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Cinco anos de Fundo Agbara: a potência das mulheres negras na filantropia brasileira

Imagem: Reprodução Fundo Agbara

O primeiro fundo filantrópico do Brasil liderado por e para mulheres negras chega aos cinco anos de atuação com força, propósito e impacto: fortalecendo lideranças, mobilizando recursos e abrindo caminhos para iniciativas sustentáveis nos territórios. Em setembro de 2025, o Fundo Agbara celebra uma trajetória que começou como resposta urgente à pandemia e se transformou em referência nacional na filantropia comunitária e na justiça racial. O que nasceu de campanhas de arrecadação comunitária cresceu para se tornar uma organização que não apenas investe em iniciativas, mas também influencia o campo, reposicionando mulheres negras como protagonistas de mudanças estruturais.

Guiado por valores enraizados na ancestralidade negra e no compromisso com a transformação, o Agbara constrói uma prática de filantropia que reconhece e potencializa soluções criativas, eficazes e sustentáveis. A força que ancora o fundo vem da diáspora africana, das memórias de resistência e da liderança histórica de mulheres negras que alimentaram (de forma física, emocional e espiritualmente) comunidades inteiras, mesmo diante de desafios extremos. A partir desse legado, a organização projeta futuros possíveis, rompendo com moldes impostos por uma sociedade estruturalmente racista. Suas estratégias interseccionais priorizam mulheres negras LGBTQIAPN+, egressas do sistema prisional e residentes no Norte e Nordeste, reforçando que justiça racial também é justiça territorial.

Para marcar essa data, conversamos com Aline Odara, idealizadora e diretora-executiva do Fundo Agbara, sobre a trajetória da organização, aprendizados e desafios. 

Boa leitura!

Em setembro, o Fundo Agbara completa cinco anos de atuação, uma história que começa como resposta emergencial à pandemia e se transforma no primeiro fundo filantrópico do Brasil liderado por e para mulheres negras. Que valores, ancestralidades e estratégias coletivas foram essenciais para transformar essa mobilização em uma organização estruturada, reconhecida e com incidência no campo da justiça racial e da filantropia comunitária? 

Sim! Em setembro celebramos cinco anos do Fundo Agbara! Uau! Uma caminhada que começou com campanhas de arrecadação coletiva para apoiar pessoas da minha rede durante a pandemia, mas que rapidamente se consolidou como uma organização pioneira: o primeiro fundo filantrópico do Brasil liderado por e para mulheres negras. Desde o início, nossa atuação tem sido guiada por valores profundamente conectados à nossa identidade coletiva e ao horizonte de transformação que queremos construir: a equidade racial, o Bem Viver, a integridade, a inovação e a colaboração estão no centro de tudo o que fazemos. Esses princípios orientam uma atuação comprometida com o fortalecimento de mulheres negras como protagonistas de suas próprias histórias e de soluções potentes para seus territórios.

Nossa ancestralidade vem da diáspora africana e carrega a memória de resistência, sabedoria e força de gerações de mulheres negras que sustentaram suas comunidades mesmo diante das maiores adversidades. A partir desse legado, cultivamos uma imaginação radical que nos permite projetar futuros a partir dele e das nossas próprias experiências, rompendo com os limites impostos por uma sociedade estruturalmente excludente e racista. O Agbara é o lugar que nos permite sonhar e ultrapassar esses moldes onde tentam nos encaixar. 

É nesse chão ancestral que fundamentamos nossas estratégias interseccionais e coletivas, com foco em garantir os direitos de mulheres negras LGBTQIAPN+ e egressas do sistema prisional, com foco especial no Norte e Nordeste, reconhecendo as múltiplas camadas que atravessam seus corpos, trajetórias e territórios. Transformar a filantropia também tem sido uma missão constante. O Fundo Agbara atua em três frentes principais: o fomento direto – por meio de doações e jornadas educacionais; a produção de conhecimento e o advocacy.

Por meio do apoio financeiro e de formações político-técnicas, impulsionamos iniciativas comunitárias lideradas por mulheres negras, fortalecendo suas capacidades socioemocionais, técnicas e empreendedoras. Em Conhecimento & Advocacy, produzimos dados e reflexões baseadas em evidências que pautam a justiça social, econômica e climática, levando essas discussões ao campo político e institucional. Além disso, fazemos alguns eventos que conectam arte, cultura, difusão de conhecimento e empreendedorismo, em grandes encontros como o Julho das Pretas, o Festival Agbara da Mulher Negra e o Jantar Agbara.

