiça socioambiental tem um papel importante nesse cenário: é quem está disposto a apoiar as soluções que nascem nos territórios, respeitam os modos de vida e desafiam modelos econômicos predatórios”.

Em entrevista à Rede Comuá, Cristina fala sobre transformações no campo da filantropia, a importância de alianças entre fundos de justiça socioambiental, mudanças climáticas, e faz um balanço dos 20 anos de atuação.

Já são 20 anos financiando soluções locais, apoiando grupos e comunidades em seus territórios por meio de uma relação próxima, de parceria. Qual o balanço que você faz dessa atuação?

Eu não faço parte do grupo de Fundadores, cheguei no final de 2010 e o Fundo Casa já tinha um caminho sendo trilhado. O que eu vejo é que, ao longo desses 20 anos, construímos muito mais do que uma trajetória de financiamento: firmamos alianças reais com os territórios, e para mim esse é o legado mais valioso desses 20 anos. O Fundo Casa nasceu do movimento socioambiental e sempre apostou na potência das soluções locais, respeitando os saberes e ritmos das comunidades, e também sempre acolheu os desafios, sempre esteve próximo para apoiar esses desafios. A atuação próxima, baseada na escuta e na confiança, nos permitiu apoiar mais de 4.300 iniciativas e ver, de forma concreta, como o investimento direto em quem cuida do território transforma realidades, fortalece a democracia e gera impactos reais para quem vive nesses territórios e para todos nós, que precisamos da integralidade dos biomas para o equilíbrio ambiental. O balanço que faço é de coerência com os nossos valores e de orgulho pelo que foi construído de forma coletiva.

Como analisa as transformações no campo da filantropia e das doações no Brasil nessas duas décadas?

Percebo avanços importantes na pauta da filantropia no Brasil, especialmente no reconhecimento do papel das organizações comunitárias como agentes centrais da transformação. A estruturação de diversos Fundos como os territoriais, temáticos e comunitários também avançou muito. No início dos anos 2000, era possível contar nos dedos de uma mão os Fundos no Brasil, e hoje somos um campo estruturado em redes que possui um alinhamento estratégico e um posicionamento político importante.

Por outro lado, o campo ainda enfrenta resistências estruturais: há um predomínio de uma cultura de doação verticalizada e pouco adaptada à diversidade dos territórios. Temos buscado justamente tensionar esses modelos, promovendo uma filantropia mais distribuída, baseada na confiança e no protagonismo das organizações de base. Essa emergência de novos atores, como coletivos periféricos e fundos comunitários, tem sido uma resposta potente às limitações dos modelos mais tradicionais, mas ainda enfrentamos um enorme desafio na cultura e modelo de doação no Brasil.

Dentre as parcerias mais recentes do Fundo Casa com filantropias tradicionais, destacam-se em especial o Fundo Socioambiental da Caixa, com a Teia da Sociobiodiversidade, e a Itaúsa. Esse é um caminho estratégico para apoiar projetos nacionais frente ao escasseamento de recursos de fontes internacionais?

O Fundo Casa sempre trabalhou para ter apoiadores nacionais, ter dinheiro brasileiro para apoiar o enfrentamento às nossas desigualdades, para enfrentamento ao racismo ambiental, para apoiar quem protege os nossos biomas – é uma questão de ética e responsabilidade, responsabilização, seja lá qual for a palavra que se queira usar. Por exemplo, apoiar as comunidades do Rio Grande do Sul a se reerguer é nosso dever, é nossa responsabilidade enquanto filantropia brasileira.

A parceria com a Caixa é fruto desse esforço em ter apoiadores nacionais e também de um investimento alto de boa gestão, alto nível de entregas e produção de conhecimento. Da mesma forma com a Itaúsa.

Sem dúvida essas parcerias também têm sido estratégicas para ampliar nossa capacidade de ação diante da retração dos recursos internacionais e das dificuldades do contexto político internacional.

Especialmente com a Caixa, também foi estratégico para mostrar uma experiência de distribuição de grande volume de recursos ao mesmo tempo, de que existem caminhos sólidos e estruturados para realizar isso.

Opá Tenondé de Manoela Dutra Ramos | Reprodução Fundo Casa

O Fundo Casa integra redes e alianças que reúnem fundos de justiça socioambiental, como a própria Comuá. Qual o papel desses grupos no cenário da filantropia?

Atuar em parcerias, em redes, também foi sempre uma característica forte do Fundo Casa, talvez por nascer de uma grande rede que é o movimento socioambiental. Por outro lado, também para somar esforços em criar um campo, o campo dos Fundos, e isso não se constrói sozinho, essa sempre foi uma frente liderada por nossa Fundadora Maria Amália Souza, uma das pessoas mais visionárias que eu já conheci, conhecedora profunda do campo filantrópico e que desde sempre soube que, para tensionar esse campo conservador da filantropia, era necessário um campo articulado estrategicamente.

Por conta desse histórico, nossa cultura organizacional sempre soube que alianças entre fundos de justiça socioambiental são absolutamente estratégicas — tanto no contexto nacional, com a Rede Comuá, quanto no campo internacional, com a Alianza Socioambiental Fondos del Sur e outras redes, duas Alianças com as quais o Fundo colabora fortemente.

Essas articulações fortalecem a incidência coletiva, compartilham aprendizados e aumentam nossa capacidade de acessar recursos e influenciar agendas. Juntas, essas alianças ajudam a consolidar um outro modelo de financiamento, que reconhece o valor das experiências locais e propõe uma lógica mais horizontal e transformadora na filantropia. É também uma forma de disputar narrativa: mostrar que os territórios têm propostas, não apenas demandas.

O Fundo Casa tem apoiado soluções de grupos politicamente minorizados nas mais diversas regiões do país. Quais são as riquezas e gargalos nesses apoios?

Os apoios a grupos politicamente minorizados nos mostram, cada vez mais, a força das periferias, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, em geral, como protagonistas da construção de alternativas para o país e para o planeta. Esses grupos não apenas resistem há tantos anos — eles inovam, cuidam dos bens comuns, produzem conhecimento e enfrentam as desigualdades de forma concreta. 

Por outro lado, os gargalos persistem: insegurança jurídica, baixa capacidade de acesso a recursos e o racismo institucional ainda impõem barreiras reais. Nossos apoios têm revelado que investir nesses grupos é investir em soluções estruturais, em democracia  e em justiça territorial, acima de tudo.

O Fundo Casa tem participado há algum tempo das COPs de Clima. Qual a relação filantropia de justiça socioambiental com as mudanças climáticas e o financiamento de soluções locais?

A crise climática escancara as desigualdades e exige respostas que combinem justiça social com justiça ambiental. 

A filantropia de justiça socioambiental tem um papel importante nesse cenário: é quem está disposto a apoiar as soluções que nascem nos territórios, respeitam os modos de vida e desafiam modelos econômicos predatórios. Nossa presença nas COPs tem sido uma forma de levar essas vozes para os espaços de decisão — e também de pressionar por uma redistribuição mais justa dos recursos climáticos. Acreditamos que a transição climática só será justa se for conduzida com, e a partir de, quem vive e cuida dos territórios.

E não é raro ver como os territórios contribuem com soluções ao nível de políticas públicas, costumo dizer que os maiores aliados para enfrentar as mudanças do clima são as comunidades que protegem florestas e a biodiversidade, fazem agricultura regenerativa e de baixo carbono, usam territórios coletivos, plantam, colhem e acolhem, só basta querer ver!

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