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“Se a terra é mãe, é hora de escutá-la”: sem saber ancestral, não há justiça climática

Imagem: Território Quilombo do Abacatal | Reprodução Fundo ELAS+

por Rayssa Queiroz | ELAS+ Doar Para Transformar

Desde 1980, o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA), localizado em Belém, vem tecendo uma história construída “‘meio capoeira’: sobe, desce, avança, recua”, como define Nilma Bentes. Uma trajetória política que não se alinhou a fórmulas prontas – não se submete a partidos, igrejas ou sindicatos – e que nasce da luta pela terra, pela vida e pela justiça. 

“O CEDENPA foi se fazendo, como é até hoje – num tipo de organização tentando ser não colonial”, lembra Nilma, engenheira agrônoma, escritora, ativista brasileira pelos direitos das mulheres e da população negra e uma das fundadoras do centro.

Foi nessa dança constante que o CEDENPA se firmou como um espaço de estudos, sabedoria e luta, atuando pelo fortalecimento de frentes como a ancestralidade quilombola e o protagonismo das mulheres negras na defesa dos territórios na região Amazônica. Frente à mineração, à monocultura e aos agrotóxicos que envenenam as águas, adoecem os corpos e tentam apagar a memória.

A organização atua ao lado de comunidades vulnerabilizadas, majoritariamente negras,  cientes de que sua exclusão não é acidental. A urbanização e gentrificação forçada desde a abolição da escravatura empurrou essas famílias para áreas insalubres e perigosas. Em décadas mais recentes, as mudanças climáticas atingem com força desigual esses territórios: “As pessoas procuram acusar as próprias famílias que são vulnerabilizadas: ‘Por que foi morar naquela encosta?’. Ora, não tinha uma política de moradia. […] E para quem tá pior, quem está morando nos piores lugares são os mais atingidos – e as mulheres negras são as mais afetadas.” Afirma Nilma.

O CEDENPA então assumiu o desafio de fortalecer essas mulheres e suas comunidades — guardiãs das tradições, dos territórios e cuidadoras da vida. Como lembra Roberta Sodré, professora e integrante do coletivo de juventude negra do CEDENPA, essa força coletiva só floresce porque vem delas, das mulheres negras que lideram com sabedoria, escuta e coragem:

“[O CEDENPA] É uma entidade que tem sua maioria mulheres, né? São mulheres que nos coordenam […], que mostram como pensar uma educação diferenciada, como pensar os saberes tradicionais, como pensar a forma de lutar nesse território, também nos motiva a continuar pensando possibilidades de resistência. Eu acredito que o CEDENPA, ele não é só um centro de estudos como algumas pessoas podem pensar a partir da sigla, mas ele é um centro também de sabença, é um centro de sabedoria que vem das nossas mais velhas e caminha para nós enquanto juventude”

E essa sabença compartilhada não se encerra no território: ela é traduzida, sistematizada e devolvida às próprias comunidades por meio da produção de conhecimento — uma das estratégias fundamentais do CEDENPA para o fortalecimento coletivo e para a luta antirracista. O estudo, nesse contexto, não é separado da vida: é ferramenta de resistência e de visibilidade para saberes historicamente silenciados.

Como explica Maria Malcher, militante do CEDENPA, esse trabalho de produção de memória tem sido essencial para informar, mobilizar e formar gerações — não só na Amazônia, mas em todo o Brasil:

“Algo que o CEDENPA sempre teve e que impacta positivamente as nossas vidas é a produção de alguns materiais didáticos: cartilhas, folders, panfletos. […] O CEDENPA era a única referência para você ler uma cartilha que falasse sobre o ABC de combate ao racismo. Ter uma cartilha onde trouxesse essas questões ligadas ao racismo no ambiente escolar e também ter informações de relatórios de encontros, de quantidade de comunidade quilombolas no estado do Pará. Então, infelizmente ou felizmente, o CEDENPA, ele foi essa única referência para gente de movimento negro que produzia conhecimento na Amazônia, mas que também reverberava para o resto do Brasil.”

A organização se tornou uma facilitadora do conhecimento que sempre esteve com a população e um referencial para fazer ouvir quem vivencia o racismo em todas as suas formas — inclusive o ambiental. Um termo relativamente recente nos debates públicos, mas que descreve um fenômeno antigo: a exposição desproporcional de comunidades negras, periféricas e indígenas aos impactos ambientais negativos. As consequências e os impactos mais graves trazidos por desastres ambientais e pela  crise climática sempre estiveram localizados.

