{"id":12505,"date":"2026-04-28T12:08:56","date_gmt":"2026-04-28T15:08:56","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=12505"},"modified":"2026-05-05T09:37:09","modified_gmt":"2026-05-05T12:37:09","slug":"territorios-clima-e-modos-de-vida-repensando-a-justica-climatica-a-partir-dossaberes-tradicionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/territorios-clima-e-modos-de-vida-repensando-a-justica-climatica-a-partir-dossaberes-tradicionais\/","title":{"rendered":"Territ\u00f3rios, clima e modos de vida: repensando a justi\u00e7a clim\u00e1tica a partir dos saberes tradicionais"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-small-font-size\"><em>Foto em destaque: Rebeca Roxani Binda &#8211; Volta Grande do Xingu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>* Por Thain\u00e1 Mamede<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O debate sobre justi\u00e7a clim\u00e1tica frequentemente \u00e9 conduzido a partir de diagn\u00f3sticos<br>globais e categorias anal\u00edticas formuladas fora dos contextos vividos. Esse enquadramento<br>tende a privilegiar interpreta\u00e7\u00f5es produzidas em espa\u00e7os institucionais, acad\u00eamicos ou<br>multilaterais, que nem sempre dialogam com as formas pelas quais povos ind\u00edgenas e<br>comunidades tradicionais vivenciam e interpretam as transforma\u00e7\u00f5es sociais e clim\u00e1ticas<br>em seus territ\u00f3rios.<br><br>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o apenas um conceito abstrato: elas s\u00e3o vividas<br>cotidianamente, a partir da rela\u00e7\u00e3o direta com o ambiente, com os ciclos da natureza e com<br>formas pr\u00f3prias de organiza\u00e7\u00e3o social e produtiva, enraizadas em contextos espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esta reflex\u00e3o parte de uma provoca\u00e7\u00e3o central: o que acontece com o pr\u00f3prio conceito de<br>justi\u00e7a clim\u00e1tica quando ele \u00e9 observado a partir das experi\u00eancias territoriais de povos<br>ind\u00edgenas, comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais? Trata-se de<br>questionar em que medida esse conceito, frequentemente formulado em espa\u00e7os<br>institucionais ou acad\u00eamicos, dialoga com as formas pelas quais esses povos<br>compreendem o clima, a natureza e os processos de transforma\u00e7\u00e3o social.<br><br>Partir dessa pergunta implica reconhecer que h\u00e1 diferentes rela\u00e7\u00f5es com a natureza e com<br>o clima, constru\u00eddas historicamente por esses povos. Enquanto grande parte das<br>abordagens convencionais trata a natureza como recurso ou objeto de gest\u00e3o, muitas<br>comunidades tradicionais e povos ind\u00edgenas estabelecem rela\u00e7\u00f5es baseadas na<br>interdepend\u00eancia, no cuidado e na continuidade dos ciclos da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os territ\u00f3rios tamb\u00e9m produzem interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias sobre a crise clim\u00e1tica, muitas<br>vezes distintas das narrativas predominantes. Por exemplo, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem<br>ser percebidas e interpretadas de maneiras diversas pelas comunidades, a partir de suas<br>experi\u00eancias concretas com o ambiente e com os ciclos ecol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a clim\u00e1tica ganha outros sentidos quando parte da experi\u00eancia concreta<br>dos povos que convivem diretamente com esses ciclos. Nesses contextos, os fen\u00f4menos<br>naturais n\u00e3o s\u00e3o compreendidos apenas como eventos extremos ou desastres, mas<br>tamb\u00e9m a partir de seus significados hist\u00f3ricos, culturais e produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O exemplo das comunidades vazanteiras ilustra essa perspectiva. Para esses povos, que<br>vivem em estreita rela\u00e7\u00e3o com os ciclos dos rios, a cheia, muitas vezes associada<br>externamente \u00e0 ideia de desastre, pode ser compreendida como parte de um ciclo de<br>abund\u00e2ncia. A enchente, ao irrigar as terras, facilitar o deslocamento e possibilitar o plantio,<br>expressa uma forma distinta de compreender a din\u00e2mica ambiental. <br><br>Outro exemplo pode ser observado nas pr\u00e1ticas das quebradeiras de coco baba\u00e7u,<br>presentes em diferentes regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia e do Cerrado. Nessas comunidades, o<br>manejo do baba\u00e7u est\u00e1 profundamente associado aos ciclos da floresta