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Fundo Brasil completa 20 anos apoiando a sociedade brasileira na luta por direitos

Foto em destaque: FFCN/Acervo Fundo Brasil

Ao completar duas décadas, firme em seu propósito de descentralizar recursos e fazê-los chegar a organizações sociais e coletivos que têm pouco acesso a financiamento, e que atuam na intersecção de raça, gênero e território, o Brazil Fund for Human Rights celebra o marco histórico de R$ 130 milhões doados a mais de 2.300 iniciativas.

Fundada por ativistas como um mecanismo para mobilizar e descentralizar recursos da filantropia, a organização traz, desde a origem, uma proposta inovadora: financiar a base da sociedade em suas lutas. Fortalecer a mudança social criada e protagonizada pelas pessoas e comunidades diretamente atingidas por violações de direitos humanos em suas mais diversas formas.

“Ampliamos continuamente nossa capacidade de captar recursos e carreá-los para o fortalecimento dessas e de várias outras causas – visto que somos um fundo que trabalha com base em uma escuta permanente e aprofundada, para compreender quase que em tempo real quais são as demandas prioritárias e também as urgências do momento”, diz Ana Valéria Araújo, diretora executiva do Fundo Brasil.

Nesta entrevista concedida à Rede Comuá, Ana Valéria Araújo analisa as conquistas do Fundo, os desafios que persistem, as mudanças no contexto dos direitos humanos no país ao longo desse período e a inclusão da mudança climática e do trabalho digno entre as lutas apoiadas.

Ela destaca também a atuação das organizações e fundos de filantropia de justiça social e socioambiental da Rede Comuá, que vêm pautando debates e apresentando propostas inovadoras para o fortalecimento da filantropia brasileira, inclusive diante do difícil cenário atual de financiamento.

“Estamos levando adiante os modelos de colaboração que criamos e aperfeiçoamos no dia a dia do nosso trabalho coletivo, como a Aliança Entre Fundos. Devagar, estamos mostrando às filantropias corporativa e familiar formas alternativas de melhorar a vida no nosso país, e convidando essas filantropias para se unirem a nós. Como? Por meio de parcerias baseadas na escuta dos territórios e comunidades, no reconhecimento de seu protagonismo, na confiança em suas soluções inovadoras e em suas contribuições valiosas para a diversidade da vida brasileira. Este é o nosso diferencial, em um contexto em que há muito a ser feito, porque a maior parte dos recursos da filantropia ainda não chega a organizações de base. Nós sabemos fazer esses recursos chegarem.“

O Fundo Brasil completa 20 anos apoiando a sociedade brasileira na luta por direitos humanos. De lá pra cá, o que mudou no país no contexto de atuação do Fundo?

O Fundo Brasil de Direitos Humanos foi criado por um grupo de ativistas como um mecanismo para mobilizar e descentralizar recursos da filantropia, levando apoio financeiro a organizações de base e movimentos sociais dedicados à defesa de direitos em todas as partes do país. O objetivo era colocar recursos onde ninguém mais colocava, chegar aos grupos com pouco ou nenhum acesso a esse tipo de apoio. E fazer isso com um olhar apurado para as questões de raça, gênero e território, e para as interseccionalidades entre esses marcadores.

Tratava-se, portanto, de uma proposta inovadora desde a sua origem: financiar a base da sociedade, as lutas profundamente assentadas em seus territórios, com foco no combate à violência institucional e com um olhar específico para gênero, direitos das mulheres, enfrentamento ao racismo, lutas de povos indígenas e comunidades tradicionais por terra, território e acesso a recursos naturais, temas de justiça criminal, entre outros.

Ou seja, tratava-se de fortalecer a mudança social criada e protagonizada pelas pessoas e comunidades que são diretamente atingidas por violações de direitos humanos nas suas mais diversas formas. 

De lá para cá, o país avançou significativamente em nomear, compreender e começar a enfrentar os problemas que estruturam a nossa desigualdade. Grupos historicamente minorizados nos espaços de debate e decisão sobre a vida coletiva conseguiram amplificar sua voz. São vários exemplos. A luta dos povos indígenas é, hoje, central na esfera pública brasileira. A população negra conquistou, à custa de mobilização incansável, políticas de reparação que, se ainda não resolveram toda a desigualdade produzida por séculos de racismo, são um sucesso em inserir pessoas negras em espaços antes completamente segregados, com avanços concretos na vida dessa população, apesar do muito que ainda precisa ser feito.

