{"id":12129,"date":"2025-09-17T13:10:17","date_gmt":"2025-09-17T16:10:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=12129"},"modified":"2025-09-17T13:10:28","modified_gmt":"2025-09-17T16:10:28","slug":"o-tempo-saiu-do-lugar-percepcoes-indigenas-sobre-clima-e-defesa-de-direitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/o-tempo-saiu-do-lugar-percepcoes-indigenas-sobre-clima-e-defesa-de-direitos\/","title":{"rendered":"O tempo saiu do lugar: percep\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas sobre clima e defesa de direitos"},"content":{"rendered":"<p><em>Cr\u00e9ditos da imagem &#8211;  Kamiikia-Kisedje<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>*<em>Este artigo foi escrito no \u00e2mbito do <a href=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/saberes\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/saberes\/\">Knowledge Program<\/a> da Rede Comu\u00e1 e integra a programa\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/mesdafilantropia2025\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/mesdafilantropia2025\/\">M\u00eas da Filantropia que Transforma 2025<\/a>, dedicado ao tema <strong>Clima e Direitos<\/strong>. A reflex\u00e3o parte da escuta de mais de 500 respostas de organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas apoiadas pelo <a href=\"https:\/\/casa.org.br\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/casa.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Casa Socioambiental Fund<\/a>, reunidas e analisadas pela pesquisadora Inim\u00e1 Krenak<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O tempo saiu do lugar. Para muitas comunidades ind\u00edgenas, essa \u00e9 a forma mais precisa de descrever a crise clim\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o para 2050, nem um gr\u00e1fico de temperatura global. \u00c9 a chuva que chega quando n\u00e3o devia, o rio que n\u00e3o corre como antes, o peixe que desaparece, a ro\u00e7a que perde a colheita inteira. \u00c9 o compasso que guiava a vida, o tempo das festas, da pesca, das curas e dos plantios e que agora se desorganizou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essas vozes foram reunidas a partir de uma ampla escuta de organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas apoiadas pelo Fundo Casa Socioambiental. Todas nasceram de uma pergunta simples: <em>\u201cVoc\u00ea considera que sua regi\u00e3o ou territ\u00f3rio esteja sofrendo os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? Se sim, quais as principais altera\u00e7\u00f5es percebidas?\u201d<\/em> A partir dessa pergunta direta, s\u00e3o reveladas narrativas concretas e carregadas de sentido:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cAntes, n\u00f3s M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre Xikrin sempre sab\u00edamos quando ia chover, quando era \u00e9poca de brocar nossas ro\u00e7as, de plantar. Agora, o ciclo do clima mudou todo: tem ano que as fam\u00edlias ficam sem ro\u00e7as, porque chove no ver\u00e3o ou n\u00e3o chove no inverno.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cOs mais velhos da comunidade Apurin\u00e3 relatam que \u2018o tempo mudou muito\u2019. As esta\u00e7\u00f5es n\u00e3o seguem mais seu ciclo natural, as plantas n\u00e3o florescem ou frutificam nas \u00e9pocas certas, e a piracema est\u00e1 irregular.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cAs mulheres dizem que j\u00e1 n\u00e3o sabem mais quando \u00e9 inverno ou ver\u00e3o. O aumento da temperatura, o calor fora de hora e a mudan\u00e7a no calend\u00e1rio das chuvas fazem com que se percam planta\u00e7\u00f5es. Algumas frutas desapareceram.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cNosso territ\u00f3rio \u00e9 como um corpo. Quando a \u00e1gua seca, a floresta sente, e a gente sente junto.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cO tempo ficou mais bravo. \u00c0s vezes queima tudo. Outras vezes alaga tudo.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em diferentes biomas, a express\u00e3o \u201ctempo fora do lugar\u201d assume formas pr\u00f3prias. No Semi\u00e1rido, vem acompanhada da irregularidade das chuvas e da perda de cultivos resilientes. \u201cNos \u00faltimos anos, a irregularidade das chuvas intensificou os per\u00edodos de seca, afetando a agricultura familiar e aumentando a inseguran\u00e7a alimentar\u201d, relatam organiza\u00e7\u00f5es da Caatinga. Na Amaz\u00f4nia, surge como seca extrema que isola comunidades, inviabiliza a navega\u00e7\u00e3o e a pesca: \u201cAs embarca\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham como entrar nos lagos que secaram. As aldeias ficaram isoladas por falta de log\u00edstica\u201d. No Cerrado, a queixa se repete sobre as queimadas e o calor sufocante: \u201cMuitas \u00e1rvores morreram e as manivas secaram, comprometendo a seguran\u00e7a alimentar e deixando todos mais vulner\u00e1veis a doen\u00e7as\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essas mudan\u00e7as n\u00e3o se limitam a impactos ambientais \u2014 desorganizam modos de vida inteiros. Uma lideran\u00e7a relatou: \u201cOs rituais, que sempre tiveram momentos espec\u00edficos para acontecer, agora est\u00e3o cada vez mais