Foto: Sofia Hage | Ventos do Norte
Novembro de 2025 ficará marcado na história da filantropia de justiça socioambiental. Com uma incidência coletiva e robusta, a equipe executiva da Rede Comuá e organizações membro ocuparam Belém, no Pará, durante a COP30, reafirmando que não existe justiça climática sem justiça racial, de gênero e garantia de direitos. Seja nos espaços oficiais da COP30, na efervescência das diversas Casas temáticas espalhadas pelo território, ou na mobilização popular da Cúpula dos Povos, a mensagem foi única: as soluções para a crise climática já existem, são lideradas por grupos e comunidades do Sul Global e precisam de financiamento direto.
O grande ponto de encontro da nossa articulação foi a realização da primeira edição d’A Casa Sul Global. Fruto da parceria entre a Rede Comuá e a Alianza Socioambiental Fondos del Sur, a iniciativa dedica-se a influenciar os fluxos financeiros ao transformar o financiamento em uma ferramenta de justiça socioambiental para comunidades do Sul Global. O espaço reuniu vozes de cerca de 50 países e 84 organizações, recebendo mais de 1.200 pessoas ao longo de sete dias. Foi nossa casa coletiva, abrigando painéis e diálogos profundos e qualificados que lançaram luz sobre os arranjos colaborativos e o papel insubstituível das redes e fundos comunitários para fazer o recurso “aterrissar” nos territórios.
Para Jonathas Azevedo, diretor-executivo da Rede Comuá, esse movimento não foi pontual, mas o ápice de um processo de amadurecimento político:

“A presença mais articulada da Comuá e seus membros é resultado de uma construção coletiva que remonta, pelo menos, à COP 28. Em espaços estratégicos como as conferências de clima, onde fundos e organizações de justiça socioambiental seguem muitas vezes à margem dos debates, a atuação coletiva é o principal caminho para dar visibilidade às vozes e experiências desses mecanismos inovadores criados por nossos membros. Nesse sentido, a COP30, com o lançamento d’A Casa Sul Global, foi definitivamente um marco na história da incidência coletiva da Rede. E nosso trabalho vai além da conferência. Seguiremos evidenciando a potência das práticas das organizações membros, bem como a importância de colocar a agenda de defesa de direitos e da democracia no centro do debate sobre financiamento climático e para a natureza.”
Jonathas Azevedo durante programação d’A Casa Sul Global | Fotos: Sofia Hage – Ventos do Norte
Apoio direto, estratégia e celebração
A diversidade de estratégias reforçou a potência da rede. Celebrando 20 anos de trajetória, o Fundo Casa Socioambiental participou dos espaços oficiais da COP30 e marcou presença n’A Casa Sul Global, na COP do Povo, no Cas’Amazônia, na Social Innovation House e no Amazon Climate Hub. A organização também lançou a segunda chamada da Teia da Sociobiodiversidade e o livro “Nossa Casa é o Mundo“, que reúne histórias e trajetórias a partir do olhar fotográfico de Araquém Alcântara. “Somos nós achando caminhos para proteger as nossas grandes florestas (…) conhecendo como ninguém esses espaços e tendo, mais do que tudo, um sentimento de pertencimento a eles”, pontuou Maria Amália Souza, fundadora da organização, ao destacar o legado democrático desta COP.
No mesmo sentido, o Fundo Brasil de Direitos Humanos teve papel estratégico ao doar recursos para viabilizar a realização da Cúpula dos Povos e garantir a participação de cerca de 10 mil pessoas e de mais de mil coletivos e movimentos sociais na COP30. Além de propor e integrar painéis n’A Casa Sul Global, a organização celebrou marcos importantes de sua trajetória institucional: os dois anos do Raízes – Fundo de Justiça Climática para Povos Indígenas e Tradicionais, e os três anos do Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno. “Todo o trabalho do Fundo Brasil parte do entendimento de que a participação popular é um pilar fundamental da democracia. As pautas de justiça climática e da transição justa precisam incluir protagonismo dos territórios e dos trabalhadores e, por isso, dedicamos nossos esforços para garantir esse apoio expressivo”, explica Allyne Andrade, diretora-executiva adjunta do Fundo Brasil.”


