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E OS QUILOMBOS, “CUMÊ QUE FICA’? A URGÊNCIA DE UMA FILANTROPIA QUE RECONHEÇA ANTES DE TUDO AS PRÁTICAS ANCESTRAIS

Por Raimundo José da Silva Leite e Ludmila Pereira de Almeida

Refletir sobre como a filantropia comunitária chega aos quilombos é retomar alguns pontos que dizem respeito a como as comunidades permanecem vivas mesmo diante de tanta imposição de violações de direitos. A partir de nossa escuta e vivência nos quilombos, estamos entendendo aqui que “filantropia” – essa palavra que vem de fora das comunidades tradicionais -, em resumo, se volta para práticas de doações de recursos financeiros, geralmente, redirecionadas por grandes organizações. 

No entanto, no Brasil, nos quilombos, essa prática em si não é novidade. A reciprocidade, compartilhamento e cooperação de recursos (em especial, de saberes, de alimentos, de ajuda mútua, de fazer uma “vaquinha”), já ocorre de forma tradicional e secular, e as filantropias atuais precisam estar atentas a isso para não atropelarem os modos de vida.

De fato, são importantes os repasses de recursos às comunidades, é uma ação que, muitas vezes, e infelizmente, chega antes das políticas públicas. No entanto, é também importante que a filantropia não repita violências históricas e nem seja apenas para tentar mitigar problemas ou crises. É preciso, antes de tudo, que a filantropia que se comprometa com a transformação construa caminhos para que os problemas não cheguem – e isso exige tempo, é um processo que em um edital pode não trazer o resultado esperado. E, mais ainda importante, que fomente o que é de potência no território, que não é marcado só por dor e desgraça, mas por práticas de alegrias e felicidades cotidianas.

A busca incessante por “soluções” por parte das filantropias tem forçado muitas comunidades a redirecionar seus projetos para um olhar resolutivo pontual da necessidade dos editais. Isso sendo que o problema é uma imposição estrutural e, muitas vezes, atrelado a um problema global, como é o racismo, as injustiças climáticas, a educação e a saúde mental. 

Generalizar as necessidades da população quilombola também é retirar delas a possibilidade de dizerem o que realmente precisam e querem – em vez de chegarem impondo, sem diálogo, algo já pronto como cursos profissionalizantes e equipamentos -, lembrando que cada quilombo é um quilombo diferente, com questões diferentes. Um exemplo tem sido os grandes recursos filantrópicos voltados apenas para resolver os problemas da “emergência climática”, emergência que não foi criada pelos quilombos e muito menos pelas comunidades tradicionais e periféricas, que diante disso fazem de tudo para sobreviverem. 

Essa busca por “soluções climáticas” pelas filantropias, não podem ser colocadas como resumidas a darem resultados imediatos aos problemas considerados “climáticos” e esquecerem das pessoas e saberes que estão nos territórios. É preciso conectar recursos financeiros às necessidades de cada quilombo. É importante os recursos caminharem para antes de tudo para a regularização dos quilombos, porque apenas a titulação não garante autonomia total do território. 

Como já sabemos, os quilombos já tem as suas próprias soluções para as demandas e para a continuidade de seus saberes, pois o mais importante do que o que não temos, é o que temos. O cuidado coletivo e com o território, a troca de serviços, a fartura, a troca de afeto, saberes e sabores, os festejos que alimentam os modos de ser, o fazer um cofo, a colheita de Bacaba, a limpeza dos açudes e as brincadeiras coletivas são elementos que sustentam, por exemplo, a existência de 207 anos do Quilombo Rampa (MA). 

E tudo isso também são cuidados climáticos, porque não vai existir justiça climática sem as pessoas estarem fortalecidas culturalmente em seus próprios territórios. Isso parte da emergência do quilombo e não das filantropias externas que ainda se acham inovadoras em suas doações e propostas.

Só é comunitária, se a filantropia for partilhada e ancestral

Partindo dos saberes do Território do Quilombo Rampa (MA), a filantropia comunitária, são como três tambores que tocam juntos, precisa ser comunitária, partilhada e ancestral. Comunitária porque todo esse processo é levado no decorrer da vivência, de como acontecem as coisas, como são tocadas as coisas na comunidade. Essa comunhão é tanto entre as pessoas de uma própria comunidade como junto a uma outra comunidade de um outro território. 

