Foto destaque: Camila Araujo/Arquivo ISPN
Alianza Socioambiental Fondos del Sur*
O cenário de financiamento para a sociedade civil está passando por um momento crítico. Em 2024, a Assistência Oficial ao Desenvolvimento (OAD) registrou uma queda de 7,1% – a primeira diminuição em seis anos – e novas reduções estão projetadas para o período entre 2025 e 2027. Além desses cortes, as restrições estão aumentando: leis de “agentes estrangeiros”, auditorias excessivas, discriminações políticas e narrativas que visam deslegitimar as ONGs, retratando-as como “radicais” ou até mesmo “terroristas”.
O impacto é direto e profundo. Organizações de base comunitária no Sul Global – aquelas na linha de frente da crise climática e social – veem sua capacidade de operar e sustentar processos de longo prazo enfraquecida.
Reflexões dos Fundos Locais
Facundo Ibarlucia, da Red Comunidades Rurales (Argentina), compartilhou recentemente ideias em um intercâmbio entre membros da Alianza Socioambiental Fondos del Sur que oferecem uma perspectiva mais ampla sobre os desafios e as oportunidades para alcançar a sustentabilidade financeira dos fundos locais.
“Menos de 10% dos recursos internacionais chegam aos fundos locais e à sociedade civil, e apenas 2% chegam diretamente às comunidades”, afirma Ibarlucia. Em outras palavras, aqueles que estão mais próximos das soluções são os que recebem menos recursos.
Além da escassez de financiamento, há também um ambiente hostil, com regulamentações restritivas e campanhas estigmatizantes. Essa combinação ameaça não apenas a viabilidade financeira, mas também a legitimidade social e política de muitas organizações.
Estratégias Emergentes
Ainda assim, os fundos locais estão explorando maneiras de sustentar seu trabalho. Entre as estratégias que se destacam:
- Diversificar as fontes de financiamento, construindo alianças com diferentes atores, ao mesmo tempo em que se salvaguarda a autonomia e os princípios organizacionais.
- Construir uma base de apoio cidadã por meio de doadores individuais. Embora exija processos de longo prazo, fortalece a independência em relação a agendas externas.
- Recursos não monetários: contribuições em espécie, serviços pro bono, auditorias ou tecnologia doadas, que se tornam estratégicos em tempos de crise.
- Colaboração entre fundos, apresentando propostas conjuntas e compartilhando aprendizados para enfrentar um ecossistema cada vez mais desafiador.
Essas estratégias mostram que a mobilização de recursos vai além de garantir financiamento: trata-se de aproveitar os ativos locais – legitimidade social, redes comunitárias, criatividade organizacional – como pilares da sustentabilidade.
Uma Crise que Impulsionou a Organização Coletiva
Um exemplo recente ilustra isso de forma poderosa. Em janeiro deste ano, uma mudança na política externa dos EUA desencadeou uma onda de incerteza na América Latina e em outras regiões do Sul Global. O que começou como uma medida administrativa se transformou em um corte drástico de financiamento, afetando centenas de organizações sociais.
A suspensão temporária da ajuda externa impactou diretamente agências como a Fundação Interamericana (Inter-American Foundation). O resultado: cortes orçamentários, demissões e o cancelamento imediato de doações vigentes. Muitas organizações dependiam fortemente desses recursos – algumas com mais de 70% de seu financiamento em risco – e mais de 60% relataram estar em risco de fechamento.
Em resposta, surgiu uma mobilização coletiva, liderada pela Red Comunidades Rurales junto a mais de 162 organizações afetadas. Sem financiamento externo, elas se organizaram em cinco grupos de trabalho: diagnóstico, riscos legais e financeiros, advocacy, comunicação e sustentabilidade.
Por meio de ferramentas colaborativas e contribuições solidárias, eles construíram um diagnóstico regional e elaboraram estratégias conjuntas: desde ações de pressão pública até assessoria jurídica e exploração de alternativas de financiamento local. Um marco foi uma pesquisa que coletou dados cruciais sobre os impactos, permitindo a criação de um mapa interativo que tornou visível a escala do problema.
Hoje, embora a suspensão do financiamento permaneça em vigor, a coalizão conseguiu levar o caso aos tribunais dos EUA. Um juiz do Distrito de Colúmbia ordenou a reintegração dos funcionários da Fundação Interamericana, embora o futuro dos contratos permaneça incerto.
Resiliência e Autonomia a Partir do Sul
Esta experiência, nascida em meio à turbulência, ecoa as reflexões de Ibarlucia: a sustentabilidade não depende apenas da disponibilidade de fundos externos, mas também da resiliência, da organização coletiva e da autonomia das organizações locais.
Fortalecer a mobilização de recursos envolve diversificar o apoio, reforçar a legitimidade social, ampliar as redes comunitárias e manter uma comunicação estratégica que destaque o papel dos fundos locais na defesa de direitos e na construção de alternativas.
A questão que esta crise nos deixa é clara: como nos preparamos para que decisões unilaterais do Norte Global não coloquem em risco os processos que estamos construindo a partir do Sul?
O que fica claro, em última análise, é que em tempos de cortes e restrições, os esforços de organização coletiva – como o liderado pela Red Comunidades Rurales e seus aliados – mostram que é possível transformar a crise em uma oportunidade para fortalecer a autonomia, a solidariedade e a capacidade de ação dos fundos locais no Sul Global.
*Texto originalmente publicado em https://alianzafondosdelsur.org/2025/09/strengthening-from-crisis-resource-mobilization-and-sustainability-for-local-funds-in-the-global-south/
