Por Christiane Sampaio*
Imagem destaque: Belém (PA), 11:11:2025 – Indígenas participam da inauguração da Aldeia COP. Foto- Bruno Peres: Agência Brasil
A combinação entre criminalização burocrática, perseguição e violência política, e difusão de desinformação produz um ambiente de constante vulnerabilidade e alto risco para organizações da sociedade civil (OSCs) e defensores de direitos humanos no Brasil. Esses riscos se tornam ainda mais complexos quando mediadores invisíveis — os algoritmos — passam a organizar a visibilidade, a reputação e, em certa medida, a legitimidade pública dessas organizações. Nesse cenário, o encolhimento do espaço cívico não se dá apenas por mecanismos jurídicos ou repressivos, mas também por disputas simbólicas e informacionais mediadas por tecnologias digitais.
O ENCOLHIMENTO DO ESPAÇO CÍVICO
O espaço cívico é vital para a atuação das OSCs em qualquer sociedade. Mas, na última década, há um acelerado processo de declínio democrático no contexto global que se expressa também por interferências autoritárias que fragilizam o espaço cívico. No Brasil, uma das facetas desse processo foi nomeada de “criminalização burocrática” — termo cunhado pela Plataforma por um Novo Marco Regulatório para as Organizações da Sociedade Civil (MROSC), em 2010 — para designar o uso de instrumentos administrativos, jurídicos e de controle como forma de constrangimento e intimidação institucional.
O uso da investigação e/ou condenação criminal para perseguir militantes é outra versão contemporânea de desmobilização de movimentos sociais, como aponta o relatório Ativismo Cercado: um Diagnóstico da Criminalização das Lutas Sociais em São Paulo, elaborado a partir de 55 casos de perseguição a ativistas de direitos humanos na capital paulista e região metropolitana.
Esse problema afeta de forma desproporcional organizações menores, de base comunitária e com atuação territorial, especialmente aquelas que trabalham com direitos humanos, proteção ambiental, povos indígenas e comunidades tradicionais. Esses grupos frequentemente estão mais expostos a ataques reputacionais que podem resultar não apenas na perda de financiamento e apoio social, mas também em riscos reais para defensores de direitos humanos.
Pessoas que atuam na defesa de direitos territoriais e ambientais figuram entre as principais vítimas da violência no contexto nacional. Em 2023, defensores dos direitos dos povos indígenas foram o grupo mais visado, com 92 assassinatos registrados no Brasil, colocando o país na terceira posição no ranking mundial dos que mais assassinam defensores de direitos humanos, segundo a Análise Global da Front Line Defenders 2023/24.
OS ALGORITMOS DEFINEM QUEM É VISTO
Todos esses desafios atuais se expandem para o ecossistema midiático e informacional, profundamente marcado pela lógica algorítmica. Os algoritmos de relevância pública — principais sistemas utilizados por redes sociais e mecanismos de busca — dispõem de rotinas de programação que selecionam o que é considerado mais relevante para cada usuário, organizando fluxos de informação e hierarquizando conteúdos.
Ao instaurarem o que Gillespie chamou de “regime peculiar de visibilidade e invisibilidade” e o que Bricher identificou como “uma nova lógica de conhecimento”, esses sistemas desafiam as capacidades de comunicação das OSCs com a população. Não existem critérios neutros ou universais para definir relevância, visibilidade ou engajamento nas plataformas digitais. Os dados, longe de serem brutos, são produzidos por práticas sociais, técnicas e corporativas que moldam a circulação da informação e influenciam a percepção pública.
“Todos os dados são categorizados, organizados, limpos e valorados, a partir de critérios criados por pessoas que compõem a equipe de programação e cargos executivos das empresas. Este processo de tratamento dos dados prepara o algoritmo para selecionar e moderar conteúdos através das plataformas, a partir de uma lista de critérios produzida parcialmente por um grupo de pessoas.” — Gitelman e Jackson (2013)
Gillespie aponta que há um ‘entrelaçamento’ multidimensional entre algoritmos postos em prática e as táticas dos usuários que fazem face a eles, uma relação que não deve ser entendida como influência de mão única, mas como um ciclo recursivo entre os cálculos do algoritmo e os “cálculos” das pessoas.”