Nisso entra a partilha de várias coisas, mas propomos chamar a atenção para duas palavras que são a “fartura” e o direito à ‘felicidade’ nos territórios. Que é entender como as comunidades quilombolas – muitas com mais de 200 anos de existência – como que a prática da filantropia comunitária, nesse caso, não é pautada na relação com o capital, com o dinheiro em si, em espécie, mas com outras formas de valores. 

Geralmente, no quilombo, quando a pessoa vai abater um gado para compartilhar com a comunidade e com uma outra comunidade, diminui a quantidade que vai para cada pessoa para levar mais para uma a comunidade que está precisando mais. Então, são esses detalhes que passam às vezes despercebidos de como são construídos e como são relacionados à nossa realidade, e o que a gente quer trazer como uma filantropia que é necessária.

Trago também o exemplo do comércio. Em várias comunidades que a gente passa, inclusive no Quilombo Rampa, tem pequenas quitandas, que não são pautadas na questão de dizer: “Ah, o dono do comércio vai ser o milionário daqui a pouco”, mas funcionam como “Ah, faltou o sal, faltou o feijão na casa de alguém, vai lá no comércio”. Às vezes a pessoa não tem o dinheiro, mas vai, volta com algo para casa do mesmo jeito. E essas trocas, elas acontecem no processo de comunidade, de forma natural.

E são trocas maiores quanto menores. Às vezes, é 1 kg de sal, um copo de açúcar. Ou hoje vai 50 pessoas para limpar a tua roça, mas amanhã vão 50 pessoas para limpar a roça de outro. E assim todo mundo limpa a roça de todo mundo. Essa partilha vai desde o pensar do lugar até o pensar do colher. E entender isso, essa outra forma de sentir a potência que é a filantropia comunitária que já ocorre nos quilombos, nos pequenos detalhes, é visualizar como os grandes detalhes de continuação de um território firme com mais 100, 200 anos permanece. E isso também se manifesta como forma de cultura, como o ritual do moí, da partilha do moí.

Mói e seu compartilhamento durante o Tambor na Mata. Foto: Arquivos da Rádio e TV Quilombo.

O “moí”, para quem não sabe, é um um alimento ancestral no Quilombo Rampa. É feito à base de água, limão, sal, tempero e farinha de puba. E vem acompanhado de peixe assado ou carne assada. Fazemos ele numa caixa d’água no final do ano, que é o Tambor da Mata, o maior processo cultural que existe na comunidade, e o moí, ele traz toda essa relação de compartilhamento que a gente fala. Pode fazer o maior mói possível, o mais gostoso possível, mas ele fica ruim quando se come só. Então, é um dos alimentos que você nunca vai ver a pessoa comendo só. É de três, dez e, às vezes, até mais de 100 pessoas como é no caso do Tambor da Mata. 

Esses feitos cotidianos fazem grande diferença no processo de continuação da cultura, do bom relacionamento e da proteção da comunidade, que é a uma filantropia manifestada na troca de muitas coisas, menos na questão do dinheiro. Essas trocas e doações de si ao coletivo, não atende ao capitalismo, mas à vida comunitária. Aparece nos pequenos detalhes, mas que são detalhes muito importantes da continuação do processo da vida no quilombo.

Dessa forma, como essa forma de filantropia permanece intacta até o dia de hoje? De uma forma que ela vai sendo atualizada praticamente todos os dias. Temos buscado chamar isso de uma “filantropia ancestral” também. Que é relacionada à fartura, à felicidade como direito dessas comunidades, a como elas manifestam esse lugar de alegria, de felicidade, de buscar suprir necessidades individuais e coletivas ao longo desse processo de mais de 200 anos do território.

É isso passa por entender como as comunidades combatem o racismo ambiental, o racismo estrutural, a fome, a pobreza, juntos pautados na troca. Pautada na ação diária, na partilha diária, no entendimento diário que é comunitário, é dividido. 

