{"id":7298,"date":"2024-01-18T09:50:48","date_gmt":"2024-01-18T12:50:48","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=7298"},"modified":"2024-10-10T11:44:42","modified_gmt":"2024-10-10T14:44:42","slug":"poder-pra-respirar-reflexoes-sobre-minha-participacao-no-shiftthepower-global-summit-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/poder-pra-respirar-reflexoes-sobre-minha-participacao-no-shiftthepower-global-summit-2023\/","title":{"rendered":"Poder pra Respirar: reflex\u00f5es sobre minha participa\u00e7\u00e3o no #ShiftThePower Global Summit 2023"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Photo: Comua Network<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por: Yasmin Morais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Quando pousei em Bogot\u00e1, meu instinto foi parar um pouco e encher os pulm\u00f5es de ar, me dando conta de que o organismo, acostumado a viver no mar, sentia a necessidade de andar mais lento e respirar mais fundo. O motivo de encarar a altitude da capital colombiana era acompanhar minhes colegas da Rede Comu\u00e1, pela primeira vez, no <a href=\"https:\/\/www.shiftthepowersummit.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">#ShiftThePower Global Summit<\/a>, organizado pelo Global Fund for Community Foundations. Aqui, vou compartilhar algumas das reflex\u00f5es que registrei ao longo do evento e que voltaram comigo ao Brasil, reverberando ainda nas trocas e no trabalho que desenvolvemos na Rede.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegarmos ao evento, a recep\u00e7\u00e3o foi lenta e calorosa, e logo deu lugar a abra\u00e7os t\u00e3o esperados em pessoas que antes eram apenas janelinhas no Zoom, mas que agora dividiam as inspira\u00e7\u00f5es profundas conosco. De cara, deu para perceber que est\u00e1vamos em outro ritmo. Para n\u00f3s, este foi o maior diferencial do evento: agendas flex\u00edveis, tempo para descanso, espa\u00e7os diversos para escuta e trocas de qualidade com quem encontr\u00e1vamos pessoalmente pela primeira (ou pela d\u00e9cima) vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso costume, por influ\u00eancia do modus operandi capitalista em que vivemos, \u00e9 com eventos acelerados para chegar em resolu\u00e7\u00f5es e encaminhamentos imediatos, ou para escutar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de painelistas para absorver um d\u00e9cimo do que ouvimos. No #ShiftThePower Summit, essa mania de chegar r\u00e1pido deu lugar a uma outra prioridade: cuidar de si e das outras pessoas para, ent\u00e3o, testemunhar as mudan\u00e7as pelas quais tanto trabalhamos. Aprendemos sobre o qu\u00e3o importante &#8211; e revolucion\u00e1rio &#8211; \u00e9 centralizar o cuidado no nosso trabalho, respeitando a necessidade de, \u00e0s vezes, parar tudo e respirar. Para Magda Poche\u0107, do FemFund (Pol\u00f4nia), isso \u00e9 parte de um ativismo regenerativo, aquele que resiste \u00e0 l\u00f3gica capitalista de explorar a n\u00f3s mesmos em nome de uma produ\u00e7\u00e3o desenfreada, sem descanso e sem espa\u00e7o para nossas limita\u00e7\u00f5es humanas. Como ela disse em sua fala durante uma das plen\u00e1rias, isso \u00e9 uma forma poderosa de pr\u00e9-figurar outros futuros poss\u00edveis, at\u00e9 que o que acreditamos seja tamb\u00e9m a forma que trabalhamos (<em>\u201cour what is our how<\/em>\u201d).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na medida em que seguimos escutando a n\u00f3s mesmes e \u00e0s pessoas de mais de 80 pa\u00edses, ouvimos, vimos e sentimos diversas outras constru\u00e7\u00f5es do que \u00e9 &#8211; e o que pode ser &#8211; poder. Al\u00e9m de cuidar e ser cuidado, poder \u00e9 dividir uma refei\u00e7\u00e3o sem carnes de origem animal; aprender os passos de salsa que marcaram o solo onde pis\u00e1vamos; praticar e ensinar espanhol ou portugu\u00eas \u00e0s nossas parcerias angl\u00f3fonas; convid\u00e1-las a conhecer nossa latinidade diversa e potente; aproveitar os intervalos para provar das bebidas ancestrais colombianas e, com elas, a sabedoria ind\u00edgena que, por tanto tempo, manteve viva a paisagem que admiramos pelos corredores do evento.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia em Bogot\u00e1 foi, portanto, uma forma de pr\u00e9-figurar o poder. Faz\u00ea-lo menos centralizado, mais diverso, colorido, coletivo, lento. No entanto, durante o evento, n\u00e3o pudemos deixar de questionar o poder que ainda precisamos desmantelar para que seja, ent\u00e3o, poss\u00edvel cuidar de n\u00f3s, dos nossos e de nossos territ\u00f3rios com toda for\u00e7a e pot\u00eancia que sempre tivemos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As oficinas facilitadas ao longo do evento foram importantes para dar vaz\u00e3o a esses questionamentos. Nas sess\u00f5es sobre Medir o que Importa e sobre Decoloniza\u00e7\u00e3o, ambas no contexto da filantropia e do desenvolvimento, criticamos as pr\u00e1ticas coloniais e capitalistas que ainda permeiam as rela\u00e7\u00f5es de poder entre n\u00f3s, nossas equipes, nossas parcerias e financiadores. N\u00e3o pudemos deixar de notar a falta de uma parte significativa de tomadores de decis\u00e3o influentes no nosso campo, bem como a sensa\u00e7\u00e3o de que ainda temos pouco em nossas m\u00e3os para de fato deslocar o poder para as comunidades. Al\u00e9m disso, as sess\u00f5es nos lembraram da profundidade das estruturas as quais tanto queremos mudar. Barry Knight, do Global Fund for Community