Chegar até aqui foi possível graças à construção coletiva com outras mulheres negras, organizações parceiras e uma rede de atores comprometidos com práticas antirracistas que, para além do discurso, entregam oportunidades reais de protagonismo. Mais do que distribuir recursos, o Fundo Agbara mobiliza esperança, reconstrói sentidos e reafirma, em cada passo, que o bem viver das mulheres negras é e sempre será um pilar fundamental para a democracia!

Reprodução Fundo Agbara – Julho das Pretas em Salvador

O Agbara atua combinando investimento direto, mentoria e formação político-técnica, sempre com foco na autonomia econômica de mulheres negras. De que formas essas frentes têm contribuído para fortalecer o protagonismo das lideranças apoiadas e ampliar a capacidade de ação das organizações nos seus territórios?

No Fundo Agbara, estruturamos nossa atuação combinando investimento direto, mentoria e formação política e técnica, com foco na autonomia econômica e no protagonismo das mulheres negras. Cada uma dessas frentes é pensada como parte de um ecossistema de fortalecimento real e aprofundado, que reconhece os desafios históricos impostos à nossa existência e aposta na potência coletiva para superá-los.

O investimento direto é, antes de tudo, um gesto que contribui para a reparação histórica. As mulheres negras estão na base da pirâmide social, são as que ganham menos, têm menos acesso a financiamentos, oportunidades e investimentos sociais privados, mesmo sendo as que mais empreendem e sustentam suas comunidades. Ao destinar recursos diretamente a essas mulheres, sem burocracias excludentes, estamos apoiando não só as mulheres, mas toda a economia do país.

A mentoria que oferecemos é mais do que orientação técnica: é um espaço potente de troca entre as próprias mulheres negras participantes, onde experiências de vida, estratégias de resistência e afetos se cruzam e se fortalecem mutuamente. Nesses encontros, promovemos também letramento racial — essencial para que as lideranças compreendam as estruturas que as atravessam e possam agir com ainda mais consciência política, orgulho e propósito.

Já as formações políticas e técnicas são espaços de aprofundamento crítico e emancipatório. Nelas, trabalhamos temas como a história do povo negro, os impactos do racismo estrutural, o empoderamento das mulheres negras, e ferramentas concretas para o exercício do protagonismo em suas comunidades e territórios. Ao promover conhecimento com identidade, formamos líderes comprometidas com a transformação social e com um novo modelo de desenvolvimento centrado no bem viver.

Essas três frentes, articuladas, têm ampliado de forma significativa a capacidade de ação das iniciativas e lideranças apoiadas. São mulheres que romperam muitas vezes com os ciclos da precariedade para a criar soluções inovadoras e sustentáveis, com voz ativa, autoestima fortalecida e redes de apoio que seguem com elas para além do ciclo do programa.

O mês de agosto vem ganhando visibilidade como marco da Filantropia Negra no Brasil. Como você avalia o avanço dessa agenda no país? A visibilidade tem se traduzido em redistribuição real de poder e recursos dentro da filantropia?

O mês de agosto, como marco da Filantropia Negra na Diáspora, tem ganhado visibilidade e, sem dúvida, isso é fruto da mobilização intensa de organizações, coletivos e lideranças negras que têm pautado a urgência de uma filantropia mais democrática, diversa e comprometida com a redistribuição de poder. No entanto, é preciso fazer uma avaliação honesta: essa visibilidade ainda não se traduz em mudanças estruturais no campo filantrópico.

Os recursos continuam concentrados nas mesmas organizações de sempre, com perfis que refletem a elite brasileira: elitizado, gerido por pessoas brancas e muitas vezes distantes dos territórios mais afetados pelas crises e desigualdades. O investimento social privado segue fomentando um modelo único de organização, desconsiderando os formatos, metodologias e práticas construídas por iniciativas negras que já oferecem soluções eficazes, sustentáveis e profundamente enraizadas em seus contextos.

Vivemos, ainda, um contexto alarmante de retrocessos políticos e institucionais, impulsionado pelo avanço da extrema-direita no Brasil. Esse cenário tem impactado diretamente a segurança e a sobrevivência de lideranças negras e periféricas. Temos recebido denúncias graves de assédio, perseguição e ameaças de morte contra mulheres negras defensoras de direitos humanos, que recorrem ao Fundo Agbara em busca de proteção e apoio emergencial. Isso evidencia o quanto o avanço da filantropia negra ainda é frágil frente a um sistema feito para nos silenciar e exterminar.

Há também um padrão recorrente que nos causa profunda inquietação: muitas vezes, somos chamadas apenas para ilustrar estatísticas de vulnerabilidade, e não para compartilhar nossas estratégias, saberes e soluções locais que já funcionam há décadas. Isso reforça uma lógica de apagamento das nossas potências e da nossa capacidade de transformação.