e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3 coletiva dos modos de vida. A coleta e o processamento do coco integram atividades econ\u00f4micas, sociais e culturais, estruturando formas de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e de defesa do territ\u00f3rio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A prote\u00e7\u00e3o dos baba\u00e7uais, frequentemente reivindicada pelas pr\u00f3prias comunidades por meio da luta pelo \u201cbaba\u00e7u livre\u201d, expressa uma rela\u00e7\u00e3o com a floresta baseada no uso coletivo e na continuidade dos ciclos naturais. Essas pr\u00e1ticas n\u00e3o se organizam a partir da agenda clim\u00e1tica, mas fazem parte de formas hist\u00f3ricas de habitar, produzir e cuidar do territ\u00f3rio, constru\u00eddas muito antes de a crise clim\u00e1tica se tornar uma<br>categoria central no debate p\u00fablico. Esses exemplos evidenciam que diferentes povos e comunidades tradicionais produzem interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias sobre os ciclos da natureza e as transforma\u00e7\u00f5es socioambientais, que nem sempre se organizam a partir das categorias que estruturam o debate <br>clim\u00e1tico contempor\u00e2neo. <br><br>Nesse contexto, iniciativas filantr\u00f3picas podem desempenhar um papel<br>importante ao apoiar e ampliar a visibilidade dessas perspectivas, evitando enquadr\u00e1-las<br>apenas como \u201csolu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d e reconhecendo a centralidade dos territ\u00f3rios e dos<br>modos de vida que as sustentam.<br><br>Se essas experi\u00eancias s\u00e3o centrais para compreender a justi\u00e7a clim\u00e1tica, isso tamb\u00e9m<br>implica reconhecer que a agenda de justi\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 profundamente vinculada \u00e0<br>prote\u00e7\u00e3o de defensoras e defensores desses modos de vida. A atua\u00e7\u00e3o cotidiana dessas<br>lideran\u00e7as \u00e9 central para a preserva\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e para a continuidade de pr\u00e1ticas que<br>contribuem para o equil\u00edbrio clim\u00e1tico. A defesa dos bens comuns, frequentemente<br>realizada em contextos de conflito e vulnerabilidade, revela que a prote\u00e7\u00e3o dessas pessoas<br>n\u00e3o \u00e9 apenas uma pauta de direitos humanos, mas tamb\u00e9m uma condi\u00e7\u00e3o fundamental<br>para a efetividade das respostas \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<br><br>Nesse contexto, torna-se relevante observar como essas perspectivas se expressam em<br>iniciativas concretas de apoio a a\u00e7\u00f5es constru\u00eddas a partir da base e desenvolvidas nos<br>territ\u00f3rios. Experi\u00eancias de financiamento direto voltadas a povos ind\u00edgenas e comunidades<br>tradicionais podem contribuir para fortalecer pr\u00e1ticas que j\u00e1 existem nesses contextos e que<br>articulam prote\u00e7\u00e3o territorial, reprodu\u00e7\u00e3o dos modos de vida e equil\u00edbrio clim\u00e1tico.<br><br>A experi\u00eancia do Ra\u00edzes &#8211; Justi\u00e7a Clim\u00e1tica para Povos Ind\u00edgenas e Comunidades<br>Tradicionais evidencia como mecanismos filantr\u00f3picos podem apoiar iniciativas que<br>emergem dos pr\u00f3prios territ\u00f3rios, articulando a prote\u00e7\u00e3o da natureza, a justi\u00e7a clim\u00e1tica e a<br>continuidade dos modos de vida. Ao reconhecer e apoiar essas iniciativas, tais mecanismos<br>tamb\u00e9m tensionam modelos tradicionais de financiamento, historicamente distantes das<br>din\u00e2micas e prioridades constru\u00eddas nos territ\u00f3rios.<br><br>Essa perspectiva contribui, portanto, para aprofundar o desenvolvimento do conceito<br>de justi\u00e7a clim\u00e1tica a partir do olhar daqueles que historicamente t\u00eam sustentado o<br>equil\u00edbrio clim\u00e1tico. Essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00eddas com base em saberes tradicionais,<br>adaptadas \u00e0s especificidades territoriais e capazes de enfrentar os impactos da emerg\u00eancia<br>clim\u00e1tica de forma sustent\u00e1vel, coletiva e inclusiva. Ao valorizar essas experi\u00eancias, \u00e9<br>poss\u00edvel contribuir para o aprimoramento de estrat\u00e9gias filantr\u00f3picas que ampliem o acesso<br>a recursos por parte das comunidades e fortale\u00e7am respostas clim\u00e1ticas enraizadas nas<br>realidades vividas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mais do que respostas locais para um problema global, essas experi\u00eancias revelam que<br>povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais s\u00e3o protagonistas na constru\u00e7\u00e3o de caminhos<br>concretos para a justi\u00e7a clim\u00e1tica. Reconhecer, apoiar e aprender com essas pr\u00e1ticas \u00e9 um<br>passo fundamental rumo a solu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais justas, eficazes e alinhadas com a<br>diversidade de saberes e modos de vida.