Foundations, colocou que as ferramentas que temos hoje para medir o impacto do nosso trabalho s\u00e3o coloniais e desenhadas pelo norte global. Da mesma forma, s\u00e3o os modelos de projetos que pedem resultados imediatos e escal\u00e1veis, indo de encontro ao ritmo das mudan\u00e7as sociais: n\u00e3o-linear, complexo e, muitas vezes, lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Aliado a isso, Ambika Satkunanathan, Neelam Tiruchelvam Trust (Sri Lanka), em sua fala brilhante em uma das plen\u00e1rias, nos alertou sobre o risco de tornar a justi\u00e7a social mais \u201cpalat\u00e1vel\u201d para financiadores, despolitizando e \u201ccorporativizando\u201d as nossas lutas, de forma que sirvamos mais aos interesses capitalistas do que \u00e0s reais necessidades de nossos territ\u00f3rios. Marie-Rose Romain Murphy, da Haiti Community Foundation (Haiti) complementou a fala de Ambika com uma provoca\u00e7\u00e3o: \u201cimagine se as pessoas enviassem uma proposta para financiar a revolu\u00e7\u00e3o!\u201d. Em suma, parte do exerc\u00edcio de transformar o poder tamb\u00e9m implica se preparar para dizer n\u00e3o e preservar os valores e saberes que pr\u00e9-figuram o poder que n\u00f3s queremos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, como coloca Batliwala (2018), poder n\u00e3o se trata apenas do acesso a recursos e da capacidade de ag\u00eancia a partir deles. Poder \u00e9 tamb\u00e9m acessar direitos e oportunidades; \u00e9 decidir sobre a distribui\u00e7\u00e3o desses recursos e sobre tudo que nos afetar, seja de forma individual ou coletiva. Poder \u00e9 tamb\u00e9m ter influ\u00eancia para definir agendas e prioridades; para falar e ser ouvide; para ter seu trabalho valorizado, seja ele produtivo ou reprodutivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o complexa de poder nos lembra que vivemos em rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas de poder o tempo inteiro, inclusive nos espa\u00e7os de influ\u00eancia das nossas organiza\u00e7\u00f5es, como disse Ambika em sua fala. Na medida em que buscamos aproximar essas discuss\u00f5es de atores influentes no campo da filantropia, tamb\u00e9m \u00e9 importante ter consci\u00eancia do nosso poder individual, institucional e coletivo. Que privil\u00e9gios facilitam nosso acesso a recursos? De que formas decidimos sobre a distribui\u00e7\u00e3o desses recursos? Que agendas e grupos se beneficiam deles? No nosso contexto, o que significa \u201ctransferir poder\u201d, na pr\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p>Essas s\u00e3o reflex\u00f5es dif\u00edceis, que se tornam mais genu\u00ednas e se aprofundam quando feitas em conjunto. Sendo assim, uma forma <em>poderosa <\/em>de descentralizar o poder \u00e9 atrav\u00e9s das redes, pois elas facilitam a coopera\u00e7\u00e3o entre pessoas diversas, fortalecem agendas, trazem mais seguran\u00e7a e confian\u00e7a a quem participa. Em Bogot\u00e1, alguns dos abra\u00e7os que me marcaram foram com as pessoas do grupo Queer que hav\u00edamos criado antes do evento. Com elas, pude sentir que n\u00e3o estava s\u00f3 e que o mundo que tanto envisionamos ao longo dos dias na Col\u00f4mbia se aproxima quando estamos juntes. Da mesma forma, me senti ao encontrar o pessoal da <a href=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/nasce-a-alianca-territorial-durante-o-mes-da-filantropia-que-transforma\/\">Territorial Alliance<\/a>, que nasceu e tem sido gerada na Rede Comu\u00e1. O poder dos territ\u00f3rios em que a Alian\u00e7a est\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel e ser\u00e1 ainda mais fortalecido a partir dessa rede.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o evento terminou com um refor\u00e7o individual e coletivo de deslocar o poder onde estivermos, valorizando saberes e pr\u00e1ticas pol\u00edticas que contribuem verdadeiramente para as transforma\u00e7\u00f5es que buscamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, compartilho aqui um trecho de um poema que escrevi ao refletir sobre a nossa experi\u00eancia no #ShiftThePower Global Summit.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;]<\/p>\n\n\n\n<p>deslocar o poder<br>d\u00e1-lo a novas m\u00e3os<br>m\u00e3os que o molde<br>o chacoalhe<br>o divida<br>o transfira<br>o quebre<br>reconstrua<\/p>\n\n\n\n<p>o lance ao ar<\/p>\n\n\n\n<p>pra enfim chegar l\u00e1<br>nas ruas, vielas<br>nas putas, favelas<br>nos muros, aldeias<br>quilombos, teatros<br>nas pra\u00e7as, nos rios<br>nas caras<\/p>\n\n\n\n<p>de quem insistiu<br>em nos matar<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;]<\/p>\n\n\n\n<p>mudar o poder<br>pra gente poder decidir<\/p>\n\n\n\n<p>mudar o poder<br>pra gente poder respirar<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>References:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Batliwala, S. (2018), All About Power: Understanding Social Power &amp; Power Structures. New Delhi: CREA.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando pousei em Bogot\u00e1, meu instinto foi parar um pouco e encher os pulm\u00f5es de ar, me dando conta de que o organismo, acostumado a viver no mar, sentia a necessidade de andar mais lento e respirar mais fundo. O motivo de encarar a altitude da capital colombiana era acompanhar minhes colegas da Rede Comu\u00e1, pela primeira vez, no #ShiftThePower Global Summit, organizado pelo Global Fund for Community Foundations. 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