Esta prática de entrelaçamento pode vir a representar uma perspectiva dissidente: a possibilidade de disputar sentidos, questionar as políticas algorítmicas e reposicionar a sociedade civil como agente ativo na construção de um ambiente informacional mais democrático.
Apesar dos algoritmos serem, nas palavras de Kitchin, “realizações incertas, provisórias, frágeis”, em constante processo de reedição e refeitura, é possível observar suas ações e seus resultados. Como resumem as pesquisadoras Jurno e Dalben, “os algoritmos não são só o que os programadores almejam, mas o resultado de como os usuários lidam com eles no dia a dia, subvertendo, reinventando e retrabalhando suas intenções iniciais”.
DISPUTAR SENTIDOS: UM CAMINHO ESTRATÉGICO
A defesa do espaço cívico passa também pela capacidade de compreender, tensionar e intervir nos sistemas digitais que hoje mediam a vida pública. É, portanto, estratégico que o campo da sociedade civil desenvolva capacidades de análise sistemática das dinâmicas informacionais que afetam sua atuação. As OSCs precisam compreender não apenas como são narradas, mas também como podem intervir criticamente na modelagem do debate público.
Desenvolver de forma contínua práticas de monitoramento, ampliar alianças estratégicas e desenvolver repertórios comunicacionais alinhados à complexidade das dinâmicas algorítmicas são caminhos que a estratégia de comunicação Sociedade Viva acredita que podem colaborar para a ampliação do repertório da população brasileira em relação ao trabalho cotidiano que as organizações da sociedade civil e os defensores de direitos humanos exercem na promoção dos direitos e da democracia no Brasil.
Christiane Sampaio é jornalista e estrategista em comunicação pública e advocacy, com mais de duas décadas de experiência na sociedade civil e na liderança de programas e campanhas voltados à participação democrática e à defesa de direitos no Brasil.
Foi coordenadora executiva da iniciativa Sociedade Viva e integra o Conselho Gestor da Rede Narrativas, contribuindo para a construção de campanhas, narrativas públicas e coalizões voltadas à incidência em agendas de interesse público. https://www.linkedin.com/in/christiane-sampaio/
Saiba mais:
CORREA, Guillermo. Narratives in motion: How civil society is redefining its place in the world. Kettering Foundation, 2025. Disponível em: https://kettering.org/narratives-in-motion-how-civil-society-is-redefining-its-place-in-the-world/
GILLESPIE, Tarleton. A relevância dos algoritmos. Tradução de Amanda Jurno. Revisão de Carlos d’Andréa. Parágrafo, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 95–121, jan./abr. 2018. (Artigo original: “The relevance of algorithms”, in: Media Technologies: Essays on Communication, Materiality, and Society. Cambridge: MIT Press, 2014.)
JURNO, Amanda Chevtchouk; DALBEN, Sílvia. Questões e apontamentos para o estudo de algoritmos. Parágrafo, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 17–29, jan./abr. 2018.
LAUT – CENTRO DE ANÁLISE DA LIBERDADE E DO AUTORITARISMO. O caminho da autocracia: estratégias atuais de erosão democrática. São Paulo: LAUT, 2023.
LEMOS, André. Sobre o fal(h)ar: cultura digital, precariedade e Antropoceno. TECCOGS — Revista Digital de Tecnologias Cognitivas, n. 31, p. 94–107, 2025.
FRONT LINE DEFENDERS. Global analysis 2023/24. Disponível em: https://www.frontlinedefenders.org/en/resource-publication/global-analysis-202324
SALLES, Débora; LOUREIRO, Marina; SANCHOTENE, Nicole; SANTINI, R. Marie. The “Truth” About NGOs: How the Brazilian Media Frames the Attempt to Criminalize Socio-environmental Organizations. Environmental Communication, 3 Dec. 2025. DOI: 10.1080/17524032.2025.2596623.
