Imagem destaque | Por Foto de Tahir Xəlfə disponível no Pexels
* Por Maria Chertok e Chandrika Sahai
Você já parou para pensar que uma boa teoria de mudança muitas vezes não corresponde inteiramente à forma como as pessoas envolvidas vivenciam a mudança?
Na PSJP, chegamos à gradual e preocupante constatação de que grande parte das nossas pressuposições sobre como as mudanças acontecem estavam erradas. E não apenas nós. É incrível que, mesmo tendo a filantropia o propósito de promover a mudança social, as pessoas que trabalham na área raramente pensam sobre como a mudança realmente acontece. Quando começamos a falar sobre isso, as pessoas se veem obrigadas a reconhecer que há uma grande lacuna entre as nossas teorias de mudança e a nossa experiência com a mudança.
As nossas teorias frequentemente derivam do que John Paul Lederach descreveu recentemente como o mundo das “calibrações mecânicas”. Falamos sobre impacto, resultados e produtos, conclusões baseadas em evidências, e assim por diante. Emprestadas do mundo dos negócios (de onde emana grande parte da filantropia institucional), as nossas formas ditam a função. No entanto, como Lederach também observou, “as nossas formas têm ditado, acredito eu, em última análise, o propósito”.
Isso gera um grande problema, ou seja, nada muda. Não é segredo que os sistemas globais da filantropia e de apoio internacional já não correspondem ao seu propósito. A cada ano, estabelecemos um objetivo maior, mas nunca parecemos mais perto de alcançá-lo. Apenas recentemente é que surgiram chamados à decolonialidade, localização, filantropia baseada em confiança e começamos a questionar a existência de racismo estrutural no setor. Em sua essência, esses questionamentos procuram definir a representação, a solidariedade, a confiança e a justiça como os símbolos do sistema que queremos. No entanto, continua a haver uma grande distância entre a nossa retórica e a nossa prática.
Impulsionados pelo choque da nossa própria ingenuidade, sentimos que, enquanto setor, precisamos buscar seriamente entender como a mudança realmente acontece. Para tanto, a PSJP embarcou em uma série de diálogos para desvendar como nós, como atores da filantropia e do desenvolvimento, vivenciamos a mudança. Pedimos a parceiros do setor de filantropia – fóruns como WINGS, PEX, African Philanthropy Conference e um grupo diversificado de atores da sociedade civil e da filantropia – que compartilhassem as suas histórias de mudança nos níveis pessoal, relacional, organizacional ou sistêmico. As conversas foram ricas e comoventes. Elas abordaram múltiplos aspectos da mudança, desde pequenos ajustes na vida pessoal e nos relacionamentos, passando por restruturações em organizações, até mudanças de paradigma na forma como enxergamos o mundo. Os gatilhos para essas mudanças foram os mais variados: filhos, luto, relacionamentos, novos empregos, conversas, crise de identidade, mudança de residência, guerra… Após cinco conversas, já aprendemos algumas lições.
A primeira, e a que queremos destacar aqui, nos leva a uma citação de Buckminster Fuller. ‘Não se muda algo lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, é preciso criar um novo modelo que torne o modelo existente obsoleto’.
Ouvimos pessoas que transformaram seu trabalho de forma que as suas ações incorporassem os valores de justiça, solidariedade, autonomia comunitária e confiança que elas queriam para o mundo e para os sistemas globais de filantropia e apoio internacional. Tudo começou com uma sensação persistente de contrariedade com o sistema em que trabalhavam.
‘Eu não queria continuar trabalhando em um sistema que não produzia os resultados que eu queria ver. Com o passar dos anos, me sentia cada vez mais inquieto, até que me vi diante de uma crise de identidade, perguntando: ‘O que exatamente eu estou fazendo aqui?’
As sementes dessa dúvida levaram, em um caso, à completa reorientação do que costumava ser um fundo de doadores europeus em um país africano para se tornar uma organização de base comunitária e, agora, liderada pela comunidade. Essa mudança se materializou lentamente ao longo de um período de dezesseis anos. Para outra pessoa, significou deixar um emprego confortável na filantropia global em Nairóbi para viver e trabalhar com comunidades na zona rural de Moçambique.
