{"id":12442,"date":"2026-03-18T17:34:23","date_gmt":"2026-03-18T20:34:23","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=12442"},"modified":"2026-03-18T17:35:56","modified_gmt":"2026-03-18T20:35:56","slug":"visibilidade-em-disputa-sociedade-civil-na-era-algoritmica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/visibilidade-em-disputa-sociedade-civil-na-era-algoritmica\/","title":{"rendered":"Visibilidade em Disputa: Sociedade Civil na Era Algor\u00edtmica"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-size:15px\"><em>Por Christiane Sampaio*<\/em> <br><em>Imagem destaque: Bele\u0301m (PA), 11:11:2025 &#8211; Indi\u0301genas participam da inaugurac\u0327a\u0303o da Aldeia COP. Foto- Bruno Peres: Age\u0302ncia Brasil<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">A combina\u00e7\u00e3o entre criminaliza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia pol\u00edtica, e difus\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o produz um ambiente de constante vulnerabilidade e alto risco para organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil (OSCs) e defensores de direitos humanos no Brasil. Esses riscos se tornam ainda mais complexos quando mediadores invis\u00edveis \u2014 os algoritmos \u2014 passam a organizar a visibilidade, a reputa\u00e7\u00e3o e, em certa medida, a legitimidade p\u00fablica dessas organiza\u00e7\u00f5es. Nesse cen\u00e1rio, o encolhimento do espa\u00e7o c\u00edvico n\u00e3o se d\u00e1 apenas por mecanismos jur\u00eddicos ou repressivos, mas tamb\u00e9m por disputas simb\u00f3licas e informacionais mediadas por tecnologias digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>O ENCOLHIMENTO DO ESPA\u00c7O C\u00cdVICO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">O espa\u00e7o c\u00edvico \u00e9 vital para a atua\u00e7\u00e3o das OSCs em qualquer sociedade. Mas, na \u00faltima d\u00e9cada, h\u00e1 um acelerado processo de decl\u00ednio democr\u00e1tico no contexto global que se expressa tamb\u00e9m por interfer\u00eancias autorit\u00e1rias que fragilizam o espa\u00e7o c\u00edvico. No Brasil, uma das facetas desse processo foi nomeada de \u201c<a href=\"https:\/\/plataformaosc.org.br\/criminalizacao-burocratica-estrategias-politico-juridicas-neoliberalismo-e-a-atuacao-das-organizacoes-da-sociedade-civil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">criminaliza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica<\/a>\u201d \u2014 termo cunhado pela Plataforma por um Novo Marco Regulat\u00f3rio para as Organiza\u00e7\u00f5es da Sociedade Civil (MROSC), em 2010 \u2014 para designar o uso de instrumentos administrativos, jur\u00eddicos e de controle como forma de constrangimento e intimida\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">O uso da investiga\u00e7\u00e3o e\/ou condena\u00e7\u00e3o criminal para perseguir militantes \u00e9 outra vers\u00e3o contempor\u00e2nea de desmobiliza\u00e7\u00e3o de movimentos sociais, como aponta o <a href=\"https:\/\/iddd.org.br\/2023\/11\/30\/ativismo-cercado-um-diagnostico-da-criminalizacao-das-lutas-sociais-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat\u00f3rio <em>Ativismo Cercado: um Diagn\u00f3stico da Criminaliza\u00e7\u00e3o das Lutas Sociais em S\u00e3o Paulo<\/em><\/a>, elaborado a partir de 55 casos de persegui\u00e7\u00e3o a ativistas de direitos humanos na capital paulista e regi\u00e3o metropolitana.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Esse problema afeta de forma desproporcional organiza\u00e7\u00f5es menores, de base comunit\u00e1ria e com atua\u00e7\u00e3o territorial, especialmente aquelas que trabalham com direitos humanos, prote\u00e7\u00e3o ambiental, povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais. Esses grupos frequentemente est\u00e3o mais expostos a ataques reputacionais que podem resultar n\u00e3o apenas na perda de financiamento e apoio social, mas tamb\u00e9m em riscos reais para defensores de direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Pessoas que atuam na defesa de direitos territoriais e ambientais figuram entre as principais v\u00edtimas da viol\u00eancia no contexto nacional. Em 2023, defensores dos direitos dos povos ind\u00edgenas foram o grupo mais visado, com 92 assassinatos registrados no Brasil, colocando o pa\u00eds na terceira posi\u00e7\u00e3o no ranking mundial dos que mais assassinam