Outro exemplo, de partilha tradicional, é a questão do coco babaçu no período da Semana Santa, que é um dos períodos que mais se recorre ao coco babaçu, devido a tradição de comer várias comidas, como o peixe no leite de coco e o fazer do azeite do coco babaçu. Então, as mulheres se reúnem, em um dia para pegar para uma e outro dia para outra, e no final todo mundo tem um pouco de coco para conseguir tirar o azeite, vender alguns litros na cidade para comprar a comida e tirar o leite do coco para temperar a comida naquele período. 

Então, tudo isso pode se resumir em uma filantropia ancestral nos territórios, que não deixam eles morrerem, que não deixam eles perderem o brilho e a cor daquilo que tem que ser feito. Inclusive em como são repassados os saberes de geração para geração sem serem falados, sem serem ditos, ou sem serem escritos, mas pela observação de uma criança vendo os mais velhos fazer, como mostra a foto abaixo. Nessa imagem a Beliza e o senhor Modesto, que não consegue ensinar falando, mas gosta muito de ensinar mostrando. Daqui um dia essa criança vai estar talvez fazendo Jacá e a mãe dela nem vai saber onde ela aprendeu. 

Seu Modesto e Beliza no fazimento do Jacá. Foto: Arquivos da Rádio e TV Quilombo.

Por esse e outras riquezas comunitárias é que as doações filantrópicas precisam estar comprometidas, o que significa estar contra o silenciamento dos territórios, a favor da descentralização das decisões e do poder de quem gerencia os recursos (sejam do Estado e organizações sociais), e alinhadas ao que é importante em cada comunidade tendo em vista que o dinheiro é mais uma forma de fomentar o que já existe nos quilombos e o compromisso maior é com a vida comunitária. Tudo isso precisa acontecer com confiança, as e os quilombolas sabem sim mexer com dinheiro, trabalhar com os recursos que recebem, e historicamente manejamos isso com maestria fazendo render de forma quase impossível.

Outro ponto sobre as organizações filantrópicas é: quem são as pessoas que leem nossas propostas, selecionam e pautam o que é importante ou não? Que conhecimento sobre o público aquela pessoa tem? Isso pensando inclusive nessa sensibilidade de conhecer, com os pés no chão dos territórios, para saber do que estamos falando nas propostas de projetos que enviamos, porque a compreensão disso também passa pela vivência. Passa também por compreender como o racismo funciona no Brasil, como isso afeta a vida e a dignidade de acessos de pessoas quilombolas e negras aos espaços de decisão e do básico para viver. 

Por fim, mas não menos importante, a comunicação popular, comunitária e ancestral necessita também ter espaço nos debates da filantropia, porque estamos falando de caminhos de interpretação, significação, do mundo e das comunidades, e isso interfere na vida e no acesso a políticas públicas. Um quilombo que não tem formas de comunicar sobre si, plataformas que possam falar sobre sua comunidade em primeira pessoa, acaba, muitas vezes, a mercê de quem fala por ela e que, infelizmente, são as grandes empresas midiáticas, em grande medida alinhadas ao discurso do agronegócio que está destruindo aquela comunidade. 

A busca por autonomia da comunicação pelos quilombos, nos força a criar os nossos próprios meios de comunicação, mesmo sem recursos. Porque comunicar é poder exigir que os territórios sejam regularizados, sejam respeitados e que existem. A comunicação que vem do chão dos territórios é tanto vital para construirmos e continuarmos nossas próprias estratégias de manutenção dos saberes e do território, quanto de reivindicar o direito à informação e ter a informação como forma de responder às ignorâncias sobre os quilombos. 

___________

* Raimundo José da Silva Leite é quilombola do Quilombo Rampa (MA), pesquisador no Programa Saberes 2025, comunicador ancestral, co-fundador da Rádio e TV Quilombo, geógrafo e mestrando em Estudos Africanos e Afro-brasileiros da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

** Ludmila Pereira de Almeida é jornalista, colaboradora na Rádio e TV Quilombo onde realiza produção e articulação de projetos junto às organizações e comunidades, descendente do Quilombo Santo Antônio da Laguna (GO) e doutora em Letras pela Universidade Federal de Goiás.

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