{"id":12424,"date":"2026-02-05T20:24:58","date_gmt":"2026-02-05T23:24:58","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=12424"},"modified":"2026-02-05T20:25:00","modified_gmt":"2026-02-05T23:25:00","slug":"e-os-quilombos-cume-que-fica-a-urgencia-de-uma-filantropia-que-reconheca-antes-de-tudo-as-praticas-ancestrais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/e-os-quilombos-cume-que-fica-a-urgencia-de-uma-filantropia-que-reconheca-antes-de-tudo-as-praticas-ancestrais\/","title":{"rendered":"E OS QUILOMBOS, \u201cCUM\u00ca QUE FICA\u2019?\u00a0A URG\u00caNCIA DE UMA FILANTROPIA QUE RECONHE\u00c7A ANTES DE TUDO AS PR\u00c1TICAS ANCESTRAIS"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-small-font-size\"><em>Por Raimundo Jos\u00e9 da Silva Leite e Ludmila Pereira de Almeida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Refletir sobre como a filantropia comunit\u00e1ria chega aos quilombos \u00e9 retomar alguns pontos que dizem respeito a como as comunidades permanecem vivas mesmo diante de tanta imposi\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00f5es de direitos. A partir de nossa escuta e viv\u00eancia nos quilombos, estamos entendendo aqui que \u201cfilantropia\u201d &#8211; essa palavra que vem de fora das comunidades tradicionais -, em resumo, se volta para pr\u00e1ticas de doa\u00e7\u00f5es de recursos financeiros, geralmente, redirecionadas por grandes organiza\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, no Brasil, nos quilombos, essa pr\u00e1tica em si n\u00e3o \u00e9 novidade. A reciprocidade, compartilhamento e coopera\u00e7\u00e3o de recursos (em especial, de saberes, de alimentos, de ajuda m\u00fatua, de fazer uma \u201cvaquinha\u201d), j\u00e1 ocorre de forma tradicional e secular, e as filantropias atuais precisam estar atentas a isso para n\u00e3o atropelarem os modos de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, s\u00e3o importantes os repasses de recursos \u00e0s comunidades, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que, muitas vezes, e infelizmente, chega antes das pol\u00edticas p\u00fablicas. No entanto, \u00e9 tamb\u00e9m importante que a filantropia n\u00e3o repita viol\u00eancias hist\u00f3ricas e nem seja apenas para tentar mitigar problemas ou crises. \u00c9 preciso, antes de tudo, que a filantropia que se comprometa com a transforma\u00e7\u00e3o construa caminhos para que os problemas n\u00e3o cheguem &#8211; e isso exige tempo, \u00e9 um processo que em um edital pode n\u00e3o trazer o resultado esperado. E, mais ainda importante, que fomente o que \u00e9 de pot\u00eancia no territ\u00f3rio, que n\u00e3o \u00e9 marcado s\u00f3 por dor e desgra\u00e7a, mas por pr\u00e1ticas de alegrias e felicidades cotidianas.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca incessante por \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d por parte das filantropias tem for\u00e7ado muitas comunidades a redirecionar seus projetos para um olhar resolutivo pontual da necessidade dos editais. Isso sendo que o problema \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o estrutural e, muitas vezes, atrelado a um problema global, como \u00e9 o racismo, as injusti\u00e7as clim\u00e1ticas, a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade mental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Generalizar as necessidades da popula\u00e7\u00e3o quilombola tamb\u00e9m \u00e9 retirar delas a possibilidade de dizerem o que realmente precisam e querem &#8211; em vez de chegarem impondo, sem di\u00e1logo, algo j\u00e1 pronto como cursos profissionalizantes e equipamentos -, lembrando que cada quilombo \u00e9 um quilombo diferente, com quest\u00f5es diferentes. Um exemplo tem sido os grandes recursos filantr\u00f3picos voltados apenas para resolver os problemas da \u201cemerg\u00eancia clim\u00e1tica\u201d, emerg\u00eancia que n\u00e3o foi criada pelos quilombos e muito menos pelas comunidades tradicionais e perif\u00e9ricas, que diante disso fazem de tudo para sobreviverem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa busca por \u201csolu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d pelas filantropias, n\u00e3o podem ser colocadas como resumidas a darem resultados imediatos aos problemas considerados \u201cclim\u00e1ticos\u201d e esquecerem das pessoas e saberes que est\u00e3o nos territ\u00f3rios. \u00c9 preciso conectar recursos financeiros \u00e0s necessidades de cada quilombo. \u00c9 importante os recursos caminharem para antes de tudo para a regulariza\u00e7\u00e3o dos quilombos, porque apenas a titula\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante autonomia total do territ\u00f3rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 sabemos, os quilombos j\u00e1 tem as suas pr\u00f3prias solu\u00e7\u00f5es para as demandas e para a continuidade de seus saberes, pois o mais importante do que o que n\u00e3o temos, \u00e9 o que temos. O cuidado coletivo e com o territ\u00f3rio, a troca de servi\u00e7os, a fartura, a troca de afeto, saberes e sabores, os festejos que alimentam os modos de ser, o fazer um cofo, a colheita de Bacaba, a limpeza dos a\u00e7udes e as brincadeiras coletivas s\u00e3o elementos que sustentam, por exemplo, a exist\u00eancia de 207 anos do Quilombo Rampa (MA).