defensores de direitos humanos, segundo a <a href=\"https:\/\/www.frontlinedefenders.org\/en\/resource-publication\/global-analysis-202324\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>An\u00e1lise Global<\/em> da Front Line Defenders 2023\/24<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>OS ALGORITMOS DEFINEM QUEM \u00c9 VISTO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Todos esses desafios atuais se expandem para o ecossistema midi\u00e1tico e informacional, profundamente marcado pela l\u00f3gica algor\u00edtmica. Os algoritmos de relev\u00e2ncia p\u00fablica \u2014 principais sistemas utilizados por redes sociais e mecanismos de busca \u2014 disp\u00f5em de rotinas de programa\u00e7\u00e3o que selecionam o que \u00e9 considerado mais relevante para cada usu\u00e1rio, organizando fluxos de informa\u00e7\u00e3o e hierarquizando conte\u00fados.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Ao instaurarem o que Gillespie chamou de &#8220;regime peculiar de visibilidade e invisibilidade&#8221; e o que Bricher identificou como &#8220;uma nova l\u00f3gica de conhecimento&#8221;, esses sistemas desafiam as capacidades de comunica\u00e7\u00e3o das OSCs com a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem crit\u00e9rios neutros ou universais para definir relev\u00e2ncia, visibilidade ou engajamento nas plataformas digitais. Os dados, longe de serem brutos, s\u00e3o produzidos por pr\u00e1ticas sociais, t\u00e9cnicas e corporativas que moldam a circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e influenciam a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">&#8220;Todos os dados s\u00e3o categorizados, organizados, limpos e valorados, a partir de crit\u00e9rios criados por pessoas que comp\u00f5em a equipe de programa\u00e7\u00e3o e cargos executivos das empresas. Este processo de tratamento dos dados prepara o algoritmo para selecionar e moderar conte\u00fados atrav\u00e9s das plataformas, a partir de uma lista de crit\u00e9rios produzida parcialmente por um grupo de pessoas.&#8221; \u2014 Gitelman e Jackson (2013)<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Gillespie aponta que h\u00e1 um \u2018entrela\u00e7amento\u2019 multidimensional entre algoritmos postos em pr\u00e1tica e as t\u00e1ticas dos usu\u00e1rios que fazem face a eles, uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve ser entendida como influ\u00eancia de m\u00e3o \u00fanica, mas como um ciclo recursivo entre os c\u00e1lculos do algoritmo e os &#8220;c\u00e1lculos&#8221; das pessoas.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\"><strong>Esta pr\u00e1tica de entrela\u00e7amento <\/strong><strong>pode vir a representar uma perspectiva dissidente:<\/strong> a possibilidade de disputar sentidos, questionar as pol\u00edticas algor\u00edtmicas e reposicionar a sociedade civil como agente ativo na constru\u00e7\u00e3o de um ambiente informacional mais democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Apesar dos algoritmos serem, nas palavras de Kitchin, &#8220;realiza\u00e7\u00f5es incertas, provis\u00f3rias, fr\u00e1geis&#8221;, em constante processo de reedi\u00e7\u00e3o e refeitura, \u00e9 poss\u00edvel observar suas a\u00e7\u00f5es e seus resultados. Como resumem as pesquisadoras Jurno e Dalben, &#8220;os algoritmos n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 o que os programadores almejam, mas o resultado de como os usu\u00e1rios lidam com eles no dia a dia, subvertendo, reinventando e retrabalhando suas inten\u00e7\u00f5es iniciais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>DISPUTAR SENTIDOS: UM CAMINHO ESTRAT\u00c9GICO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">A defesa do espa\u00e7o c\u00edvico passa tamb\u00e9m pela capacidade de compreender, tensionar e intervir nos sistemas digitais que hoje mediam a vida p\u00fablica. \u00c9, portanto, estrat\u00e9gico que o campo da sociedade civil desenvolva capacidades de an\u00e1lise sistem\u00e1tica das din\u00e2micas informacionais que afetam sua atua\u00e7\u00e3o. As OSCs precisam compreender n\u00e3o apenas como s\u00e3o narradas, mas tamb\u00e9m como podem intervir criticamente na modelagem do debate p\u00fablico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Desenvolver de forma cont\u00ednua pr\u00e1ticas de monitoramento, ampliar alian\u00e7as estrat\u00e9gicas e desenvolver repert\u00f3rios comunicacionais alinhados \u00e0 complexidade das din\u00e2micas algor\u00edtmicas s\u00e3o caminhos que a estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o<a href=\"https:\/\/sociedadeviva.