Encontro de Projetos 2025 – Foto: Natalia Paula / Acervo Fundo Brasil

A trajetória do Fundo Brasil nessas duas décadas está profundamente conectada a esse percurso. Ampliamos continuamente nossa capacidade de captar recursos e carreá-los para o fortalecimento dessas e de várias outras causas – visto que somos um fundo que trabalha com base em uma escuta permanente e aprofundada, para compreender quaseem tempo real quais são as demandas prioritárias e também as urgências do momento. 

Com isso, para além de levar recursos aos grupos de base, o Fundo Brasil se tornou relevante também no fortalecimento de organizações de médio e grande porte no campo dos direitos humanos. Ao lado de apoios estruturantes, que visam mudanças de grande impacto e levam mais tempo para se concretizar, criamos e aperfeiçoamos metodologias para apoiar emergências, tanto ameaças à vida e à integridade de defensoras e defensores dessas causas quanto emergências territoriais aprofundadas pelas mudanças climáticas. Agregamos, ainda, apoios à articulação entre grupos e causas, visando fortalecer um movimento diverso, amplo e presente em todo o país.

Por outro lado, os acontecimentos institucionais dos últimos anos sedimentaram uma divisão profunda na nossa sociedade. Não se trata apenas de opiniões diferentes, mas da produção sistemática de desinformação como projeto de poder, que coloca em questionamento os marcos mínimos da civilidade e da vida coletiva que pareciam sedimentados a partir da Constituição de 1988. Isso dificulta o diálogo e os avanços coletivos rumo a uma sociedade com mais justiça e equidade. Esse é um grande desafio do momento. 

O que o Fundo celebra nessas duas décadas de atuação, e quais os novos desafios, ou desafios que ainda persistem?

Como já mencionado, o Fundo Brasil cresceu significativamente nessas duas décadas, e também criou e aperfeiçoou metodologias muito robustas para fortalecer a sociedade civil organizada pela defesa dos direitos humanos. 

De 20 projetos a cada ano, que era o que os recursos disponíveis no início nos permitiam apoiar, hoje temos mais de 400 projetos apoiados por ano. Neste mês de março de 2026, nosso volume total de doações chegou a R$130 milhões para mais de 2.300 iniciativas. Essa capilaridade, essa capacidade de chegar a todos os cantos desse país de dimensões continentais com recursos flexíveis, acessíveis, desburocratizados e com respostas rápidas quando elas são necessárias é, sem dúvida, algo a ser celebrado. 

Também quero destacar, no escopo das nossas metodologias de apoio, o diálogo para ouvir e entender o que é prioritário, quais apoios são mais urgentes na perspectiva das defensoras e defensores de direitos humanos. Além das relações baseadas em confiança nos nossos parceiros e em sua capacidade criativa e para gerir recursos.

A forma como aprimoramos essa metodologia ao longo dos anos também é outro ponto a ser destacado. A partir da abordagem interseccional que compreende raça, gênero e território como marcadores estruturantes das nossas desigualdades, apoiamos uma maioria de organizações lideradas pelas diversas mulheres brasileiras. Apoios a organizações de juventudes também estão entre nossas prioridades. Mergulhamos de forma estruturada e aprofundada em temas fundamentais dos direitos humanos, como enfrentamento ao racismo, direitos indígenas, de comunidades tradicionais e quilombolas, da população LGBTQIAPN+, combate ao encarceramento em massa e à violência nas prisões, que afetam sobretudo a população negra, pobre e jovem, proteção de defensores de direitos humanos ameaçados em razão de seu trabalho. 

De forma pioneira no país, apoiamos a luta por trabalho digno como uma causa fundamental dos direitos humanos. Neste momento, estamos iniciando uma linha específica que também é pioneira na filantropia brasileira, para fortalecer a sociedade civil e o campo dos direitos humanos na luta por direitos digitais – um dos grandes desafios do nosso tempo.

Persistem desafios importantes: a fragilização do financiamento internacional, a necessidade de captar mais recursos nacionais e a resistência ainda grande de parte da sociedade e do Estado a reconhecer que uma sociedade civil organizada forte e autônoma é parte essencial da democracia. Mas, ao chegar aos 20 anos, o Fundo Brasil reúne a experiência e o conhecimento necessários ao enfrentamento e à necessidade de garantir avanços que o presente demanda. 

Uma agenda transversal à pauta dos direitos, a mudança climática, tem trazido muitos desafios para a sociedade civil. Como o Fundo Brasil tem se integrado a ela?

A perspectiva do Fundo Brasil é que essa é uma agenda de direitos humanos. O que isso significa? Que é preciso buscar a regulação climática do planeta entendendo que os ecossistemas abrigam pessoas, comunidades, modos de vida que coexistem com esses espaços e que são fundamentais para manter o seu equilíbrio.

