{"id":11876,"date":"2025-08-11T21:24:15","date_gmt":"2025-08-12T00:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=11876"},"modified":"2025-08-11T21:24:17","modified_gmt":"2025-08-12T00:24:17","slug":"se-a-terra-e-mae-e-hora-de-escuta-la-sem-saber-ancestral-nao-ha-justica-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/se-a-terra-e-mae-e-hora-de-escuta-la-sem-saber-ancestral-nao-ha-justica-climatica\/","title":{"rendered":"\u201cSe a terra \u00e9 m\u00e3e, \u00e9 hora de escut\u00e1-la\u201d: sem saber ancestral, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-medium-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Imagem: Territ\u00f3rio Quilombo do Abacatal | Reprodu\u00e7\u00e3o Fundo ELAS+<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">por Rayssa Queiroz | ELAS+ Doar Para Transformar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Desde 1980, o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Par\u00e1 (CEDENPA), localizado em Bel\u00e9m, vem tecendo uma hist\u00f3ria constru\u00edda <em>\u201c\u2018meio capoeira\u2019: sobe, desce, avan\u00e7a, recua\u201d<\/em>, como define Nilma Bentes. Uma trajet\u00f3ria pol\u00edtica que n\u00e3o se alinhou a f\u00f3rmulas prontas \u2013 n\u00e3o se submete a partidos, igrejas ou sindicatos \u2013 e que nasce da luta pela terra, pela vida e pela justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cO CEDENPA foi se fazendo, como \u00e9 at\u00e9 hoje \u2013 num tipo de organiza\u00e7\u00e3o tentando ser n\u00e3o colonial\u201d, lembra Nilma, engenheira agr\u00f4noma, escritora, ativista brasileira pelos direitos das mulheres e da popula\u00e7\u00e3o negra e uma das fundadoras do centro.<br><br>Foi nessa dan\u00e7a constante que o CEDENPA se firmou como um espa\u00e7o de estudos, sabedoria e luta, atuando pelo fortalecimento de frentes como a ancestralidade quilombola e o protagonismo das mulheres negras na defesa dos territ\u00f3rios na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica. Frente \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, \u00e0 monocultura e aos agrot\u00f3xicos que envenenam as \u00e1guas, adoecem os corpos e tentam apagar a mem\u00f3ria.<br><br>A organiza\u00e7\u00e3o atua ao lado de comunidades vulnerabilizadas, majoritariamente negras,\u00a0 cientes de que sua exclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidental. A urbaniza\u00e7\u00e3o e gentrifica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada desde a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura empurrou essas fam\u00edlias para \u00e1reas insalubres e perigosas. Em d\u00e9cadas mais recentes, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas atingem com for\u00e7a desigual esses territ\u00f3rios: \u201cAs pessoas procuram acusar as pr\u00f3prias fam\u00edlias que s\u00e3o vulnerabilizadas: \u2018Por que foi morar naquela encosta?\u2019. Ora, n\u00e3o tinha uma pol\u00edtica de moradia. [&#8230;] E para quem t\u00e1 pior, quem est\u00e1 morando nos piores lugares s\u00e3o os mais atingidos \u2013 e as mulheres negras s\u00e3o as mais afetadas.\u201d Afirma Nilma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O CEDENPA ent\u00e3o assumiu o desafio de fortalecer essas mulheres e suas comunidades \u2014 guardi\u00e3s das tradi\u00e7\u00f5es, dos territ\u00f3rios e cuidadoras da vida. Como lembra Roberta Sodr\u00e9, professora e integrante do coletivo de juventude negra do CEDENPA, essa for\u00e7a coletiva s\u00f3 floresce porque vem delas, das mulheres negras que lideram com sabedoria, escuta e coragem:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201c[O CEDENPA] \u00c9 uma entidade que tem sua maioria mulheres, n\u00e9? S\u00e3o mulheres que nos coordenam [&#8230;], que mostram como pensar uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada, como pensar os saberes tradicionais, como pensar a forma de lutar nesse territ\u00f3rio, tamb\u00e9m nos motiva a continuar pensando possibilidades de resist\u00eancia. Eu acredito que o CEDENPA, ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um centro de estudos como algumas pessoas podem pensar a partir da sigla, mas ele \u00e9 um centro tamb\u00e9m de saben\u00e7a, \u00e9 um centro de sabedoria que vem das nossas mais velhas e caminha para n\u00f3s enquanto juventude\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E essa saben\u00e7a compartilhada n\u00e3o se encerra