Através do processo formativo e político promovido pelo CEDENPA, comunidades como Abacatal passaram a nomear experiências que sempre viveram. As enchentes, a contaminação dos rios, a dificuldade de acessar serviços básicos como saneamento básico e coleta de lixo — tudo isso passa a ser compreendido como resultado de um sistema de opressão. E é dessa compreensão  que a denúncia se fortalece e a luta por transformação ganha novos sentidos.

O conhecimento, nesse caso, não é imposto de fora, mas construído coletivamente, a partir da escuta das experiências vividas. Roberta Sodré explica como esse processo de conscientização transforma a percepção do cotidiano:

“Pensar em violação do meio ambiente é pensar em violação também do nosso bem-viver, violação da nossa dignidade, de ir e vir, a violação de várias outras coisas, porque talvez a palavra racismo ambiental ela soe como muito nova, recente para população mais pobre, mas a palavra enchente, alagamento, perda de produtos, não poder passar em tal horário porque a sua rua tá alagada, ter que usar uma sacola no pé, uma bota para poder chegar no ônibus para ir trabalhar, é algo muito antigo.”

Essa violação, marcada pela ausência de políticas públicas, se intensifica em Belém com os impactos climáticos da Amazônia: chuvas intensas que alagam bairros periféricos, enquanto os igarapés transbordam e colocam em risco as comunidades à sua margem. Além disso, grandes empreendimentos se instalam próximos às comunidades tradicionais, alterando cursos d’água e comprometendo a pesca e agricultura de subsistência.

Abacatal: 314 anos de resistência quilombola

O quilombo Abacatal, localizado em uma área de transição entre o rural e o urbano, próximo à capital Belém, é um símbolo de resistência: são mais de 314 anos de história quilombola sustentada por gerações de mulheres negras. Diante das tentativas de expulsão e violações constantes, a presença do CEDENPA foi — e continua sendo — decisiva.

Moradoras como Vanuza Cardoso destacam como essa parceria tem sido essencial para sustentar a resistência: “Abacatal tá na [região] Metropolitana e é um epicentro assim de violências, de violações, a gente quase foi expulso daqui por duas vezes, com casas derrubadas, com terreno vendido e a parceria com CEDENPA foi fundamental nessa linha da gente se reafirmar e falar mesmo, né, que somos donos e herdeiros dessa terra.”

Diante das desigualdades impostas por um modelo de desenvolvimento que marginaliza territórios negros, o trabalho de organizações como o CEDENPA reafirma que não existe justiça ambiental sem justiça racial. Ao lado das mulheres do quilombo Abacatal, a organização denuncia violações, forma lideranças e fortalece estratégias de permanência no território, com uma atuação construída na partilha de saberes. Nesse ciclo o aprendizado é coletivo e segue atravessando gerações com coragem, memória e ancestralidade.

“Desde sempre a gente caminha com o CEDENPA, o primeiro movimento negro que Abacatal consegue pontuar. Se você for falar com os mais velhos dessa comunidade, todos vão falar da importância do CEDENPA para essa comunidade, para as lutas. E a gente teve muitas vitórias a partir da chegada do CEDENPA junto com as irmãs da Sagrada Família”, relembra Vanuza.

Essa parceria vai muito além de um apoio pontual. O CEDENPA tem sua história entrelaçada à dessas comunidades, como movimento que nasce do mesmo chão. Os saberes não vêm de fora para dentro: se fortalecem na escuta, nas práticas, nos cantos e nos modos de viver compartilhados pelas mulheres quilombolas. São essas mulheres que, ao longo de séculos, sustentaram a vida em meio à violência, ao racismo ambiental e à exploração da terra e dos corpos. E é nessa troca que o movimento negro na Amazônia e as comunidades se sustentam, com solidariedade e partilha como base para um futuro possível.

A relação entre o CEDENPA e Abacatal, assim como outros quilombos da região, é exemplo de um modo de fazer político que não separa saber de viver. É compartilhando experiências, memória, cuidado mútuo e escuta que se constrói um projeto de justiça racial e climática. É compromisso com a vida em comum.

“A gente tem uma ligação muito forte com o movimento quilombola. […] Esses guardiões da floresta vão, a cada dia, buscando mais saídas. Não só para a questão do enfrentamento à injustiça climática, mas também da soberania alimentar, nutricional e energética dos seus territórios”, destaca Malcher. Esse compromisso entre organizações e territórios é também uma urgência política. Em Abacatal, a luta vai além da resistência contra expulsões e ameaças. É uma luta pelo corpo, pela memória e pela terra — onde o território é sagrado, não mercadoria.

As mulheres do quilombo, herdeiras de um saber ancestral, denunciam as violações que enfrentam todos os dias, em projetos que desconsideram sua existência, seu modo de vida, seus direitos mais básicos.

