Foto em destaque: Rebeca Roxani Binda – Volta Grande do Xingu
* Por Thainá Mamede
O debate sobre justiça climática frequentemente é conduzido a partir de diagnósticos
globais e categorias analíticas formuladas fora dos contextos vividos. Esse enquadramento
tende a privilegiar interpretações produzidas em espaços institucionais, acadêmicos ou
multilaterais, que nem sempre dialogam com as formas pelas quais povos indígenas e
comunidades tradicionais vivenciam e interpretam as transformações sociais e climáticas
em seus territórios.
As mudanças climáticas não são apenas um conceito abstrato: elas são vividas
cotidianamente, a partir da relação direta com o ambiente, com os ciclos da natureza e com
formas próprias de organização social e produtiva, enraizadas em contextos específicos.
Esta reflexão parte de uma provocação central: o que acontece com o próprio conceito de
justiça climática quando ele é observado a partir das experiências territoriais de povos
indígenas, comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais? Trata-se de
questionar em que medida esse conceito, frequentemente formulado em espaços
institucionais ou acadêmicos, dialoga com as formas pelas quais esses povos
compreendem o clima, a natureza e os processos de transformação social.
Partir dessa pergunta implica reconhecer que há diferentes relações com a natureza e com
o clima, construídas historicamente por esses povos. Enquanto grande parte das
abordagens convencionais trata a natureza como recurso ou objeto de gestão, muitas
comunidades tradicionais e povos indígenas estabelecem relações baseadas na
interdependência, no cuidado e na continuidade dos ciclos da vida.
Os territórios também produzem interpretações próprias sobre a crise climática, muitas
vezes distintas das narrativas predominantes. Por exemplo, as mudanças climáticas podem
ser percebidas e interpretadas de maneiras diversas pelas comunidades, a partir de suas
experiências concretas com o ambiente e com os ciclos ecológicos.
A noção de justiça climática ganha outros sentidos quando parte da experiência concreta
dos povos que convivem diretamente com esses ciclos. Nesses contextos, os fenômenos
naturais não são compreendidos apenas como eventos extremos ou desastres, mas
também a partir de seus significados históricos, culturais e produtivos.
O exemplo das comunidades vazanteiras ilustra essa perspectiva. Para esses povos, que
vivem em estreita relação com os ciclos dos rios, a cheia, muitas vezes associada
externamente à ideia de desastre, pode ser compreendida como parte de um ciclo de
abundância. A enchente, ao irrigar as terras, facilitar o deslocamento e possibilitar o plantio,
expressa uma forma distinta de compreender a dinâmica ambiental.
Outro exemplo pode ser observado nas práticas das quebradeiras de coco babaçu,
presentes em diferentes regiões da Amazônia e do Cerrado. Nessas comunidades, o
manejo do babaçu está profundamente associado aos ciclos da floresta e à reproduçã coletiva dos modos de vida. A coleta e o processamento do coco integram atividades econômicas, sociais e culturais, estruturando formas de organização comunitária e de defesa do território.
A proteção dos babaçuais, frequentemente reivindicada pelas próprias comunidades por meio da luta pelo “babaçu livre”, expressa uma relação com a floresta baseada no uso coletivo e na continuidade dos ciclos naturais. Essas práticas não se organizam a partir da agenda climática, mas fazem parte de formas históricas de habitar, produzir e cuidar do território, construídas muito antes de a crise climática se tornar uma
categoria central no debate público. Esses exemplos evidenciam que diferentes povos e comunidades tradicionais produzem interpretações próprias sobre os ciclos da natureza e as transformações socioambientais, que nem sempre se organizam a partir das categorias que estruturam o debate
climático contemporâneo.
Nesse contexto, iniciativas filantrópicas podem desempenhar um papel
importante ao apoiar e ampliar a visibilidade dessas perspectivas, evitando enquadrá-las
apenas como “soluções climáticas” e reconhecendo a centralidade dos territórios e dos
modos de vida que as sustentam.
Se essas experiências são centrais para compreender a justiça climática, isso também
implica reconhecer que a agenda de justiça climática está profundamente vinculada à
proteção de defensoras e defensores desses modos de vida. A atuação cotidiana dessas
lideranças é central para a preservação dos territórios e para a continuidade de práticas que
contribuem para o equilíbrio climático. A defesa dos bens comuns, frequentemente
realizada em contextos de conflito e vulnerabilidade, revela que a proteção dessas pessoas
não é apenas uma pauta de direitos humanos, mas também uma condição fundamental
para a efetividade das respostas à emergência climática.