no territ\u00f3rio: ela \u00e9 traduzida, sistematizada e devolvida \u00e0s pr\u00f3prias comunidades por meio da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento \u2014 uma das estrat\u00e9gias fundamentais do CEDENPA para o fortalecimento coletivo e para a luta antirracista. O estudo, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 separado da vida: \u00e9 ferramenta de resist\u00eancia e de visibilidade para saberes historicamente silenciados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como explica Maria Malcher, militante do CEDENPA, esse trabalho de produ\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria tem sido essencial para informar, mobilizar e formar gera\u00e7\u00f5es \u2014 n\u00e3o s\u00f3 na Amaz\u00f4nia, mas em todo o Brasil:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cAlgo que o CEDENPA sempre teve e que impacta positivamente as nossas vidas \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de alguns materiais did\u00e1ticos: cartilhas, folders, panfletos. [&#8230;] O CEDENPA era a \u00fanica refer\u00eancia para voc\u00ea ler uma cartilha que falasse sobre o ABC de combate ao racismo. Ter uma cartilha onde trouxesse essas quest\u00f5es ligadas ao racismo no ambiente escolar e tamb\u00e9m ter informa\u00e7\u00f5es de relat\u00f3rios de encontros, de quantidade de comunidade quilombolas no estado do Par\u00e1. Ent\u00e3o, infelizmente ou felizmente, o CEDENPA, ele foi essa \u00fanica refer\u00eancia para gente de movimento negro que produzia conhecimento na Amaz\u00f4nia, mas que tamb\u00e9m reverberava para o resto do Brasil.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A organiza\u00e7\u00e3o se tornou uma facilitadora do conhecimento que sempre esteve com a popula\u00e7\u00e3o e um referencial para fazer ouvir quem vivencia o racismo em todas as suas formas \u2014 inclusive o ambiental. Um termo relativamente recente nos debates p\u00fablicos, mas que descreve um fen\u00f4meno antigo: a exposi\u00e7\u00e3o desproporcional de comunidades negras, perif\u00e9ricas e ind\u00edgenas aos impactos ambientais negativos. As consequ\u00eancias e os impactos mais graves trazidos por desastres ambientais e pela\u00a0 crise clim\u00e1tica sempre estiveram localizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Atrav\u00e9s do processo formativo e pol\u00edtico promovido pelo CEDENPA, comunidades como Abacatal passaram a nomear experi\u00eancias que sempre viveram. As enchentes, a contamina\u00e7\u00e3o dos rios, a dificuldade de acessar servi\u00e7os b\u00e1sicos como saneamento b\u00e1sico e coleta de lixo \u2014 tudo isso passa a ser compreendido como resultado de um sistema de opress\u00e3o. E \u00e9 dessa compreens\u00e3o&nbsp; que a den\u00fancia se fortalece e a luta por transforma\u00e7\u00e3o ganha novos sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O conhecimento, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 imposto de fora, mas constru\u00eddo coletivamente, a partir da escuta das experi\u00eancias vividas. Roberta Sodr\u00e9 explica como esse processo de conscientiza\u00e7\u00e3o transforma a percep\u00e7\u00e3o do cotidiano:<br><br>&#8220;Pensar em viola\u00e7\u00e3o do meio ambiente \u00e9 pensar em viola\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m do nosso bem-viver, viola\u00e7\u00e3o da nossa dignidade, de ir e vir, a viola\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias outras coisas, porque talvez a palavra racismo ambiental ela soe como muito nova, recente para popula\u00e7\u00e3o mais pobre, mas a palavra enchente, alagamento, perda de produtos, n\u00e3o poder passar em tal hor\u00e1rio porque a sua rua t\u00e1 alagada, ter que usar uma sacola no p\u00e9, uma bota para poder chegar no \u00f4nibus para ir trabalhar, \u00e9 algo muito antigo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essa viola\u00e7\u00e3o, marcada pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, se intensifica em Bel\u00e9m com os impactos clim\u00e1ticos da Amaz\u00f4nia: chuvas intensas que alagam bairros perif\u00e9ricos, enquanto os igarap\u00e9s transbordam e colocam em risco as comunidades \u00e0 sua margem. Al\u00e9m disso, grandes empreendimentos se instalam pr\u00f3ximos \u00e0s comunidades tradicionais, alterando cursos d&#8217;\u00e1gua e comprometendo a pesca e agricultura de subsist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>Abacatal: 