O iCS (Instituto Clima e Sociedade), que completou 10 anos em 2025, reafirmou seu papel como principal plataforma filantrópica dedicada exclusivamente à agenda climática no Brasil ao promover e participar de uma série de eventos durante a COP30, em sua maior delegação de todas as COPs. O Instituto de eventos de pavilhões coorganizados, em diversos debates, firmou acordos de cooperação, atuou no engajamento e mobilização de diferentes atores e foi corresponsável por três pavilhões: o Belém + 10, em parceria com The Nature Conservancy e Conservação Internacional, onde realizou cerca de 70 eventos na Green Zone. Lideranças Indígenas e comunidades locais tiveram espaço garantido no pavilhão, sendo responsáveis por um terço dos diálogos realizados na programação; o Regional Climate Foundation, que reuniu instituições de todas as regiões do mundo para troca de soluções e identificação de desafios comuns, com cerca de 60 painéis de debates; e o World Climate Impact HUB, que, em parceria com World Climate Foundation, reuniu especialistas para debater temas como a aceleração da transição energética e mecanismos de financiamento.
“A COP30 mostrou que a participação social ativa tem capacidade de reorganizar prioridades e tem possibilidade de qualificar esse processo democrático dentro do campo climático. O que a gente viu em Belém foi uma presença constante de movimentos sociais organizados, de coletivos diversos e de várias lideranças territoriais, e a presença desses grupos ampliou as suas capacidades de incidência, e aproximou temas que, até então, eram vistos como apartados. E, para nós, as pessoas são protagonistas das ações”, destaca Tatiana Lobão, Gerente de Engajamento e Agentes de Mudança do iCS, sobre a presença e atuação da sociedade civil na Conferência.
Interseccionalidade e a potência dos territórios
A COP30 consolidou um marco inédito com o reconhecimento formal de povos tradicionais, afrodescendentes e da perspectiva de gênero, mas a incidência por financiamento direto e desburocratizado permanece urgente. O Fundo Baobá pautou a centralidade dos protagonismos ancestrais e o poder de financiar vozes locais. Essa coerência política reverberou também nas ruas, com a presença na Marcha das Mulheres Negras. Na mesma linha, o Fundo Agbara ocupou espaços estratégicos para defender que não existe transição justa sem justiça econômica e racial, reforçando que é partir das experiências vividas nas comunidades que se constroem respostas reais para a crise climática. O ELAS+ Doar para Transformar esteve presente, destacando que a transição climática só será possível com a inclusão real de mulheres e pessoas trans nos espaços de decisão. A organização reafirmou seu compromisso em fortalecer quem, nos territórios, cuida da vida e constrói respostas sustentáveis com coragem e inovação.
Essa pluralidade de visões também ficou evidente durante a 10ª edição do Tapiri Ecumênico e Inter-religioso, realizado nas instalações da Catedral Anglicana de Santa Maria, em Belém. Sob coordenação da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) desde 2022, a iniciativa já percorreu nove estados da Amazônia Legal. Em 2025, o encontro reuniu lideranças religiosas, de terreiro, indígenas e quilombolas do Brasil, além de representantes do Canadá, Nova Zelândia, Austrália e de países da América Latina. O objetivo foi entrelaçar fé, democracia e o combate aos fundamentalismos com a justiça climática, trazendo ao centro do debate a COP30 e suas implicações para um futuro menos desigual e sustentável. A organização também destacou seus lançamentos estratégicos, como o “Rio de Memórias Patak Maymu” (sobre mulheres indígenas) e as sistematizações do projeto Dabucury, focado na gestão territorial e ambiental na Amazônia.





Na mesma toada de incidência política, o FunBEA ecoou a pergunta que não queria calar: “Cadê o dinheiro para o Clima?”. A campanha, fundamentada nos princípios da filantropia comunitária, defende a descentralização de recursos, para que estes cheguem, de fato, às mãos dos verdadeiros guardiões e guardiãs do planeta, respeitando seus tempos, conhecimentos e modos de vida. A organização ocupou espaços oficiais da COP30 e outros, como A Casa Sul Global, pautando como a educação popular pode transformar o financiamento climático e destacando a necessidade de estratégias colaborativas para proteger a Mata Atlântica. Para conectar cultura e clima, o fundo também abriu espaço para as novas gerações com o show do MC Brenalta, liderança jovem do litoral Norte de SP. Expandindo esse protagonismo das juventudes, o Instituto Baixada, em parceria com o Instituto Formação, enviou uma comitiva de 14 jovens líderes para garantir que o Maranhão fosse sujeito político nas discussões. Com a ação #CazumbadaNaCOP30, o grupo afirmou a Baixada Maranhense como território de Bem Viver, posicionando a cultura popular como ferramenta vital para reparar desigualdades e redistribuir poder.