“A gente vive resistindo a muitos empreendimentos, a inserção de muitos projetos que são direcionados a Abacatal. […] Várias violações, e não é só a violação de direito no sentido do meio-ambiente, mas é a violação dos nossos corpos.”, conta Vanuza Cardoso.

Essas denúncias, essas práticas e esses saberes não nascem da teoria, mas da relação diária com a terra. É justamente dessa experiência vivida que emergem soluções reais para os desafios climáticos. Nomear essas violências, compreendê-las e denunciá-las é também fruto da caminhada conjunta com organizações como o CEDENPA — que não falam por, mas com as comunidades. Porque, se não há escuta para quem vive e cuida da Amazônia, não há justiça climática possível.


Comunidades quilombolas alertam exclusão na COP30

Enquanto o CEDENPA escreve uma história viva em Abacatal, comunidades quilombolas enfrentam o desafio de serem reconhecidas também nos espaços de decisão global. A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro de 2025 em Belém, será a primeira a ocorrer na Amazônia — um marco importante para a pauta ambiental. Mas essa população que vive a preservação da Amazônia nos seus territórios não foi incluída no documento oficial do evento.

Roberta Sodré nos convida a refletir sobre a importância de ocupar espaços como esses por quem sempre soube, por meio da prática, como se relacionar com a terra: “A gente começa a questionar também a nossa forma de atuar em favor do meio-ambiente, favor do clima. Esse período pré-COP, que fez a cidade de Belém, como um todo, o Brasil inteiro, atentar para certos termos e também atentar para a sua realidade, fez com que a palavra racismo ambiental ficasse em voga, mas também as nossas pautas ambientais entrassem em discussão. É preciso compreender que as pessoas mais periféricas ou então que estão fora desse ambiente acadêmico, não vão falar racismo ambiental. Mas por que não ouvir quando alguém tá falando que a sua casa tá inundando? Por que não ouvir quando alguém falar que o seu pescado tá vindo biruta?”

A CONAQ — Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas — apontou essa ausência como reflexo de uma invisibilização histórica e reivindicou credenciais, espaço físico e garantias efetivas de participação. Outras lideranças quilombolas latino-americanas também têm apontado barreiras como falta de infraestrutura, custos de deslocamento e a ausência de processos de consulta às comunidades que há séculos preservam os territórios da região.

A experiência das comunidades quilombolas da Amazônia oferece saberes valiosos sobre preservação ambiental, adaptação às mudanças climáticas e manejo sustentável dos territórios. Esses saberes não são complementares — são fundamentais. E precisam ser ouvidos, considerados e respeitados nos espaços de decisão. Reconhecer esses conhecimentos e garantir espaços para sua expressão é essencial para que eventos como a COP30 cumpram seus compromissos com justiça climática e inclusão.

“Se fosse depender da população que mora na Amazônia, a Amazônia estaria sempre de pé. Eu acredito que a nossa forma de conduzir essa discussão pode impactar nas outras pessoas para que de fato a gente não tenha só a Amazônia, mas todos os outros biomas do Brasil preservados — pensando no nosso futuro possível e mais digno.”, completa Roberta.

É tempo de deslocar o olhar: não se trata de levar soluções para os territórios, mas de aprender com quem, mesmo diante da exclusão, já vive soluções concretas. Como lembra Maria Santana, nascida e criada no Abacatal:

“A maioria das terras se tornou disputa, comércio. Para nós não. Terra não é comércio. Terra é vida, chão, terra é mãe. Ela nos dá, a natureza nos oferece tanta coisa. […] O território para nós é sagrado. O território para nós, mulheres do quilombo de Abacatal, é a nossa vida.”

Sem reconhecer a sabedoria ancestral quilombola, não há justiça climática possível. Reconhecer a luta quilombola por titulação, soberania alimentar e preservação territorial é parte essencial das políticas climáticas. É nesse chão, onde vida e ancestralidade se entrelaçam, que nascem as soluções. Como exemplifica Maria Malcher: “Abacatal é um quilombo estratégico nessa perspectiva. De você ainda ter essa relação com a presunção da ancestralidade. […] Não só no campo da produção, mas no campo também dos valores civilizatórios da religião, da referência e também dessa relação com o território mesmo. Com o chão, com a terra. Isso é muito importante.”

No coração da floresta, no rio, na ginga ancestral do quilombo, pulsa uma esperança que não é idílica — como Nilma diz —, mas feita de luta, cuidado e presença. Se a terra é mãe, como dizem Santana e Vanuza, é hora de que ela seja ouvida. O CEDENPA, em parceria com o ELAS+, segue fortalecendo esse protagonismo — porque manter a Amazônia viva é transformar o presente para construir futuros possíveis.

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