Para efetivamente adotar essa mudança, esses participantes precisaram abrir mão de seu poder, privilégios, conforto e segurança financeira. No nível organizacional, isso significou perder doadores bilaterais, mas assumir mais responsabilidade e ganhar a confiança da comunidade. No nível pessoal, significou reduzir salários e abrir mão de estilos de vida confortáveis. No entanto, nos disseram que o preço pago foi baixo considerando o que foi ganho.
“Passamos semanas nas comunidades em que estamos hoje. Quinze anos depois, continuamos nas mesmas comunidades. Seguimos nas mesmas aldeias, e os líderes com quem trabalhamos falam do respeito que têm pela nossa organização, não porque sempre acertamos ou porque sempre podemos ajudá-los, mas porque sempre os ouvimos e nunca vamos embora. Continuamos lá entre financiamentos e isso é muito importante para mim.”
O mais importante é que a mudança os obrigou a abandonar as “metodologias e pressuposições das ONGs” sobre como a mudança acontece e se abrirem a novas formas de ser e fazer, criando processos e relacionamentos que contribuíssem com o objetivo maior que buscavam originalmente. Uma grande mudança no sistema de valores desses exemplos foi a percepção do valor de pequenas ações instituídas localmente, em oposição à crença de que a mudança requer grandes ideias, implementadas de cima para baixo. As nossas conversas ressaltaram que, se nos concentrarmos em pequenas ações impulsionadas por um propósito e valores compartilhados, e as conectarmos, emergiremos como um sistema poderoso e influente. É o conceito dos fractais – a compreensão de que os padrões se repetem em escala. Como um dos envolvidos colocou, “a questão ao nível global ou nacional está ligada à forma como conectamos as pequenas coisas”.
Esse ato de criar pequenos modelos alternativos que refletem os valores que queremos se torna um ato de esperança e resiliência quando a mudança parece impossível. Em lugares com regimes autoritários e espaços fechados para a sociedade civil, onde qualquer ato de resistência ou iniciativa de reformar o sistema é recebida com prisão, ou até mesmo morte, a criação de alternativas é a única opção. Como lembrou Adrienne Marie Brown, ‘o pequeno é bom, o pequeno é tudo’. E por uma participante de um país em guerra nos foi dito que:
“Apesar de estarmos em guerra, vejo que as pessoas criam espaços de paz onde podem. Elas tentam manter essa conexão humana, o apoio mútuo e a solidariedade. Elas trabalham com os valores da paz e não da guerra. Esses espaços podem ser muito granulares e podem não estar conectados, mas quando existe um número suficiente deles e eles conseguem se conectar, a situação pode mudar.”
Essa participante contou a história de uma mulher de seu país que retornou ao vilarejo de seus ancestrais, fundou uma ONG e começou a trabalhar com a população local. Inicialmente, não havia muitas pessoas no vilarejo dispostas a se oferecer para apoiar a guerra, mas depois as coisas mudaram.
“No início do ano, a população de mulheres idosas começou a confeccionar redes de camuflagem para as trincheiras, em apoio ao trabalho de guerra. E aí eu descobri um mercado que vende artesanato feito pela população local e eles disseram que, se conseguíssemos que as senhoras tricotassem meias ou luvas, eles ajudariam a vendê-las, e o dinheiro seria revertido às senhoras. Então eu disse a elas: ‘talvez fosse melhor vocês pararem de fazer redes e começarem a fazer meias. O mercado venderá as meias e vocês podem ganhar um dinheiro. Assim vocês poderiam melhorar suas casas ou fazer algo com o jardim’. Elas concordaram.” A participante concluiu: “Não posso lhes dizer para não apoiarem a guerra, mas posso buscar uma alternativa para elas”.
Nossa primeira lição é que a mudança requer a criação de novos modelos do sistema que queremos, ainda que pequenos, e as nossas formas de ser e fazer devem incorporar os princípios fundamentais, os relacionamentos essenciais e o propósito para o qual queremos contribuir – o de um mundo justo, pacífico e equitativo. E que nos tempos sombrios, tricotar meias em vez de redes de camuflagem é uma expressão poderosa da nossa agência e da nossa força política.
Maria Chertok é profissional da área de filantropia, ex-diretora da CAF Rússia e membro da equipe de gestão da PSJP. Chandrika Sahai é Gerente de Programas da PSJP.Originalmente publicado em: https://www.alliancemagazine.org/blog/how-change-happens-building-the-system-we-want/