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E tudo isso tamb\u00e9m s\u00e3o cuidados clim\u00e1ticos, porque n\u00e3o vai existir justi\u00e7a clim\u00e1tica sem as pessoas estarem fortalecidas culturalmente em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios. Isso parte da emerg\u00eancia do quilombo e n\u00e3o das filantropias externas que ainda se acham inovadoras em suas doa\u00e7\u00f5es e propostas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>S\u00f3 \u00e9 comunit\u00e1ria, se a filantropia for partilhada e ancestral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Partindo dos saberes do Territ\u00f3rio do Quilombo Rampa (MA), a filantropia comunit\u00e1ria, s\u00e3o como tr\u00eas tambores que tocam juntos, precisa ser comunit\u00e1ria, partilhada e ancestral. Comunit\u00e1ria porque todo esse processo \u00e9 levado no decorrer da viv\u00eancia, de como acontecem as coisas, como s\u00e3o tocadas as coisas na comunidade. Essa comunh\u00e3o \u00e9 tanto entre as pessoas de uma pr\u00f3pria comunidade como junto a uma outra comunidade de um outro territ\u00f3rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nisso entra a partilha de v\u00e1rias coisas, mas propomos chamar a aten\u00e7\u00e3o para duas palavras que s\u00e3o a \u201cfartura\u201d e o direito \u00e0 \u2018felicidade\u2019 nos territ\u00f3rios. Que \u00e9 entender como as comunidades quilombolas &#8211; muitas com mais de 200 anos de exist\u00eancia &#8211; como que a pr\u00e1tica da filantropia comunit\u00e1ria, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 pautada na rela\u00e7\u00e3o com o capital, com o dinheiro em si, em esp\u00e9cie, mas com outras formas de valores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, no quilombo, quando a pessoa vai abater um gado para compartilhar com a comunidade e com uma outra comunidade, diminui a quantidade que vai para cada pessoa para levar mais para uma a comunidade que est\u00e1 precisando mais. Ent\u00e3o, s\u00e3o esses detalhes que passam \u00e0s vezes despercebidos de como s\u00e3o constru\u00eddos e como s\u00e3o relacionados \u00e0 nossa realidade, e o que a gente quer trazer como uma filantropia que \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Trago tamb\u00e9m o exemplo do com\u00e9rcio. Em v\u00e1rias comunidades que a gente passa, inclusive no Quilombo Rampa, tem pequenas quitandas, que n\u00e3o s\u00e3o pautadas na quest\u00e3o de dizer: &#8220;Ah, o dono do com\u00e9rcio vai ser o milion\u00e1rio daqui a pouco&#8221;, mas funcionam como &#8220;Ah, faltou o sal, faltou o feij\u00e3o na casa de algu\u00e9m, vai l\u00e1 no com\u00e9rcio\u201d. \u00c0s vezes a pessoa n\u00e3o tem o dinheiro, mas vai, volta com algo para casa do mesmo jeito. E essas trocas, elas acontecem no processo de comunidade, de forma natural.<\/p>\n\n\n\n<p>E s\u00e3o trocas maiores quanto menores. \u00c0s vezes, \u00e9 1 kg de sal, um copo de a\u00e7\u00facar. Ou hoje vai 50 pessoas para limpar a tua ro\u00e7a, mas amanh\u00e3 v\u00e3o 50 pessoas para limpar a ro\u00e7a de outro. E assim todo mundo limpa a ro\u00e7a de todo mundo. Essa partilha vai desde o pensar do lugar at\u00e9 o pensar do colher. E entender isso, essa outra forma de sentir a pot\u00eancia que \u00e9 a filantropia comunit\u00e1ria que j\u00e1 ocorre nos quilombos, nos pequenos detalhes, \u00e9 visualizar como os grandes detalhes de continua\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio firme com mais 100, 200 anos permanece. E isso tamb\u00e9m se manifesta como forma de cultura, como o ritual do mo\u00ed, da partilha do mo\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1024x768.jpeg.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-12425\" srcset=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1024x768.jpeg.webp 1024w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-300x225.jpeg.webp 300w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-768x576.jpeg.webp 768w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1536x1152.jpeg.webp 1536w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-16x12.jpeg.webp 16w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-src=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1-1024x768.jpeg.