Créditos da imagem – Kamiikia-Kisedje
*Este artigo foi escrito no âmbito do Programa Saberes da Rede Comuá e integra a programação do Mês da Filantropia que Transforma 2025, dedicado ao tema Clima e Direitos. A reflexão parte da escuta de mais de 500 respostas de organizações indígenas apoiadas pelo Fundo Casa Socioambiental, reunidas e analisadas pela pesquisadora Inimá Krenak
O tempo saiu do lugar. Para muitas comunidades indígenas, essa é a forma mais precisa de descrever a crise climática. Não é uma projeção para 2050, nem um gráfico de temperatura global. É a chuva que chega quando não devia, o rio que não corre como antes, o peixe que desaparece, a roça que perde a colheita inteira. É o compasso que guiava a vida, o tempo das festas, da pesca, das curas e dos plantios e que agora se desorganizou.
Essas vozes foram reunidas a partir de uma ampla escuta de organizações indígenas apoiadas pelo Fundo Casa Socioambiental. Todas nasceram de uma pergunta simples: “Você considera que sua região ou território esteja sofrendo os efeitos das mudanças climáticas? Se sim, quais as principais alterações percebidas?” A partir dessa pergunta direta, são reveladas narrativas concretas e carregadas de sentido:
“Antes, nós Mẽbêngôkre Xikrin sempre sabíamos quando ia chover, quando era época de brocar nossas roças, de plantar. Agora, o ciclo do clima mudou todo: tem ano que as famílias ficam sem roças, porque chove no verão ou não chove no inverno.”
“Os mais velhos da comunidade Apurinã relatam que ‘o tempo mudou muito’. As estações não seguem mais seu ciclo natural, as plantas não florescem ou frutificam nas épocas certas, e a piracema está irregular.”
“As mulheres dizem que já não sabem mais quando é inverno ou verão. O aumento da temperatura, o calor fora de hora e a mudança no calendário das chuvas fazem com que se percam plantações. Algumas frutas desapareceram.”
“Nosso território é como um corpo. Quando a água seca, a floresta sente, e a gente sente junto.”
“O tempo ficou mais bravo. Às vezes queima tudo. Outras vezes alaga tudo.”
Em diferentes biomas, a expressão “tempo fora do lugar” assume formas próprias. No Semiárido, vem acompanhada da irregularidade das chuvas e da perda de cultivos resilientes. “Nos últimos anos, a irregularidade das chuvas intensificou os períodos de seca, afetando a agricultura familiar e aumentando a insegurança alimentar”, relatam organizações da Caatinga. Na Amazônia, surge como seca extrema que isola comunidades, inviabiliza a navegação e a pesca: “As embarcações não tinham como entrar nos lagos que secaram. As aldeias ficaram isoladas por falta de logística”. No Cerrado, a queixa se repete sobre as queimadas e o calor sufocante: “Muitas árvores morreram e as manivas secaram, comprometendo a segurança alimentar e deixando todos mais vulneráveis a doenças”.
Essas mudanças não se limitam a impactos ambientais — desorganizam modos de vida inteiros. Uma liderança relatou: “Os rituais, que sempre tiveram momentos específicos para acontecer, agora estão cada vez mais difíceis de programar, pois o clima já não segue os ciclos previsíveis de antes”. Outra destacou: “Está difícil ensinar como era antes. O tempo da colheita não chega no mesmo momento”. O que se perde não é apenas técnica, mas memória coletiva.
A insegurança alimentar aparece como uma das faces mais graves. “Os cultivares que por gerações nos forneceram alimentos nem sempre dão os resultados esperados devido às alterações no clima, que afetam desde a germinação até a colheita”, relataram organizações. Uma liderança Guarani e Kaiowá disse de forma direta: “A terra se tornou pelada e sem árvores. Precisamos de reflorestamento para retomar nossas frutíferas e plantas medicinais.” Essas mudanças, somadas ao desmatamento e à monocultura, não são apenas um problema agrícola: são um risco direto à saúde, à soberania alimentar e à permanência no território.
O que emerge dessa escuta é um alerta que o debate climático global ainda insiste em ignorar: não existe clima sem direitos. Alterar o ciclo das chuvas é também violar o direito à alimentação, à cultura, à saúde, à autodeterminação. Quando um rio seca, não se perde apenas um recurso hídrico: perde-se a escola fluvial, a rota de comércio, a base da alimentação, a relação espiritual com aquele lugar.
O problema é que boa parte das políticas e investimentos para enfrentar a crise climática ainda opera de forma fragmentada: um programa para carbono aqui, outro para agricultura ali, outro para cultura em outro canto. Essa lógica desconectada ignora que, nos territórios indígenas, tudo está interligado. E é justamente essa visão integrada que a humanidade mais precisa aprender, e apoiar, se quiser ter algum futuro digno.
A filantropia comunitária tem, nesse cenário, uma oportunidade e uma responsabilidade. Quando o apoio chega de forma direta, ágil e respeitosa às comunidades, sem impor modelos externos, ele fortalece tanto as respostas emergenciais, como brigadas de incêndio, recuperação de roças e ações de abastecimento, quanto as estratégias de longo prazo, como reflorestamento, proteção de nascentes, retomada de cultivos tradicionais e fortalecimento da transmissão de saberes. Esse é o tipo de financiamento que entende que reflorestar não é só plantar árvores: é curar o solo, reativar sistemas alimentares, manter vivas histórias e reconectar gente e território.
Como lembra Davi Kopenawa, é preciso “manter o céu suspenso”. Isso não é apenas poesia: é política de sobrevivência. E, como diz Ailton Krenak, “somos parte da Terra” negar isso é acelerar o fim do mundo tal como o conhecemos. Esses ensinamentos não são inspiração para campanhas publicitárias; são, na prática, um chamado à mudança de paradigma, à revisão radical de prioridades.
O tempo saiu do lugar, mas as comunidades seguem observando, cuidando e recriando caminhos de permanência. É delas que vem o chamado para manter o céu suspenso e reconhecer que a Terra somos nós. Escutá-las e apoiá-las não é apenas um gesto de solidariedade: é uma condição de futuro.
As falas citadas neste artigo foram extraídas de respostas escritas por organizações indígenas em formulários de projetos enviados ao Fundo Casa Socioambiental. Na metodologia desta pesquisa, não há identificação de pessoas ou associações específicas, em respeito à confidencialidade dos dados, à proteção prevista na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao caráter coletivo da escuta. Agradeço às organizações que compartilharam suas experiências e saberes, que tornaram esta análise possível.
