Welcome to the Comuá Network!

ICOM completa 20 anos apoiando a sociedade civil numa Grande Florianópolis que está fora das estatísticas oficiais

Imagem destaque: Reprodução ICOM

O ICOM (Instituto Comunitário Grande Florianópolis) completa 20 anos em novembro deste ano. A atuação numa cidade que é associada, no imaginário popular, a belezas turísticas, inovação e boa qualidade de vida, traz desafios de mobilização de recursos para apoio à sociedade civil.  Como toda grande cidade, Florianópolis tem contrastes econômicos e sociais. Apesar de ter um dos melhores IDHs do país, possui famílias em situação de extrema pobreza e, segundo dados de 2019, 12 mil adolescentes e jovens que nem estudavam e nem trabalhavam.

É frente a esse contexto que o ICOM tece sua atuação. “Esse é o nosso maior desafio na mobilização de recursos: romper com a ideia de que nosso território “vai bem” por inteiro, que seus indicadores representam a média. Ainda há muitas pessoas que não usufruem dessa qualidade de vida”, analisa Willian Narzetti, gerente executivo do ICOM. Ao longo dos 20 anos de atuação, o Instituto destaca o fortalecimento de 3 mil organizações da sociedade civil e coletivos, a doação direta de R$ 7 milhões para organizações da sociedade civil e mais de R$ 16 milhões investidos em iniciativas comunitárias.

“Lideramos um Programa de Desenvolvimento Territorial reconhecido nacionalmente, articulando redes, mobilizando recursos e gerando impactos sustentáveis em contextos de alta vulnerabilidade.”

O ICOM tem também experimentado arranjos inovadores para garantir recursos para  desenvolvimento territorial. Única organização do sul do país selecionada na Chamada BNDES Periferias, o Instituto mobilizou R$ 5,4 milhões para a comunidade de Frei Damião, a maior favela de Santa Catarina, território onde já atua historicamente. 

Foi também nessa comunidade, que sofre com enchentes e outros eventos extremos por estar localizada em região de alagamentos, que o ICOM implementou o projeto-piloto Comunidades Resilientes, buscando preparar as pessoas para a compreensão das questões climáticas e para reagir rapidamente aos momentos emergenciais. Os principais resultados revelam que prevenção e articulação comunitária funcionam.

Em entrevista à Rede Comuá, Willian rememora a trajetória do Instituto, aponta desafios, destaca a experiência com fundos emergenciais e comunitários (até 2024, o ICOM já tinha criado 20 fundos, focados em temas como migração, equidade racial, promoção e enfrentamento à violência contra a mulher, promoção da equidade de gênero e promoção dos direitos LGBTQIAPN+), a atuação na Aliança Territorial (criada junto a seis outras organizações da Rede Comuá) e projeta futuros.

Florianópolis, apesar de ser uma cidade que aciona o imaginário popular como balneário turístico e bons índices de qualidade de vida, convive com a desigualdade socioambiental, como todas as grandes cidades. Como tem sido para o ICOM nesses anos atuar no desenvolvimento comunitário frente a esse contexto?

Florianópolis e região, sem dúvida, encantam por suas belezas naturais, pelos bons índices de qualidade de vida e por ser um dos principais polos de inovação do país. Quem não gostaria de viver na chamada Ilha da Magia, ou, mais recentemente, na Ilha do Silício?

Mas por trás desse cartão-postal existem iniquidades sociais profundas, que na nossa forma de trabalhar, só podem ser enfrentadas com compromisso coletivo. É difícil imaginar que uma das regiões com maior IDH do país ainda tenha famílias vivendo em situação de extrema pobreza, sendo muitas delas sem banheiro em casa. Também é difícil imaginar que num mesmo município em que sobram vagas no setor de tecnologia, que o mercado está em pleno emprego, havia, em 2019, mais de 12 mil adolescentes e jovens fora da escola e do mercado de trabalho. 

São contrastes que não são captados pelas estatísticas oficiais, e que são vitais para um desenvolvimento equitativo capaz de encarar as múltiplas realidades do território, suas desigualdades e potências.

E esse também é o nosso maior desafio na mobilização de recursos: romper com a ideia de que nosso território “vai bem” por inteiro, que seus indicadores representam a média, mas que ainda há muitas pessoas que não usufruem dessa qualidade de vida. É preciso dar luz às desigualdades para serem promovidas políticas públicas orçamentadas e projetos socioambientais que, de forma complementar, possam atacar essas iniquidades. 

Reprodução: ICOM

O ICOM trabalha a partir dos eixos de conhecimento e articulação; fortalecimento da sociedade civil; e estímulo ao investimento privado. Mobilizar ações para isso requer articulação de diferentes atores no território. Como o Instituto promove esse engajamento e estimula a participação dos diferentes atores e atrizes da sociedade civil, de empresas e do poder público? 