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-12426 lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1-1024x768.jpeg.webp 1024w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1-300x225.jpeg.webp 300w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1-768x576.jpeg.webp 768w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1-1536x1152.jpeg.webp 1536w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1-16x12.jpeg.webp 16w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-1.jpeg 1600w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/768;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>M\u00f3i e seu compartilhamento durante o Tambor na Mata. Foto: Arquivos da R\u00e1dio e TV Quilombo.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cmo\u00ed\u201d, para quem n\u00e3o sabe, \u00e9 um um alimento ancestral no Quilombo Rampa. \u00c9 feito \u00e0 base de \u00e1gua, lim\u00e3o, sal, tempero e farinha de puba. E vem acompanhado de peixe assado ou carne assada. Fazemos ele numa caixa d&#8217;\u00e1gua no final do ano, que \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rXgzb3airEc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tambor da Mata<\/a>, o maior processo cultural que existe na comunidade, e o mo\u00ed, ele traz toda essa rela\u00e7\u00e3o de compartilhamento que a gente fala. Pode fazer o maior m\u00f3i poss\u00edvel, o mais gostoso poss\u00edvel, mas ele fica ruim quando se come s\u00f3. Ent\u00e3o, \u00e9 um dos alimentos que voc\u00ea nunca vai ver a pessoa comendo s\u00f3. \u00c9 de tr\u00eas, dez e, \u00e0s vezes, at\u00e9 mais de 100 pessoas como \u00e9 no caso do Tambor da Mata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses feitos cotidianos fazem grande diferen\u00e7a no processo de continua\u00e7\u00e3o da cultura, do bom relacionamento e da prote\u00e7\u00e3o da comunidade, que \u00e9 a uma filantropia manifestada na troca de muitas coisas, menos na quest\u00e3o do dinheiro. Essas trocas e doa\u00e7\u00f5es de si ao coletivo, n\u00e3o atende ao capitalismo, mas \u00e0 vida comunit\u00e1ria. Aparece nos pequenos detalhes, mas que s\u00e3o detalhes muito importantes da continua\u00e7\u00e3o do processo da vida no quilombo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, como essa forma de filantropia permanece intacta at\u00e9 o dia de hoje? De uma forma que ela vai sendo atualizada praticamente todos os dias. Temos buscado chamar isso de uma \u201cfilantropia ancestral\u201d tamb\u00e9m. Que \u00e9 relacionada \u00e0 fartura, \u00e0 felicidade como direito dessas comunidades, a como elas manifestam esse lugar de alegria, de felicidade, de buscar suprir necessidades individuais e coletivas ao longo desse processo de mais de 200 anos do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 isso passa por entender como as comunidades combatem o racismo ambiental, o racismo estrutural, a fome, a pobreza, juntos pautados na troca. Pautada na a\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, na partilha di\u00e1ria, no entendimento di\u00e1rio que \u00e9 comunit\u00e1rio, \u00e9 dividido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo, de partilha tradicional, \u00e9 a quest\u00e3o do coco baba\u00e7u no per\u00edodo da Semana Santa, que \u00e9 um dos per\u00edodos que mais se recorre ao coco baba\u00e7u, devido a tradi\u00e7\u00e3o de comer v\u00e1rias comidas, como o peixe no leite de coco e o fazer do azeite do coco baba\u00e7u. Ent\u00e3o, as mulheres se re\u00fanem, em um dia para pegar para uma e outro dia para outra, e no final todo mundo tem um pouco de coco para conseguir tirar o azeite, vender alguns litros na cidade para comprar a comida e tirar o leite do coco para temperar a comida naquele per\u00edodo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, tudo isso pode se resumir em uma filantropia ancestral nos territ\u00f3rios, que n\u00e3o deixam eles morrerem, que n\u00e3o deixam eles perderem o brilho e a cor daquilo que tem que ser feito. Inclusive em como s\u00e3o repassados os saberes de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o sem serem falados, sem serem ditos, ou sem serem escritos, mas pela observa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a vendo os mais velhos fazer, como mostra a foto abaixo. Nessa imagem a Beliza e o senhor Modesto, que n\u00e3o consegue ensinar falando, mas gosta muito de ensinar mostrando. Daqui um dia essa crian\u00e7a vai estar talvez fazendo Jac\u00e1 e a m\u00e3e dela nem vai saber onde ela aprendeu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" data-src=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1024x682.png.