{"id":8013,"date":"2024-05-24T16:34:13","date_gmt":"2024-05-24T19:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=8013"},"modified":"2024-10-10T12:08:03","modified_gmt":"2024-10-10T15:08:03","slug":"medir-o-que-importa-e-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/medir-o-que-importa-e-politico\/","title":{"rendered":"Medir o que Importa \u00e9 pol\u00edtico!"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading\">Reflex\u00f5es sobre os processos de M&amp;A envolvendo o engajamento de membros na Rede Comu\u00e1<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por: Yasmim Morais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 uma incompatibilidade na medi\u00e7\u00e3o entre o que as pessoas que trabalham no n\u00edvel local consideram importante e o que os financiadores querem ouvir. Muitas vezes, esse desafio \u00e9 refletido em termos de modelos l\u00f3gicos lineares, que exigem uma simplifica\u00e7\u00e3o excessiva e muitas vezes limitam uma abordagem mais hol\u00edstica ou colaborativa\u201d (Dana Doan e Barry Knight, 2020).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Processos de monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o s\u00e3o parte do cotidiano de muitos profissionais de Organiza\u00e7\u00f5es da Sociedade Civil que, assim como eu, se preocupam com a sustentabilidade financeira de suas iniciativas e com os resultados que observamos em nossas comunidades a partir do nosso trabalho. Intencionalmente, definimos a mudan\u00e7a que queremos ver e trabalhamos para implementar projetos e programas que contribuam para ela. Acontece que toda mudan\u00e7a social \u00e9 complexa, n\u00e3o-linear, leva tempo e envolve fatores diversos (v\u00e1rios deles, inclusive, fora do nosso controle). Por algum tempo, pensei que dar conta dessa complexidade significava isolar alguns fatores e apenas considerar aquilo que encaixa na l\u00f3gica linear dos m\u00e9todos de M&amp;A tradicionais: as atividades que implementamos levam a resultados imediatos, que, depois de um tempo, nos levariam a objetivos e, no longo prazo, teria um impacto positivo junto \u00e0s comunidades onde o projeto foi implementado. Com profissionais do setor, apenas ter\u00edamos que aprender a construir essa l\u00f3gica e comunic\u00e1-la a financiadores. Nesta comunica\u00e7\u00e3o, quanto mais n\u00fameros surpreendentes, mais recursos captar\u00edamos! Mas ser\u00e1 que essa forma de medir representa, de fato, a mudan\u00e7a que queremos ver? Ser\u00e1 que os indicadores lineares que importamos das demandas de financiadores d\u00e3o espa\u00e7o para a complexidade dos sistemas onde estamos inseridos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na medida em que gerenciei e participei de projetos e programas diversos, nacionais e internacionais, tanto na base quanto em organiza\u00e7\u00f5es de infraestrutura do setor, como \u00e9 a Rede Comu\u00e1, percebi que medir impacto de forma linear limita nossa compreens\u00e3o das mudan\u00e7as sociais para as quais queremos contribuir, al\u00e9m de reproduzir o sistema imposto por financiadores que, muitas vezes, est\u00e3o distantes da nossa realidade. Foi assim que cheguei aos conceitos de Medir o que Importa. Na minha pr\u00e1tica, essa express\u00e3o significa priorizar os indicadores e questionamentos que s\u00e3o realmente importantes para a organiza\u00e7\u00e3o e o contexto no qual ela est\u00e1 inserida, seja ela uma OSC, um movimento social, coletivo ou iniciativa informal. Apesar de recentes, essa mudan\u00e7a de perspectiva sobre M&amp;A no setor tem gerado discuss\u00f5es cr\u00edticas e profundas para nossa pr\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 18 de abril, a Rede participou do evento \u201cMeasuring is Political &#8211; the Road from Bogot\u00e1\u201d (Medir \u00e9 Pol\u00edtico &#8211; caminho desde Bogot\u00e1), como continuidade das discuss\u00f5es que travamos no #ShiftThePower Summit em Bogot\u00e1, em dezembro do ano passado. Durante o evento, representei a Rede falando da minha perspectiva sobre o tema, junto com Caesar Ngule, da Kenya Community Development Foundation, uma parceira da Rede no \u00e2mbito da Alian\u00e7a Giving for Change. O evento foi parte de uma s\u00e9rie de dois encontros e produziu reflex\u00f5es importantes junto a mais de 100 pessoas, de diversos pa\u00edses, que t\u00eam buscado