Nesse contexto, torna-se relevante observar como essas perspectivas se expressam em
iniciativas concretas de apoio a ações construídas a partir da base e desenvolvidas nos
territórios. Experiências de financiamento direto voltadas a povos indígenas e comunidades
tradicionais podem contribuir para fortalecer práticas que já existem nesses contextos e que
articulam proteção territorial, reprodução dos modos de vida e equilíbrio climático.
A experiência do Raízes – Justiça Climática para Povos Indígenas e Comunidades
Tradicionais evidencia como mecanismos filantrópicos podem apoiar iniciativas que
emergem dos próprios territórios, articulando a proteção da natureza, a justiça climática e a
continuidade dos modos de vida. Ao reconhecer e apoiar essas iniciativas, tais mecanismos
também tensionam modelos tradicionais de financiamento, historicamente distantes das
dinâmicas e prioridades construídas nos territórios.
Essa perspectiva contribui, portanto, para aprofundar o desenvolvimento do conceito
de justiça climática a partir do olhar daqueles que historicamente têm sustentado o
equilíbrio climático. Essas ações são construídas com base em saberes tradicionais,
adaptadas às especificidades territoriais e capazes de enfrentar os impactos da emergência
climática de forma sustentável, coletiva e inclusiva. Ao valorizar essas experiências, é
possível contribuir para o aprimoramento de estratégias filantrópicas que ampliem o acesso
a recursos por parte das comunidades e fortaleçam respostas climáticas enraizadas nas
realidades vividas.
Mais do que respostas locais para um problema global, essas experiências revelam que
povos indígenas e comunidades tradicionais são protagonistas na construção de caminhos
concretos para a justiça climática. Reconhecer, apoiar e aprender com essas práticas é um
passo fundamental rumo a soluções climáticas mais justas, eficazes e alinhadas com a
diversidade de saberes e modos de vida.
No entanto, é importante também ter cautela na forma como determinadas narrativas são
construídas no âmbito climático. Com frequência, práticas, conhecimentos e modos de vida
de povos indígenas e comunidades tradicionais são apresentados como “soluções
climáticas”. Ainda que essas práticas contribuam para a proteção dos territórios e para o
equilíbrio ecológico, é fundamental reconhecer que elas não foram concebidas
originalmente como respostas à emergência climática, mas como expressões de
formas próprias de habitar, cuidar e organizar a vida.
Quando esses modos de vida são enquadrados exclusivamente como “soluções”, corre-se
o risco de reduzi-los a instrumentos de enfrentamento da crise climática, apagando seus
significados cosmológicos, culturais e políticos. Essa tradução, feita a partir de categorias
externas, pode levar à instrumentalização de práticas e saberes que possuem sentidos
muito mais amplos. Mais do que estratégias criadas para enfrentar a crise climática, essas
práticas refletem outras formas de se relacionar com o mundo, construídas historicamente
por esses povos em relação direta com seus territórios.
Essa reflexão dialoga com perspectivas críticas como as desenvolvidas por Antônio Bispo
dos Santos, que nos convidam a compreender os saberes e práticas tradicionais a partir de
suas próprias cosmologias e formas de vida, e não apenas a partir das categorias da
racionalidade dominante.
Partir das experiências territoriais não significa apenas incluir novos atores no debate
climático, mas também questionar os próprios marcos conceituais que organizam a forma
dominante de compreender a crise climática e suas respostas.
Reconhecer essas perspectivas não implica apenas ampliar o repertório de respostas à
crise climática, mas repensar as próprias bases conceituais e políticas a partir das quais
essa crise tem sido compreendida e enfrentada.
* Especialista em Direitos Humanos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e bacharela em Direito pela mesma instituição. Assessora de Projetos – Raízes – Justiça Climática para Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais. Atua na coordenação cotidiana das iniciativas apoiadas, acompanhando organizações, fornecendo assessoramento técnico, monitorando atividades e contribuindo para o desenho e implementação das estratégias programáticas do Raízes no Fundo Brasil.