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-12427 lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1024x682.png.webp 1024w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-300x200.png.webp 300w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-768x512.png.webp 768w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-1536x1023.png.webp 1536w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/smush-webp\/2026\/02\/image-18x12.png.webp 18w, https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image.png 1600w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/682;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Seu Modesto e Beliza no fazimento do Jac\u00e1. Foto: Arquivos da R\u00e1dio e TV Quilombo.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Por esse e outras riquezas comunit\u00e1rias \u00e9 que as doa\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas precisam estar comprometidas, o que significa estar contra o silenciamento dos territ\u00f3rios, a favor da descentraliza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es e do poder de quem gerencia os recursos (sejam do Estado e organiza\u00e7\u00f5es sociais), e alinhadas ao que \u00e9 importante em cada comunidade tendo em vista que o dinheiro \u00e9 mais uma forma de fomentar o que j\u00e1 existe nos quilombos e o compromisso maior \u00e9 com a vida comunit\u00e1ria. Tudo isso precisa acontecer com confian\u00e7a, as e os quilombolas sabem sim mexer com dinheiro, trabalhar com os recursos que recebem, e historicamente manejamos isso com maestria fazendo render de forma quase imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto sobre as organiza\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas \u00e9: quem s\u00e3o as pessoas que leem nossas propostas, selecionam e pautam o que \u00e9 importante ou n\u00e3o? Que conhecimento sobre o p\u00fablico aquela pessoa tem? Isso pensando inclusive nessa sensibilidade de conhecer, com os p\u00e9s no ch\u00e3o dos territ\u00f3rios, para saber do que estamos falando nas propostas de projetos que enviamos, porque a compreens\u00e3o disso tamb\u00e9m passa pela viv\u00eancia. Passa tamb\u00e9m por compreender como o racismo funciona no Brasil, como isso afeta a vida e a dignidade de acessos de pessoas quilombolas e negras aos espa\u00e7os de decis\u00e3o e do b\u00e1sico para viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, mas n\u00e3o menos importante, a comunica\u00e7\u00e3o popular, comunit\u00e1ria e ancestral necessita tamb\u00e9m ter espa\u00e7o nos debates da filantropia, porque estamos falando de caminhos de interpreta\u00e7\u00e3o, significa\u00e7\u00e3o, do mundo e das comunidades, e isso interfere na vida e no acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas. Um quilombo que n\u00e3o tem formas de comunicar sobre si, plataformas que possam falar sobre sua comunidade em primeira pessoa, acaba, muitas vezes, a merc\u00ea de quem fala por ela e que, infelizmente, s\u00e3o as grandes empresas midi\u00e1ticas, em grande medida alinhadas ao discurso do agroneg\u00f3cio que est\u00e1 destruindo aquela comunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A busca por autonomia da comunica\u00e7\u00e3o pelos quilombos, nos for\u00e7a a criar os nossos pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o, mesmo sem recursos. Porque comunicar \u00e9 poder exigir que os territ\u00f3rios sejam regularizados, sejam respeitados e que existem. A comunica\u00e7\u00e3o que vem do ch\u00e3o dos territ\u00f3rios \u00e9 tanto vital para construirmos e continuarmos nossas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias de manuten\u00e7\u00e3o dos saberes e do territ\u00f3rio, quanto de reivindicar o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e ter a informa\u00e7\u00e3o como forma de responder \u00e0s ignor\u00e2ncias sobre os quilombos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>___________<\/p>\n\n\n\n<p>* <em>Raimundo Jos\u00e9 da Silva Leite<\/em> \u00e9 quilombola do Quilombo Rampa (MA), pesquisador no Programa Saberes 2025, comunicador ancestral, co-fundador da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/radioetvquilombo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">R\u00e1dio e TV Quilombo<\/a>, ge\u00f3grafo e mestrando em Estudos Africanos e Afro-brasileiros da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (UFMA).<\/p>\n\n\n\n<p>** <em>Ludmila Pereira de Almeida<\/em> \u00e9 jornalista, colaboradora na R\u00e1dio e TV Quilombo onde realiza produ\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de projetos junto \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es e comunidades, descendente do Quilombo Santo Ant\u00f4nio da Laguna (GO) e doutora em Letras pela Universidade Federal de Goi\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Raimundo Jos\u00e9 da Silva Leite e Ludmila Pereira de Almeida Refletir sobre como a filantropia comunit\u00e1ria chega aos quilombos \u00e9 retomar alguns pontos que dizem respeito a como as comunidades permanecem vivas mesmo diante de tanta imposi\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00f5es de direitos. 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