ressignificar os processos de M&amp;A para torn\u00e1-los mais \u00fateis e relevantes nos seus contextos. O evento tamb\u00e9m contou com interpreta\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea para portugu\u00eas e espanhol, refor\u00e7ando o compromisso de criar condi\u00e7\u00f5es para participa\u00e7\u00e3o igual de todas as pessoas. Aproveito para compartilhar aqui algumas das reflex\u00f5es que t\u00eam reverberado em minha pr\u00e1tica desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente, \u00e9 importante compreender por que falar de Medir o que Importa \u00e9 uma atitude pol\u00edtica. Como mencionei anteriormente, os modelos de monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o, muitas vezes, s\u00e3o impostos por financiadores que buscam satisfazer seus pr\u00f3prios requerimentos e interesses junto a organiza\u00e7\u00f5es que apoiam. Sendo assim, esses modelos com frequ\u00eancia s\u00e3o limitados, incompletos e pouco relevantes para as comunidades das quais os dados s\u00e3o extra\u00eddos. Medir o que Importa \u00e9 pol\u00edtico porque questiona essa din\u00e2mica de poder, refletida diretamente no qu\u00ea e como medimos. Repensar os modelos que representam formas de pensar e fazer coloniais e capitalistas \u00e9 pol\u00edtico. Propor uma nova maneira de fazer e pensar abala essas estruturas de poder que ditaram o que devemos observar e medir. Esse processo tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico por exigir uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica, compartilhando vulneravelmente essas reflex\u00f5es umes com outres e comprometendo-se com uma mudan\u00e7a que realmente reflita quem somos, o que fazemos e que mudan\u00e7as queremos provocar em nossos contextos. Mudan\u00e7as essas que s\u00e3o complexas e que apenas ser\u00e3o refletidas em modelos que permitam abra\u00e7ar essa complexidade, alocando recursos (dinheiro, tempo, energia) para medir o que realmente importa. Por fim, vejo esse processo como algo pol\u00edtico porque parte de n\u00f3s, e n\u00e3o da demanda de um financiador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui na Rede Comu\u00e1, Medir o que Importa \u00e9 um dos pilares da nossa forma de observar e avaliar o nosso trabalho e seus efeitos. Seguindo seus princ\u00edpios, buscamos criar indicadores que s\u00e3o: (1) \u00fateis e us\u00e1veis; (2) adapt\u00e1veis; (3) que gerem inspira\u00e7\u00e3o em vez de padroniza\u00e7\u00e3o e (4) que reforcem nosso compromisso com as pessoas e comunidades com as quais trabalhamos. Uma das \u00e1reas em que temos buscado implementar seus princ\u00edpios \u00e9 na nossa forma de medir o engajamento de membros com a rede como um todo. Escolhemos pensar no engajamento por ser um elemento crucial da nossa atua\u00e7\u00e3o e sustentabilidade como Rede. Enquanto financiadores normalmente se interessam apenas pelo n\u00famero de participantes em cada um de nossos encontros internos, em seus dados demogr\u00e1ficos e em alguns outros aspectos quantitativos, notamos que esses indicadores formam uma imagem incompleta de como enxergamos a complexidade de engajar membros diversos em uma rede focada em incid\u00eancia em um sistema tamb\u00e9m complexo, que \u00e9 o ecossistema filantr\u00f3pico brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A principal pergunta que fizemos a n\u00f3s mesmes nesse processo foi \u201co que queremos aprender sobre o engajamento de membros com a Rede e entre si?\u201d. Assim, algumas quest\u00f5es que surgiram eram: (1) o que o engajamento realmente significa para n\u00f3s como rede?; (2) como cada membro se engaja com a Rede?; (3) o que impacta o engajamento dos membros?; (4) como poder\u00edamos aprofundar o engajamento dos membros para que, na pr\u00e1tica, seja significativo e realmente contribua para nossos objetivos de incid\u00eancia? Nesse processo, notamos que nossas perguntas n\u00e3o t\u00eam a ver com alcan\u00e7ar um objetivo espec\u00edfico, quantitativo e perfeitamente mensur\u00e1vel, e sim chegar a <strong>aprendizados <\/strong>que importam para n\u00f3s e aprimoram nosso trabalho de gest\u00e3o da rede e de incid\u00eancia coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir disso, notamos que, para n\u00f3s, o engajamento vai al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o em eventos internos e outros