Entre os dias 12 e 14 de março, a Rede Comuá realizou sua assembleia em Serra Grande, distrito de Uruçuca, no litoral sul da Bahia. Esta foi a primeira vez que a rede promoveu o encontro no Nordeste, em uma experiência marcada por debates estratégicos, convivência, cuidado coletivo e conexão com o território. A acolhida foi feita pela Tabôa Fortalecimento Comunitário, organização membro da rede, que recebeu o grupo no território onde está sediada.
“Foi uma grande honra acolher a primeira assembleia da Comuá no Nordeste, aqui em Serra Grande, município de Uruçuca, no litoral sul da Bahia. Foi uma oportunidade para os membros da Rede conhecerem o nosso território de atuação e nossas iniciativas de filantropia comunitária e outras ações de fortalecimento de comunidades urbanas e rurais”, afirmou o diretor executivo da Tabôa Fortalecimento Comunitário.
Ao longo dos dois dias de encontro, membros da Rede se reuniram em torno de uma programação voltada ao fortalecimento da Comuá e à construção coletiva de caminhos para o próximo ciclo. Entre os principais temas abordados estiveram a atualização da identidade da rede, discussões sobre governança, planejamento para 2026, leitura de contexto e trocas sobre desafios e possibilidades para a atuação coletiva em um cenário político e institucional cada vez mais complexo.
Dois dias de trocas, reflexões e construção coletiva
A assembleia começou com atividades de acolhimento e integração, seguidas por uma retrospectiva sobre o percurso recente da Rede Comuá e um balanço do último ciclo. O encontro abriu espaço para revisitar conquistas, aprendizados e desafios, criando uma base comum para as conversas dos dias seguintes.
Um dos pontos centrais da programação foi a reflexão sobre a identidade da rede. As discussões buscaram reunir elementos que ajudam a responder, de forma mais compartilhada, quem é a Rede Comuá hoje e quais sentidos seguem fundamentais para orientar sua atuação e sua comunicação institucional. Temas como justiça socioambiental, democratização de recursos, territórios, autonomia, voz coletiva e bem viver atravessaram essas conversas.




Também estiveram na pauta temas ligados à governança e ao planejamento institucional, com debates sobre prioridades para 2026 e sobre contextos que devem impactar o trabalho da rede no próximo período. Houve ainda trocas sobre estratégias de atuação conjunta e articulada com outros atores do campo, em uma agenda que exige cada vez mais diálogo, convergência e construção coletiva.
Cuidado coletivo como parte da experiência da Rede
Além dos conteúdos debatidos, a assembleia também foi marcada pela dimensão do cuidado coletivo. Esse é um aprendizado que a Rede Comuá vem amadurecendo ao longo dos anos, também inspirada por experiências de seus membros, como o Instituto Procomum, e que tem se traduzido em movimentos próprios para fortalecer a forma como nos reunimos presencialmente. Mais do que uma atividade separada da programação, o cuidado aparece como parte do próprio encontro: na escuta, na atenção aos ritmos, na convivência, nas pausas, na alimentação e na maneira como o espaço é construído para acolher as pessoas.
Na prática, isso apareceu de diferentes formas durante os dias de encontro. Um dos momentos mais especiais foi o café preparado pelo Coletivo Mulheres CriAtivas, grupo de empreendedorismo solidário localizado em Serra Grande. O coletivo atua na produção artesanal e gastronômica, valorizando saberes locais e promovendo autonomia econômica de mulheres. Nos dois dias de assembleia, elas nos receberam com pratos como acarajé, bolos, sucos e café, tudo feito com muito carinho e com produtos do território.
A oferta de massagem também integrou essa ambiência de cuidado, contribuindo para um encontro mais atento ao bem-estar, à presença e à qualidade da convivência entre as pessoas participantes. Mais do que um complemento à programação, essa dimensão reafirma algo importante para a própria experiência de rede: espaços comuns mais potentes e sustentáveis também dependem da forma como escolhemos estar juntas.

Conexão com o território
Realizar a assembleia no litoral sul da Bahia também fez diferença pela possibilidade de viver o encontro em relação mais próxima com o território. Estivemos em um lugar acolhedor, caloroso, próximo do mar, rodeado de natureza e de pessoas gentis, o que contribuiu para um ritmo de encontro que combinou trabalho, convivência e presença.
Ao longo dos dois dias, também houve momentos de confraternização e circulação pela vila, incluindo um jantar especial e uma visita à Feira Cultural e Comunitária Saberes e Sabores, onde pudemos conhecer mais de perto a feira e outras iniciativas locais a partir das integrantes Joselita Machado, Dona Jô, militante de base comunitária, e Amanda Maia, do Coletivo Guilda Anansi, ambas integrantes da feira. Esses momentos ajudaram a fortalecer os laços entre os membros e ampliaram a experiência para além da sala de atividades, reafirmando que redes também se constroem no convívio, na escuta e na confiança entre as pessoas que as sustentam.

Aliança Territorial: caminhos que seguem se fortalecendo
A passagem por Uruçuca também foi marcada pelo encontro da Aliança Territorial, formada por sete organizações da Rede Comuá: Casa Fluminense, FunBEA, Instituto Baixada, ICOM, Instituto Procomum, Redes da Maré e Tabôa Fortalecimento Comunitário. No início de março, representantes dessas organizações estiveram reunidos para planejar suas ações conjuntas no campo da filantropia comunitária e de base territorial voltada à justiça socioambiental.
Foi um encontro de diálogos, reflexões e construção coletiva em torno de um horizonte comum: fortalecer territórios e comunidades para que sejam protagonistas de suas próprias histórias. Também foi uma alegria acompanhar o fortalecimento crescente da Aliança, que vem consolidando, desde 2023, práticas filantrópicas baseadas em presença, permanência, proximidade, confiança e compromisso com transformações concretas nos territórios.

Encerramento com visita de campo ao Assentamento Nova Vitória
Encerrando a programação, no sábado, o grupo participou de uma visita de campo ao Assentamento Nova Vitória, em Ilhéus, com a presença das lideranças Ailana Reis, Antônio Bomfim, Isamara Lírio Pinho, Pedro Conceição e Lucineide Dias. Localizado na histórica Estrada do Cacau, o assentamento proporcionou às pessoas participantes uma aproximação concreta com uma experiência de referência em reforma agrária, sustentabilidade e fortalecimento comunitário.
Na agrovila, a comunidade se dedica à produção de cacau no sistema cabruca, cultivado à sombra da Mata Atlântica, além do plantio de outras culturas, da meliponicultura e da manufatura de subprodutos da floresta. A vivência também evidenciou a importância do apoio técnico e político para o fortalecimento comunitário. Por meio da atuação da Tabôa Fortalecimento Comunitário, o assentamento tem acessado metodologias de crédito, agricultura regenerativa e capacitações fundamentais para o seu desenvolvimento.
Ao percorrer o território, o grupo pôde observar como a articulação entre investimento social e protagonismo das famílias assentadas contribui para a preservação da biodiversidade local e para o aumento da renda familiar. A visita aprofundou a conexão com experiências locais da região e encerrou os dias de encontro com uma dimensão muito concreta dos temas que atravessam a atuação da Rede Comuá, como autonomia, sustentabilidade, fortalecimento comunitário e valorização das soluções construídas nos territórios.




Seguimos mais fortalecides para este novo ciclo, com vínculos renovados e mais elementos para sustentar, em rede, os caminhos que queremos seguir construindo. No blog e nas redes sociais da Comuá, seguiremos compartilhando os desdobramentos desse encontro e outras reflexões sobre o trabalho da rede ao longo do ano.