dif\u00edceis de programar, pois o clima j\u00e1 n\u00e3o segue os ciclos previs\u00edveis de antes\u201d. Outra destacou: \u201cEst\u00e1 dif\u00edcil ensinar como era antes. O tempo da colheita n\u00e3o chega no mesmo momento\u201d. O que se perde n\u00e3o \u00e9 apenas t\u00e9cnica, mas mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A inseguran\u00e7a alimentar aparece como uma das faces mais graves. \u201cOs cultivares que por gera\u00e7\u00f5es nos forneceram alimentos nem sempre d\u00e3o os resultados esperados devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es no clima, que afetam desde a germina\u00e7\u00e3o at\u00e9 a colheita\u201d, relataram organiza\u00e7\u00f5es. Uma lideran\u00e7a Guarani e Kaiow\u00e1 disse de forma direta: \u201cA terra se tornou pelada e sem \u00e1rvores. Precisamos de reflorestamento para retomar nossas frut\u00edferas e plantas medicinais.\u201d Essas mudan\u00e7as, somadas ao desmatamento e \u00e0 monocultura, n\u00e3o s\u00e3o apenas um problema agr\u00edcola: s\u00e3o um risco direto \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 soberania alimentar e \u00e0 perman\u00eancia no territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O que emerge dessa escuta \u00e9 um alerta que o debate clim\u00e1tico global ainda insiste em ignorar: n\u00e3o existe clima sem direitos. Alterar o ciclo das chuvas \u00e9 tamb\u00e9m violar o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. Quando um rio seca, n\u00e3o se perde apenas um recurso h\u00eddrico: perde-se a escola fluvial, a rota de com\u00e9rcio, a base da alimenta\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o espiritual com aquele lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O problema \u00e9 que boa parte das pol\u00edticas e investimentos para enfrentar a crise clim\u00e1tica ainda opera de forma fragmentada: um programa para carbono aqui, outro para agricultura ali, outro para cultura em outro canto. Essa l\u00f3gica desconectada ignora que, nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, tudo est\u00e1 interligado. E \u00e9 justamente essa vis\u00e3o integrada que a humanidade mais precisa aprender, e apoiar, se quiser ter algum futuro digno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A filantropia comunit\u00e1ria tem, nesse cen\u00e1rio, uma oportunidade e uma responsabilidade. Quando o apoio chega de forma direta, \u00e1gil e respeitosa \u00e0s comunidades, sem impor modelos externos, ele fortalece tanto as respostas emergenciais, como brigadas de inc\u00eandio, recupera\u00e7\u00e3o de ro\u00e7as e a\u00e7\u00f5es de abastecimento, quanto as estrat\u00e9gias de longo prazo, como reflorestamento, prote\u00e7\u00e3o de nascentes, retomada de cultivos tradicionais e fortalecimento da transmiss\u00e3o de saberes. Esse \u00e9 o tipo de financiamento que entende que reflorestar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 plantar \u00e1rvores: \u00e9 curar o solo, reativar sistemas alimentares, manter vivas hist\u00f3rias e reconectar gente e territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como lembra Davi Kopenawa, \u00e9 preciso \u201cmanter o c\u00e9u suspenso\u201d. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas poesia: \u00e9 pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia. E, como diz Ailton Krenak, \u201csomos parte da Terra\u201d negar isso \u00e9 acelerar o fim do mundo tal como o conhecemos. Esses ensinamentos n\u00e3o s\u00e3o inspira\u00e7\u00e3o para campanhas publicit\u00e1rias; s\u00e3o, na pr\u00e1tica, um chamado \u00e0 mudan\u00e7a de paradigma, \u00e0 revis\u00e3o radical de prioridades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O tempo saiu do lugar, mas as comunidades seguem observando, cuidando e recriando caminhos de perman\u00eancia. \u00c9 delas que vem o chamado para manter o c\u00e9u suspenso e reconhecer que a Terra somos n\u00f3s. Escut\u00e1-las e apoi\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 apenas um gesto de solidariedade: \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de futuro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>As falas citadas neste artigo foram extra\u00eddas de respostas escritas por organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas em formul\u00e1rios de projetos enviados ao Fundo Casa Socioambiental. Na metodologia desta pesquisa, n\u00e3o h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o de pessoas ou associa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, em respeito \u00e0 confidencialidade dos dados, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o prevista na Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (LGPD) e ao car\u00e1ter coletivo da escuta. Agrade\u00e7o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es que compartilharam suas experi\u00eancias e saberes, que tornaram esta an\u00e1lise poss\u00edvel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00e9ditos da imagem &#8211; Kamiikia-Kisedje *Este artigo foi escrito no \u00e2mbito do Programa Saberes da Rede Comu\u00e1 e integra a programa\u00e7\u00e3o do M\u00eas da Filantropia que Transforma 2025, dedicado ao tema Clima e Direitos. 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