Nós entendemos que povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombos, periferias urbanas, trabalhadoras e trabalhadores do campo, das águas, das florestas, do mercado informal são desproporcionalmente afetados pelas mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que criam estratégias de adaptação e soluções para reverter a situação. São muitas as propostas inovadoras e com resultado benéfico: agroflorestas, manejo tradicional dos territórios, pontos populares de trabalho.

Clima e direitos territoriais são pautas presentes no trabalho do Fundo Brasil desde o começo. Atualmente, duas de nossas linhas de ação estão bastante concentradas em fortalecer a autonomia desses povos e populações para que tenham voz e participação no debate público. O Raízes – Justiça Climática para Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais aborda a questão pelo ângulo da justiça climática. O Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno tem feito apoios para as propostas voltadas a uma transição justa, um dos principais debates para que a descarbonização da economia não aprofunde desigualdades.Juntas, as duas iniciativas já doaram mais de R$ 40 milhões.

Equipe Fundo Brasil de Direitos Humanos na Cop30 – Foto: Acervo Fundo Brasil

Agora mesmo está aberto o edital “Soluções Climáticas a partir da Base”, que doará mais R$ 2,25 milhões para apoiar ao menos 40 organizações. Essas iniciativas mostram que a justiça climática passa por garantir direitos territoriais, acesso à terra, à água, à energia e ao trabalho digno.

O enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas recebe também atenção para situações extremas. Neste sentido, temos apoio específico para emergências territoriais, como queimadas, enchentes e secas.

O Fundo Brasil foi uma das organizações fundadoras da Rede Comuá. Como avalia o crescimento de organizações que atuam na filantropia de justiça social no Brasil hoje?

É motivo de orgulho para o Fundo Brasil ter sido um dos fundadores da Rede Comuá, integrar a gestão e participar da construção de um modelo de filantropia profundamente enraizado no nosso país, que olha de forma muito específica para as nossas questões e é voltada à justiça social e socioambiental.

Esse grupo de organizações que compõem a Rede Comuá tem pautado debates e apresentado propostas inovadoras para o fortalecimento da filantropia brasileira – principalmente, mas não apenas, diante do cenário difícil de financiamento que vivemos atualmente em âmbito internacional. 

Estamos levando adiante os modelos de colaboração que criamos e aperfeiçoamos no dia a dia do nosso trabalho coletivo, como a Aliança Entre Fundos. Devagar, estamos mostrando às filantropias corporativa e familiar formas alternativas de melhorar a vida no nosso país, e convidando essas filantropias para se unirem a nós. Como? Por meio de parcerias baseadas na escuta dos territórios e comunidades, no reconhecimento de seu protagonismo, na confiança em suas soluções inovadoras e em suas contribuições valiosas para a diversidade da vida brasileira.

Os resultados do trabalho realizado pelo coletivo de organizações reunidas na Rede Comuá comprovam a nossa eficácia em fazer os recursos financeiros chegarem às mãos de quem está fazendo a transformação a partir da base da sociedade brasileira, mesmo nas regiões remotas do país. 

As organizações que integram a Rede Comuá são fundamentais para ampliar a cultura de doação de pessoas físicas e empresas brasileiras para causas de justiça social, sem perder de vista a relevância de se garantir a autonomia dos movimentos. Este é o nosso diferencial, em um contexto em que há muito a ser feito, porque a maior parte dos recursos da filantropia ainda não chega a organizações de base. Nós sabemos fazer esses recursos chegarem

Como a filantropia pode contribuir para o fortalecimento da democracia frente a contextos desafiadores como o atual?

A filantropia de justiça social e socioambiental propõe um modelo único de apoio às propostas e soluções autônomas criadas nos territórios por pessoas e comunidades que são diretamente atingidas por violações de direitos. Sua força está em trazer para o debate democrático essas propostas, com grande potencial de inovação e que muitas vezes já foram testadas e produziram efeitos benéficos.

Como já foi mencionado, o Fundo Brasil leva recursos de forma desburocratizada, flexível e rápida aos grupos e coletivos em todo o país. Isso significa impulsionar uma sociedade civil forte, plural e resiliente, condição fundamental para o aprimoramento da democracia. São 20 anos apoiando quem luta para que o essencial permaneça. E, como diz a campanha que criamos para celebrar esse marco, isso é só o começo. 

Equipe no Acampamento Terra Livre 2023 – Acervo Fundo Brasil

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