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Sociedade Viva<\/a> acredita que podem colaborar para a amplia\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio da popula\u00e7\u00e3o brasileira em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho cotidiano que as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e os defensores de direitos humanos exercem na promo\u00e7\u00e3o dos direitos e da democracia no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:17px\"><em><strong>Christiane Sampaio<\/strong> \u00e9 jornalista e estrategista em comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica e advocacy, com mais de duas d\u00e9cadas de experi\u00eancia na sociedade civil e na lideran\u00e7a de programas e campanhas voltados \u00e0 participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e \u00e0 defesa de direitos no Brasil. <\/em><br><em>Foi coordenadora executiva da iniciativa <a href=\"https:\/\/sociedadeviva.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sociedade Viva<\/a> e integra o Conselho Gestor da <a href=\"https:\/\/narrativas.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Narrative Network<\/a>, contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o de campanhas, narrativas p\u00fablicas e coaliz\u00f5es voltadas \u00e0 incid\u00eancia em agendas de interesse p\u00fablico. <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/christiane-sampaio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.linkedin.com\/in\/christiane-sampaio\/<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>Know more:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>CORREA, Guillermo. <em>Narratives in motion: How civil society is redefining its place in the world<\/em>. Kettering Foundation, 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/kettering.org\/narratives-in-motion-how-civil-society-is-redefining-its-place-in-the-world\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/kettering.org\/narratives-in-motion-how-civil-society-is-redefining-its-place-in-the-world\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>GILLESPIE, Tarleton. A relev\u00e2ncia dos algoritmos. Tradu\u00e7\u00e3o de Amanda Jurno. Revis\u00e3o de Carlos d\u2019Andr\u00e9a. <em>Par\u00e1grafo<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 6, n. 1, p. 95\u2013121, jan.\/abr. 2018. (Artigo original: \u201cThe relevance of algorithms\u201d, in: <em>Media Technologies: Essays on Communication, Materiality, and Society<\/em>. Cambridge: MIT Press, 2014.)<\/p>\n\n\n\n<p>JURNO, Amanda Chevtchouk; DALBEN, S\u00edlvia. Quest\u00f5es e apontamentos para o estudo de algoritmos. <em>Par\u00e1grafo<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 6, n. 1, p. 17\u201329, jan.\/abr. 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>LAUT \u2013 CENTRO DE AN\u00c1LISE DA LIBERDADE E DO AUTORITARISMO. <em>O caminho da autocracia: estrat\u00e9gias atuais de eros\u00e3o democr\u00e1tica<\/em>. S\u00e3o Paulo: LAUT, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>LEMOS, Andr\u00e9. Sobre o fal(h)ar: cultura digital, precariedade e Antropoceno. <em>TECCOGS \u2014 Revista Digital de Tecnologias Cognitivas<\/em>, n. 31, p. 94\u2013107, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>FRONT LINE DEFENDERS. <em>Global analysis 2023\/24<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.frontlinedefenders.org\/en\/resource-publication\/global-analysis-202324\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.frontlinedefenders.org\/en\/resource-publication\/global-analysis-202324<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>SALLES, D\u00e9bora; LOUREIRO, Marina; SANCHOTENE, Nicole; SANTINI, R. Marie. The \u201cTruth\u201d About NGOs: How the Brazilian Media Frames the Attempt to Criminalize Socio-environmental Organizations. <em>Environmental Communication<\/em>, 3 Dec. 2025. DOI: 10.1080\/17524032.2025.2596623.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Christiane Sampaio* Imagem destaque: Bele\u0301m (PA), 11:11:2025 &#8211; Indi\u0301genas participam da inaugurac\u0327a\u0303o da Aldeia COP. 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