314 anos de resist\u00eancia quilombola<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O quilombo Abacatal, localizado em uma \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o entre o rural e o urbano, pr\u00f3ximo \u00e0 capital Bel\u00e9m, \u00e9 um s\u00edmbolo de resist\u00eancia: s\u00e3o mais de 314 anos de hist\u00f3ria quilombola sustentada por gera\u00e7\u00f5es de mulheres negras. Diante das tentativas de expuls\u00e3o e viola\u00e7\u00f5es constantes, a presen\u00e7a do CEDENPA foi \u2014 e continua sendo \u2014 decisiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Moradoras como Vanuza Cardoso destacam como essa parceria tem sido essencial para sustentar a resist\u00eancia: \u201cAbacatal t\u00e1 na [regi\u00e3o] Metropolitana e \u00e9 um epicentro assim de viol\u00eancias, de viola\u00e7\u00f5es, a gente quase foi expulso daqui por duas vezes, com casas derrubadas, com terreno vendido e a parceria com CEDENPA foi fundamental nessa linha da gente se reafirmar e falar mesmo, n\u00e9, que somos donos e herdeiros dessa terra.\u201d<br><br>Diante das desigualdades impostas por um modelo de desenvolvimento que marginaliza territ\u00f3rios negros, o trabalho de organiza\u00e7\u00f5es como o CEDENPA reafirma que n\u00e3o existe justi\u00e7a ambiental sem justi\u00e7a racial. Ao lado das mulheres do quilombo Abacatal, a organiza\u00e7\u00e3o denuncia viola\u00e7\u00f5es, forma lideran\u00e7as e fortalece estrat\u00e9gias de perman\u00eancia no territ\u00f3rio, com uma atua\u00e7\u00e3o constru\u00edda na partilha de saberes. Nesse ciclo o aprendizado \u00e9 coletivo e segue atravessando gera\u00e7\u00f5es com coragem, mem\u00f3ria e ancestralidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cDesde sempre a gente caminha com o CEDENPA, o primeiro movimento negro que Abacatal consegue pontuar. Se voc\u00ea for falar com os mais velhos dessa comunidade, todos v\u00e3o falar da import\u00e2ncia do CEDENPA para essa comunidade, para as lutas. E a gente teve muitas vit\u00f3rias a partir da chegada do CEDENPA junto com as irm\u00e3s da Sagrada Fam\u00edlia\u201d, relembra Vanuza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essa parceria vai muito al\u00e9m de um apoio pontual. O CEDENPA tem sua hist\u00f3ria entrela\u00e7ada \u00e0 dessas comunidades, como movimento que nasce do mesmo ch\u00e3o. Os saberes n\u00e3o v\u00eam de fora para dentro: se fortalecem na escuta, nas pr\u00e1ticas, nos cantos e nos modos de viver compartilhados pelas mulheres quilombolas. S\u00e3o essas mulheres que, ao longo de s\u00e9culos, sustentaram a vida em meio \u00e0 viol\u00eancia, ao racismo ambiental e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da terra e dos corpos. E \u00e9 nessa troca que o movimento negro na Amaz\u00f4nia e as comunidades se sustentam, com solidariedade e partilha como base para um futuro poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A rela\u00e7\u00e3o entre o CEDENPA e Abacatal, assim como outros quilombos da regi\u00e3o, \u00e9 exemplo de um modo de fazer pol\u00edtico que n\u00e3o separa saber de viver. \u00c9 compartilhando experi\u00eancias, mem\u00f3ria, cuidado m\u00fatuo e escuta que se constr\u00f3i um projeto de justi\u00e7a racial e clim\u00e1tica. \u00c9 compromisso com a vida em comum.<br><br>\u201cA gente tem uma liga\u00e7\u00e3o muito forte com o movimento quilombola. [&#8230;] Esses guardi\u00f5es da floresta v\u00e3o, a cada dia, buscando mais sa\u00eddas. N\u00e3o s\u00f3 para a quest\u00e3o do enfrentamento \u00e0 injusti\u00e7a clim\u00e1tica, mas tamb\u00e9m da soberania alimentar, nutricional e energ\u00e9tica dos seus territ\u00f3rios\u201d, destaca Malcher. Esse compromisso entre organiza\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios \u00e9 tamb\u00e9m uma urg\u00eancia pol\u00edtica. Em Abacatal, a luta vai al\u00e9m da resist\u00eancia contra expuls\u00f5es e amea\u00e7as. \u00c9 uma luta pelo corpo, pela mem\u00f3ria e pela terra \u2014 onde o territ\u00f3rio \u00e9 sagrado, n\u00e3o mercadoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As mulheres do quilombo, herdeiras de um saber ancestral, denunciam as viola\u00e7\u00f5es que enfrentam todos os dias, em projetos que desconsideram sua exist\u00eancia, seu modo de vida, seus direitos mais b\u00e1sicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">&#8220;A gente vive resistindo a muitos empreendimentos, a inser\u00e7\u00e3o de muitos projetos que s\u00e3o direcionados a Abacatal. [&#8230;] V\u00e1rias viola\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a viola\u00e7\u00e3o de direito no sentido do meio-ambiente, mas \u00e9 a viola\u00e7\u00e3o dos nossos corpos.