Criando e potencializando espaços qualificados para o diálogo, para a construção de relações de confiança e corresponsabilidade. Pode parecer trivial, mas não é. Reunir diferentes atores com trajetórias, condições, objetivos e visões de mundo tão diversas, e promover debates profundos, maduros e respeitosos, é um desafio enorme. E é justamente aí que a articulação ganha um papel ainda mais potente: ela não é só mediação, é caminho para construir soluções efetivas que extrapolam os interesses pessoais ou de determinado segmento.

Isso significa dizer que trabalhar de forma articulada deixou de ser, há muito tempo, apenas retórica, para se materializar em ações concretas e com resultados evidenciáveis. 

 A criação e administração de fundos emergenciais e comunitários é uma grande expertise do ICOM. Como tem sido essa experiência?

Tem sido uma aposta ousada e feliz, que reafirma o papel estratégico da sociedade civil organizada na resposta às demandas urgentes dos territórios. A criação e gestão desses fundos vêm materializando um modelo de filantropia comunitária com identidade própria, baseado em governança participativa, conhecimento profundo dos territórios, escuta ativa das lideranças locais, mobilização de recursos de forma ágil, transparente e pautada na confiança.

Estamos falando de fundos que respondem a causas sensíveis e prioritárias da agenda pública, muitas vezes chegando antes de qualquer ajuda governamental. Trata-se de experiências de inovação social que fortalecem o ecossistema da sociedade civil organizada, com capacidade para inspirar políticas públicas.

Em momentos de tragédia ou comoção social, percebemos que as pessoas, organizações e governantes estão mais sensíveis e propensos a doar, o que nos permite reagir com agilidade onde é mais necessário. Ao mesmo tempo, esse modelo nos convida a refletir sobre a cultura de doação no Brasil, que ainda é majoritariamente reativa, voltada a emergências e situações pontuais, em vez de estratégica ou preventiva, voltada à transformação estrutural e ao fortalecimento contínuo das organizações.

Por isso, temos direcionado cada vez mais nossos esforços para a prevenção e para o fortalecimento de uma cultura de doação contínua. Acreditamos que, para responder de forma eficiente a tragédias e situações de crise, é fundamental que nós, enquanto sociedade civil organizada, estejamos fortes nos períodos de calmaria. Isso inclui sustentabilidade financeira, capacidade técnica, equipe multidisciplinar, articulação em rede e conhecimento profundo do território.

O ICOM integra a Aliança Territorial, criada no âmbito e com membros da Rede Comuá. Como essa Aliança tem contribuído para o fortalecimento e a troca entre as organizações que a compõem?

A Aliança Territorial tem contribuído com o compromisso de diferentes filantropias enraizadas no território, que reconhecem suas múltiplas camadas, temas, dores, potências e complexidades. 

O mais potente dessas trocas é que, mesmo partilhando esse propósito comum, conseguimos honrar as singularidades dos nossos contextos, porque cada território tem sua própria história, ritmo, urgência e forma de caminhar.

Participar da Aliança Territorial, com organizações referências, nos proporciona a troca de metodologias, práticas e experiências que deram certo em outros lugares, e que podem ser adaptadas, replicadas e reinventadas a partir da nossa realidade local.

O ICOM foi a única organização do Sul do país selecionada na Chamada BNDES Periferias, com R$ 5,4 milhão para a comunidade de Frei Damião, reconhecida como a maior favela de Santa Catarina. Como esse recurso impacta o trabalho que o Instituto já vem desenvolvendo com essa comunidade? 

Esse recurso amplia e fortalece o nosso Programa de Desenvolvimento Territorial no Frei Damião, uma comunidade onde o ICOM atua há mais de 15 anos, de forma contínua e comprometida. Nossas ações ali estão organizadas em sete eixos estruturantes: urbanização, habitação, saúde, educação, trabalho e renda, cultura e esporte, além do fortalecimento das organizações da sociedade civil.

A chegada do investimento do BNDES Periferias potencializa uma atuação que já tem base sólida no território, com protagonismo comunitário e construção coletiva. Estamos falando de uma das regiões com os maiores indicadores de vulnerabilidade de Santa Catarina: 91% das famílias vivem com até dois salários-mínimos, e 42% estão abaixo da linha da pobreza.

Investir no Frei Damião é acelerar a justiça social. Para isso, lideramos uma grande coalizão composta por organizações da sociedade civil, as maiores empresas da região, diferentes órgãos do poder público, universidades, escolas, CRAS, CREAS, UBS, e outros atores, todos corresponsáveis por ações concretas que, somadas, vão atingir as metas de do Programa de Desenvolvimento Territorial.