Nas favelas e metrópoles, a pauta urbana ganhou centralidade baseada em dados. Redes da Maré apresentou projetos estruturantes, como o Climaré e o EcoClima, além de assinar o termo de referência do edital “Periferias Verde Resiliente” com o Ministério das Cidades. No mesmo tom estratégico, a Casa Fluminense protagonizou dois lançamentos. O primeiro, em parceria com o CBJC, foi o Painel Climático de Belém, que escancarou o racismo ambiental na capital paraense: na região metropolitana, onde 70% da população é negra, 72% das crianças negras vivem expostas a risco de inundação. A organização também levantou, na Zona Azul da COP, a bandeira do “Triplo Zero” (zero mortes, zero emissões e zero tarifa) com o relatório “De Olho no Transporte 5”. “Se o poder público não produz dados adequados sobre nossos territórios, nós produzimos (…) para que estejam na mesa de debate das políticas públicas”, resumiu Luize Sampaio, coordenadora de Informação da Casa Fluminense.
O Instituto Procomum desembarcou em Belém também com uma agenda intensa, unindo arte, cultura e política para posicionar o cuidado como ação climática. De portas e braços abertos, o Circuito Cuidado & Clima conectou mais de 23 ações que já mobilizavam pessoas e comunidades em torno do cuidado e justiça climática na região metropolitana de Belém. Articulada com redes parceiras como a SulXSul e a Aliança Global pelos Cuidados, a organização participou de diversos espaços de diálogo e aprendizado coletivo. Simultaneamente, em Santos (SP), o Clima LAB materializou o lema “A COP também é na Baixada”. Em um exercício de co-construção entre sociedade civil e poder público, o laboratório lançou protótipos para o Plano de Ação Climática da cidade, incluindo uma proposta de Fundo de Adaptação participativo, uma agenda comunitária e modelos de Abrigos Climáticos integrados a hortas.




Guiado pela missão de colocar o protagonismo comunitário no palco global, o Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN, atuou para garantir que a maior presença indígena da história de uma COP se traduzisse em pressão política real. Com eixos estratégicos focados na defesa do Cerrado e no financiamento direto, a organização reforçou o coro dos movimentos sociais de que a demarcação de terras é a solução climática mais eficiente. Contudo, a organização alerta para o contraste brutal entre a mobilização em Belém e a realidade política em Brasília. Dias após o evento, o Congresso Nacional derrubou vetos cruciais ao projeto do Licenciamento Ambiental. O retrocesso expõe territórios tradicionais ainda não homologados, realidade de 36% das Terras Indígenas e 90% das áreas quilombolas, à exploração predatória e à violência, ignorando os compromissos assumidos pelo país na conferência. “Diante do grave retrocesso aprovado, a disputa agora se desloca para o campo jurídico, onde é imprescindível garantir que a Constituição, os direitos dos povos e a integridade dos territórios prevaleçam”, posiciona-se em nota institucional.
Diante de cenários desafiadores como este, o fortalecimento da sociedade civil torna-se ainda mais vital. Quem reforçou esse coro pela transformação da filantropia foi a BrazilFoundation. Com 25 anos de história, a organização desembarcou em Belém apoiando institucionalmente o World Climate Summit, onde defendeu a necessidade de preencher lacunas históricas de financiamento com recursos flexíveis para organizações de base. Atuando nos seis biomas brasileiros através do seu Programa de Meio Ambiente & Mudanças Climáticas, a fundação reafirmou seu papel como membro fundadora da Rede Comuá. “Em Belém, levamos o conhecimento e a expertise do Brasil profundo, amplificamos as vozes das comunidades mais vulnerabilizadas (…) para que a COP30 chegue além do simbolismo e se consolide como uma plataforma de busca por soluções reais”, destacou Tiffany Kearney, CEO da organização.




O ano de 2025 encerra um ciclo de trabalho intenso, profundamente coletivo e transformador. Em Belém, a Rede Comuá não somente ocupou espaços, mas afirmou sua presença, evidenciou a força política da filantropia independente e de justiça socioambiental, e provou que, quando os territórios falam, o mundo escuta. A potência da nossa incidência na COP30 consolidou um marco histórico: a relevância dos mecanismos criados por nossos membros para apoiar a sociedade civil organizada do Sul Global para redesenhar a arquitetura de financiamento climático internacional. Voltamos com nova tração, mais fôlego e um senso renovado de propósito, fortalecendo nosso caminhar coletivo. Seguimos em movimento e em conexão, com compromisso e preparação para aprofundar, em 2026, as agendas inegociáveis que nos mobilizam e os futuros que seguimos tecendo, em rede.
