Foto reprodução | Tabôa
Em 2025, a Tabôa – Fortalecimento Comunitário completa 10 anos de atuação dedicada à construção de territórios mais justos, sustentáveis e resilientes. Para marcar essa trajetória, conversamos com Roberto Vilela, diretor-executivo da organização, que relembra marcos importantes da caminhada, como a adoção de conselhos comunitários entre 2015 e 2017 e o trabalho contínuo com comunidades rurais, em especial com agricultores familiares assentados. “Colocar a comunidade no centro da decisão sempre foi essencial”, afirma Vilela, reforçando que construir com, e não apenas para os territórios, segue sendo um princípio que atravessa toda a atuação da Tabôa.
Integrante da Aliança Territorial (rede formada por sete organizações da Rede Comuá), a Tabôa também aposta na potência da colaboração para ampliar o acesso a recursos e fortalecer o protagonismo comunitário na luta por justiça socioambiental. Para Vilela, os fundos territoriais ocupam um lugar estratégico nesse processo: ao descentralizar decisões e reconhecer as comunidades como agentes da mudança, eles tornam possíveis respostas mais criativas, eficazes e sustentáveis, mesmo em um cenário de escassez de recursos.
Boa leitura!
A Tabôa completa 10 anos em 2025. Quais marcos ou viradas você destacaria nessa trajetória? E o que, para você, permanece como essência na atuação da organização junto às comunidades?
Nesses 10 anos de atuação, tivemos muitos aprendizados e marcos importantes. Dentre eles, as chamadas de projetos, que realizamos entre 2015 e 2017, quando adotamos conselhos comunitários para avaliação dos projetos a serem apoiados, colocando em prática a ideia de que a própria comunidade deve decidir sobre a alocação dos recursos no território.
Destaco também nossa atuação no fortalecimento de comunidades rurais, com foco em agricultores e agricultoras familiares, em sua grande maioria assentados de reforma agrária, por meio de um conjunto articulado de serviços que incluem doação, crédito, assistência técnica, disseminação de conhecimentos e intercâmbio de experiências.
Em toda essa caminhada, permanece como essência a construção com e não apenas para as comunidades. Esse é um princípio estruturante de nosso jeito de fazer.
Fortalecer comunidades a partir do reconhecimento de seus territórios como potências é um dos princípios fundantes da organização. O que esse compromisso tem ensinado, na prática, sobre justiça socioambiental construída desde a base?
São muitos os aprendizados, mas o principal é que trabalhar a partir dos territórios envolve diálogo, escuta atenta e co-construção de iniciativas para potencializar os saberes e forças dos atores locais. Requer também o entendimento de que as vivências nos territórios não são as mesmas para todas as pessoas e, por isso, é importante cuidar das transversalidades de agendas como gênero, juventudes e adaptação às mudanças climáticas. As soluções são propostas pelas comunidades a partir de seus saberes e também de suas demandas prioritárias, como, por exemplo, o apoio a agroindústrias, viveiros, ou sistemas agroflorestais agroecológicos, que contribuem, ao mesmo tempo, para gerar renda e resiliência climática. Outro ponto é a importância de apoiar a atuação e formação de lideranças comunitárias, fortalecendo suas pautas e capacidades de incidência.
Como integrante da Aliança Territorial — articulação formada por sete organizações da Rede Comuá, com presença em mais de 100 municípios —, como você analisa a contribuição desse tipo de construção coletiva para o fortalecimento territorial e a transformação social? E quais contribuições os fundos territoriais oferecem para o ecossistema da filantropia?
É no território que as desigualdades se manifestam em suas diferentes dimensões, e também é nele que as comunidades constroem soluções inovadoras para enfrentar desafios que vivenciam diariamente. Então, é preciso fazer com que mais recursos cheguem aos territórios, para fortalecer e impulsionar as lutas e as pautas prioritárias das comunidades. A Aliança Territorial parte desse entendimento e da vontade de suas organizações em compartilhar e trocar conhecimentos e práticas de filantropia que se assentam nestes princípios, já testadas e com resultados efetivos em diferentes territórios, do Nordeste ao Sul do Brasil. Em comum, temos o fato de que todas essas organizações integram os territórios que apoiam, são parte desse tecido social. Esse jeito de fazer filantropia com e a partir dos territórios, assumindo a centralidade das comunidades como protagonistas das mudanças, é uma das principais contribuições dessa articulação nascida no âmbito da Rede Comuá.

A Tabôa tem apostado em mecanismos de financiamento como o crédito produtivo e a bioeconomia para impulsionar iniciativas comunitárias. Como essas outras estratégias se combinam para apoiar soluções locais em territórios, especialmente em cenários de escasseamento de recursos internacionais, como o atual?
Os aprendizados acumulados a partir de nossa atuação nos mostram que apoiar o fortalecimento comunitário requer estratégias diversas e integradas, para enfrentar as desigualdades que alcançam os territórios, em diferentes níveis e escalas. Por exemplo, a agenda da restauração não tem alcançado a agricultura familiar, uma vez que os recursos estão focados em projetos com grande escala. Nossa atuação vem no sentido de viabilizar acesso a recursos financeiros e conhecimento para que famílias agricultoras atuem na restauração produtiva de suas propriedades, aumentando sua renda e a resiliência de sua produção, por meio da diversificação e revitalização do solo.
O crédito produtivo, associado ao apoio técnico, contextualizado para as realidades da agricultura familiar, é parte da estratégia de fortalecimento do protagonismo dessas famílias na agenda da restauração e da bioeconomia, a partir da valorização de saberes e vocações econômicas locais.
Pensando nos próximos anos, quais são os sonhos, prioridades e apostas que orientam a atuação da Tabôa para seguir contribuindo com territórios mais justos, sustentáveis e resilientes?
À luz dos resultados e aprendizados construídos nessa primeira década de atuação, vemos que é importante seguir investindo na consolidação e expansão desse trabalho tecido com as comunidades. Ampliar o apoio ao fortalecimento do protagonismo de grupos que historicamente vivenciam condições de maior vulnerabilidade – como mulheres, jovens – é uma das prioridades. Ampliar a atuação para construção de maior resiliência climática também, especialmente junto a assentamentos e comunidades quilombolas, fortalecendo sistemas agroecológicos de produção e sistemas agroflorestais, bem como suas agroindústrias e comercialização.
E acho que tem ainda o caminho de fortalecer a capacidade de articulações com diferentes atores, inovando e tendo coragem de experimentar novas respostas para desafios antigos. Nesses primeiros dez anos, a gente conseguiu mobilizar e aproximar atores do campo em agendas variadas, seja para a defesa de direitos ou enfrentamento de violências contra mulheres, seja para fortalecimento da agroecologia, ou para ampliação do crédito rural. Fortalecer esse caminho da articulação e inovação é muito potente. Nessa direção, uma das nossas prioridades nos próximos anos é atuar em rede com a Aliança Territorial para implementar editais conjuntos nos diversos territórios em que atuamos, bem como ampliar a incidência no campo da filantropia no sentido de ampliar o acesso a recursos para os territórios, valorizando o protagonismo dos atores locais.