Foi também nessa comunidade, que sofre com enchentes e outros eventos extremos por estar localizada em região de alagamentos, que o ICOM implementou o projeto-piloto Comunidades Resilientes, buscando preparar as pessoas para a compreensão das questões climáticas e para reagir rapidamente aos momentos emergenciais. Quais os resultados dessa atuação?

Os principais resultados do projeto Comunidades Resilientes revelam que prevenção e articulação comunitária funcionam.

Graças à combinação de esforços, que incluiu a dragagem dos rios do entorno pela prefeitura, a pavimentação em 70% das vias da comunidade e a instalação de estrutura de drenagem, o território conseguiu, em 2024, enfrentar intensas chuvas com o mínimo de danos e prejuízos. Isso representa um avanço concreto na capacidade do Frei Damião de lidar com eventos extremos.

Além da infraestrutura, trabalhamos fortemente na conscientização e formação técnica da comunidade, com destaque para 02 frentes:

Defesa Civil nas Escolas: A Escola Básica do Frei Damião foi a primeira da Grande Florianópolis a receber o programa estadual Defesa Civil nas Escolas. Estudantes do 6º e 7º anos participaram de atividades sobre gestão de risco, desastres, meio ambiente e segurança, promovendo a cultura da autoproteção desde cedo.

Criação do NUPDEC (Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil): Em 2024, com apoio da Defesa Civil municipal, implantamos o primeiro NUPDEC no município de Palhoça–SC. Foi capacitado um grupo com 18 moradores, que aprenderam técnicas de proteção comunitária para atuar em situações de emergência, de forma complementar às equipes técnicas da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, etc.  

Como exemplo de uma comunidade preparada para mitigar impactos de emergências, recentemente tivemos grandes chuvas que alagaram parcialmente esta comunidade, e a capacidade de resposta dos diferentes órgãos do poder público, da sociedade civil organizada local, dos moradores, incluindo o NUPDEC, foi impressionante. A resposta foi rápida, articulada e efetiva. 

Que conquistas e marcos destacaria nesse processo de 20 anos de atuação do ICOM? 

Ao longo desses 20 anos, nós do ICOM acumulamos importantes conquistas que refletem nosso compromisso com a inovação social.

Assessoramos e capacitamos cerca de 3.000 organizações da sociedade civil e coletivos, construindo pontes entre conhecimento, recursos e comunidades. Investimos mais de R$ 16 milhões em iniciativas comunitárias, e doamos diretamente R$ 7 milhões para OSCs.

Lideramos um Programa de Desenvolvimento Territorial reconhecido nacionalmente, articulando redes, mobilizando recursos e gerando impactos sustentáveis em contextos de alta vulnerabilidade.

Fomos pioneiros ao criar o primeiro Banco Comunitário de Santa Catarina, e estruturamos 20 fundos comunitários, impulsionando soluções locais para desafios complexos.

Entendemos que resolver problemas públicos complexos exige articulação, visão de futuro e coragem para inovar. É isso que temos feito nestas duas décadas: antecipar tendências, construir soluções em rede e evidenciar resultados que importam para as pessoas e para os territórios.

E que futuros vislumbra para a organização?

Continuar promovendo inovação social nos territórios onde atuamos é um dos caminhos que seguimos vislumbrando para o futuro do ICOM. Queremos ampliar programas estruturantes e de longo prazo, com foco na transformação sistêmica das comunidades.

Também queremos um futuro em que as organizações da sociedade civil não estejam à margem do setor de tecnologia, mas sim no centro da inovação, contribuindo com sua potência, experiência e conexão com os territórios. Vislumbramos um ecossistema onde a chamada “Ilha do Silício” reconheça as OSCs como atores estratégicos no desenvolvimento de soluções sociais e tecnológicas, e onde a inovação contemple também as realidades periféricas e os desafios coletivos.

Nosso eixo de Investimento Social Privado (ISP) também desponta como uma frente estratégica para o futuro, consolidando o ICOM como uma organização com expertise em soluções estratégicas para parceiros públicos, privados e do campo social, e com capacidade crescente de doar para a sociedade civil organizada de forma relevante e contínua.

Tudo isso sem perder de vista uma premissa importante: garantir nossa sustentabilidade financeira para podermos seguir gerando impacto social consistente, coletivo e transformador.

KEEP READING

Foto: Rebeca Roxani Binda - Volta Grande do Xingu
Territórios, clima e modos ...
28 de April de 2026
Assembleia de sócios 2026 | Divulgação: Rede Comuá (@barcelosnotbarreto)
Rede Comuá realiza assemble...
27 de March de 2026
LUCT7943
Fundo Brasil completa 20 an...
27 de March de 2026
Belém (PA), 11:11:2025 - Indígenas participam da inauguração da Aldeia COP. Foto- Bruno Peres:Agência Brasil
Visibilidade em Disputa: So...
18 de March de 2026
Loading more articles....Please wait!