<br><br>No entanto, \u00e9 importante tamb\u00e9m ter cautela na forma como determinadas narrativas s\u00e3o<br>constru\u00eddas no \u00e2mbito clim\u00e1tico. Com frequ\u00eancia, pr\u00e1ticas, conhecimentos e modos de vida<br>de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais s\u00e3o apresentados como \u201csolu\u00e7\u00f5es<br>clim\u00e1ticas\u201d. Ainda que essas pr\u00e1ticas contribuam para a prote\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e para o<br>equil\u00edbrio ecol\u00f3gico, \u00e9 fundamental reconhecer que elas n\u00e3o foram concebidas<br>originalmente como respostas \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, mas como express\u00f5es de<br>formas pr\u00f3prias de habitar, cuidar e organizar a vida.<br><br>Quando esses modos de vida s\u00e3o enquadrados exclusivamente como \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d, corre-se<br>o risco de reduzi-los a instrumentos de enfrentamento da crise clim\u00e1tica, apagando seus<br>significados cosmol\u00f3gicos, culturais e pol\u00edticos. Essa tradu\u00e7\u00e3o, feita a partir de categorias<br>externas, pode levar \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e saberes que possuem sentidos<br>muito mais amplos. Mais do que estrat\u00e9gias criadas para enfrentar a crise clim\u00e1tica, essas<br>pr\u00e1ticas refletem outras formas de se relacionar com o mundo, constru\u00eddas historicamente<br>por esses povos em rela\u00e7\u00e3o direta com seus territ\u00f3rios.<br><br>Essa reflex\u00e3o dialoga com perspectivas cr\u00edticas como as desenvolvidas por Ant\u00f4nio Bispo<br>dos Santos, que nos convidam a compreender os saberes e pr\u00e1ticas tradicionais a partir de<br>suas pr\u00f3prias cosmologias e formas de vida, e n\u00e3o apenas a partir das categorias da<br>racionalidade dominante.<br><br>Partir das experi\u00eancias territoriais n\u00e3o significa apenas incluir novos atores no debate<br>clim\u00e1tico, mas tamb\u00e9m questionar os pr\u00f3prios marcos conceituais que organizam a forma<br>dominante de compreender a crise clim\u00e1tica e suas respostas.<br>Reconhecer essas perspectivas n\u00e3o implica apenas ampliar o repert\u00f3rio de respostas \u00e0<br>crise clim\u00e1tica, mas repensar as pr\u00f3prias bases conceituais e pol\u00edticas a partir das quais<br>essa crise tem sido compreendida e enfrentada.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>* Especialista em Direitos Humanos pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e bacharela em Direito pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Assessora de Projetos &#8211; Ra\u00edzes &#8211; Justi\u00e7a Clim\u00e1tica para Povos Ind\u00edgenas e Comunidades Tradicionais. Atua na coordena\u00e7\u00e3o cotidiana das iniciativas apoiadas, acompanhando organiza\u00e7\u00f5es, fornecendo assessoramento t\u00e9cnico, monitorando atividades e contribuindo para o desenho e implementa\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias program\u00e1ticas do Ra\u00edzes no Fundo Brasil.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que muda quando a justi\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 pensada a partir dos territ\u00f3rios? Este texto convida a olhar para os saberes, modos de vida e pr\u00e1ticas de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais como caminhos fundamentais para imaginar respostas clim\u00e1ticas mais justas, coletivas e enraizadas na vida.<\/p>","protected":false},"author":6,"featured_media":12509,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[213,243,232],"class_list":["post-12505","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fundo-brasil","tag-filantropia-comunitaria","tag-financiamento-climatico","tag-fundos-comunitarios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12505"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12505\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12520,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12505\/revisions\/12520"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}