indicadores quantitativos. Adotamos uma vis\u00e3o de \u201ccomunidade\u201d, em que o engajamento de membros significa incid\u00eancia proativa e coletiva, interc\u00e2mbio de ideias e apropria\u00e7\u00e3o de agendas e espa\u00e7os por parte das organiza\u00e7\u00f5es que integram a Rede. Nosso objetivo \u00e9 criar uma comunidade coesa, onde os membros se apoiem mutuamente, colaborem e se unam em torno de objetivos comuns. Ao repensarmos nossos indicadores de engajamento, percebemos a import\u00e2ncia de elaborar medidas que realmente capturem a ess\u00eancia dessa comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, desenvolvemos dois eixos de indicadores de Comunidade: (1) Participa\u00e7\u00e3o, para abarcar os indicadores que j\u00e1 med\u00edamos e alguns outros fatores menos quantitativos e mais complexos da rela\u00e7\u00e3o entre membros e (2) Incid\u00eancia, para inserir as iniciativas coletivas, alian\u00e7as e outras a\u00e7\u00f5es externas que partem do engajamento de e entre membros. Um fato curioso \u00e9 que, inicialmente, pensamos em chamar esse segundo eixo de &#8220;Expans\u00e3o&#8221;, mas logo percebemos que essa linguagem n\u00e3o reflete verdadeiramente nossos valores e objetivos, j\u00e1 que \u201cexpandir\u201d est\u00e1 frequentemente associado a ganhar escala, replicar m\u00e9todos, crescer. Percebendo a import\u00e2ncia de adotar uma linguagem pr\u00f3xima ao que acreditamos e evitar reproduzir as ideias que recha\u00e7amos, optamos, ent\u00e3o, por utilizar o termo &#8220;Incid\u00eancia&#8221;, que melhor representa nossas iniciativas de influ\u00eancia no ecossistema filantr\u00f3pico, as quais se fortalecem, se aprofundam e se sustentam a partir da nossa Comunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de termos avan\u00e7ado com essas reflex\u00f5es, entendemos que esse \u00e9 um trabalho em constante progresso, sujeito a ajustes e refinamentos \u00e0 medida que aprendemos mais sobre nossa comunidade e seu engajamento. De fato, esse processo, para n\u00f3s, gerou novas perguntas e nos fez voltar v\u00e1rias vezes \u00e0 pergunta inicial: \u201ce agora, o que queremos aprender? Onde queremos nos aprofundar?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, notamos tamb\u00e9m novos fatores que se somaram \u00e0 complexidade do tema, o que nos chamou aten\u00e7\u00e3o para as limita\u00e7\u00f5es de Medir o que Importa. Apesar de surgirem muitas perguntas e de termos interesse em investigar criticamente todas elas, nem sempre teremos os recursos, o tempo e a energia para fazer um estudo aprofundado em cima do nosso trabalho. \u00c9 importante priorizar e acolher nossas limita\u00e7\u00f5es ao longo do processo, trabalhando com o que temos, da forma que pudermos, usando as ferramentas e tecnologias dispon\u00edveis a n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula definitiva para medir o que realmente importa e que esse \u00e9 um compromisso com o aprendizado constante, com a reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre nosso trabalho e com a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades e contextos em constante mudan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, ao medirmos o engajamento dos membros na Rede Comu\u00e1, buscamos ir al\u00e9m dos n\u00fameros e estat\u00edsticas. Buscamos compreender o impacto real de nossas a\u00e7\u00f5es e fomentar uma comunidade engajada, onde cada membro possa contribuir dentro das suas possibilidades e potencialidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, para medir o que importa, lembremos de nos perguntar: O que queremos aprender? Por que isso importa? Para quem importa? Como criar ferramentas e processos de M&amp;A que reflitam o que realmente importa, respeitando nossas limita\u00e7\u00f5es? Na medida em que amadurecemos essas reflex\u00f5es junto a membros da Rede e parceiros do Movimento #ShiftThePower, compartilharemos mais sobre o tema, permitindo que nossas reflex\u00f5es tamb\u00e9m se reflitam em transforma\u00e7\u00f5es na nossa pr\u00e1tica e abalem as estruturas de poder do nosso setor.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;H\u00e1 uma incompatibilidade na medi\u00e7\u00e3o entre o que as pessoas que trabalham no n\u00edvel local consideram importante e o que os financiadores querem ouvir. 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