Acreditamos que uma filantropia verdadeiramente antirracista e estratégica não se limita a datas comemorativas, nem se resume a narrativas de dor. É necessário redistribuição real de poder e recursos, escuta ativa e compromisso contínuo com as lideranças negras que já estão fazendo o trabalho. É tempo de sair do discurso e assumir, de fato, uma postura de corresponsabilidade histórica.

O diagnóstico recém-lançado pelo Agbara mostra uma realidade alarmante: 95% das organizações negras enfrentam dificuldades de captação, e mais da metade movimenta menos de R$ 5 mil por ano. Que mudanças urgentes esse estudo convoca no modo como o campo filantrópico enxerga e financia a luta antirracista no Brasil?

Esses dados, na verdade, escancaram o abismo entre os discursos sobre justiça racial e a prática concreta do investimento social privado no Brasil.

Esses números deveriam provocar um estado de urgência no campo filantrópico. É inadmissível que, em pleno 2025, com a pauta racial tão presente nas campanhas institucionais e compromissos públicos, as organizações negras – que estão na linha de frente do enfrentamento às desigualdades –  continuem operando à margem dos recursos. O que o diagnóstico nos mostra é que o financiamento da luta antirracista continua sendo simbólico, pontual e extremamente limitado, quando deveria ser estruturante, contínuo e estratégico.

O estudo também reforça a necessidade de rever profundamente os critérios, formatos e intermediários utilizados na alocação de recursos. O campo filantrópico ainda funciona com filtros que priorizam organizações com acesso a redes internacionais, linguagem técnica padronizada e estruturas formais que muitas vezes não correspondem à realidade das iniciativas negras, sobretudo aquelas que atuam em territórios periféricos e rurais.

Para mudar esse cenário, é preciso mais do que visibilidade: é preciso redistribuir poder, descentralizar os recursos, confiar nas lideranças negras e financiar a luta antirracista com compromisso político e responsabilidade histórica. O Fundo Agbara tem demonstrado que, quando as mulheres negras recebem recursos, elas transformam realidades com eficiência, inovação e impacto. O que falta não é capacidade, é vontade política de investir em quem já está gerando transformação há muito tempo.

Imagem: Reprodução Fundo Agbara

Sonhar também é método de resistência. Quais caminhos o fundo deseja trilhar nos próximos anos para expandir sua atuação, enraizar alianças com as comunidades e consolidar a filantropia negra como força política coletiva, transformadora e inegociável no Brasil?

Que bonito! Sim, sonhar é método de resistência – e também de estratégia! 

No Fundo Agbara, acreditamos que nossos sonhos são combustível para transformação coletiva. O passado e o presente não foram projetados por nós. Ao projetar o futuro, estamos construindo um caminho de afirmação, ancestralidade e justiça para mulheres negras em todo o país. Nos próximos anos, queremos seguir ampliando e enraizando a presença do Agbara nos territórios, consolidando nosso papel como o primeiro fundo filantrópico do Brasil dedicado exclusivamente a mulheres negras. Buscamos fortalecer, com cada vez mais qualidade e escala, nossos instrumentos e metodologias de formação, fomento e articulação, ampliando o número de mulheres negras alcançadas e fortalecidas por nossas ações.

Também projetamos um Fundo Agbara com capacidade ampliada para produzir dados, inteligência política e análises estratégicas sobre justiça econômica, social e climática. Queremos seguir gerando evidências e visibilidade para as realidades e soluções produzidas pelas mulheres negras, incidindo em políticas públicas de forma articulada e  qualificada em diversas frentes.

Nosso horizonte de futuro está comprometido com a democratização do acesso a recursos filantrópicos, direcionando-os para iniciativas e soluções locais lideradas por pessoas negras; com o fortalecimento das capacidades socioemocionais, técnicas, empreendedoras e políticas das mulheres negras, para que vivam com dignidade, autonomia e bem viver; com a atuação firme na agenda de justiça climática, denunciando o racismo ambiental e promovendo políticas públicas que coloquem a vida da população negra no centro; e com a incidência direta para que a filantropia, o setor privado e o Estado assumam compromissos reais com a equidade racial, com investimento contínuo e não simbólico.

Sonhamos com um Brasil em que as mulheres negras não sejam apenas chamadas a resistir, mas sejam reconhecidas como protagonistas das soluções. Um país em que a mobilização popular e negra seja força política inegociável, cotidiana e transformadora. Um país em que o bem viver não seja privilégio de poucos, mas direito de todas. Seguiremos sonhando — e realizando.

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