\u201d, conta Vanuza Cardoso.<br><br>Essas den\u00fancias, essas pr\u00e1ticas e esses saberes n\u00e3o nascem da teoria, mas da rela\u00e7\u00e3o di\u00e1ria com a terra. \u00c9 justamente dessa experi\u00eancia vivida que emergem solu\u00e7\u00f5es reais para os desafios clim\u00e1ticos. Nomear essas viol\u00eancias, compreend\u00ea-las e denunci\u00e1-las \u00e9 tamb\u00e9m fruto da caminhada conjunta com organiza\u00e7\u00f5es como o CEDENPA \u2014 que n\u00e3o falam por, mas com as comunidades. Porque, se n\u00e3o h\u00e1 escuta para quem vive e cuida da Amaz\u00f4nia, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a clim\u00e1tica poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>Comunidades quilombolas alertam exclus\u00e3o na COP30<br><br><\/strong>Enquanto o CEDENPA escreve uma hist\u00f3ria viva em Abacatal, comunidades quilombolas enfrentam o desafio de serem reconhecidas tamb\u00e9m nos espa\u00e7os de decis\u00e3o global. A 30\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (COP30), marcada para novembro de 2025 em Bel\u00e9m, ser\u00e1 a primeira a ocorrer na Amaz\u00f4nia \u2014 um marco importante para a pauta ambiental. Mas essa popula\u00e7\u00e3o que vive a preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia nos seus territ\u00f3rios n\u00e3o foi inclu\u00edda no documento oficial do evento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Roberta Sodr\u00e9 nos convida a refletir sobre a import\u00e2ncia de ocupar espa\u00e7os como esses por quem sempre soube, por meio da pr\u00e1tica, como se relacionar com a terra: \u201cA gente come\u00e7a a questionar tamb\u00e9m a nossa forma de atuar em favor do meio-ambiente, favor do clima. Esse per\u00edodo pr\u00e9-COP, que fez a cidade de Bel\u00e9m, como um todo, o Brasil inteiro, atentar para certos termos e tamb\u00e9m atentar para a sua realidade, fez com que a palavra racismo ambiental ficasse em voga, mas tamb\u00e9m as nossas pautas ambientais entrassem em discuss\u00e3o. \u00c9 preciso compreender que as pessoas mais perif\u00e9ricas ou ent\u00e3o que est\u00e3o fora desse ambiente acad\u00eamico, n\u00e3o v\u00e3o falar racismo ambiental. Mas por que n\u00e3o ouvir quando algu\u00e9m t\u00e1 falando que a sua casa t\u00e1 inundando? Por que n\u00e3o ouvir quando algu\u00e9m falar que o seu pescado t\u00e1 vindo biruta?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A CONAQ \u2014 Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas \u2014 apontou essa aus\u00eancia como reflexo de uma invisibiliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e reivindicou credenciais, espa\u00e7o f\u00edsico e garantias efetivas de participa\u00e7\u00e3o. Outras lideran\u00e7as quilombolas latino-americanas tamb\u00e9m t\u00eam apontado barreiras como falta de infraestrutura, custos de deslocamento e a aus\u00eancia de processos de consulta \u00e0s comunidades que h\u00e1 s\u00e9culos preservam os territ\u00f3rios da regi\u00e3o.<br><br>A experi\u00eancia das comunidades quilombolas da Amaz\u00f4nia oferece saberes valiosos sobre preserva\u00e7\u00e3o ambiental, adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e manejo sustent\u00e1vel dos territ\u00f3rios. Esses saberes n\u00e3o s\u00e3o complementares \u2014 s\u00e3o fundamentais. E precisam ser ouvidos, considerados e respeitados nos espa\u00e7os de decis\u00e3o. Reconhecer esses conhecimentos e garantir espa\u00e7os para sua express\u00e3o \u00e9 essencial para que eventos como a COP30 cumpram seus compromissos com justi\u00e7a clim\u00e1tica e inclus\u00e3o.<br><br>\u201cSe fosse depender da popula\u00e7\u00e3o que mora na Amaz\u00f4nia, a Amaz\u00f4nia estaria sempre de p\u00e9. Eu acredito que a nossa forma de conduzir essa discuss\u00e3o pode impactar nas outras pessoas para que de fato a gente n\u00e3o tenha s\u00f3 a Amaz\u00f4nia, mas todos os outros biomas do Brasil preservados \u2014 pensando no nosso futuro poss\u00edvel e mais digno.\u201d, completa Roberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 tempo de deslocar o olhar: n\u00e3o se trata de levar solu\u00e7\u00f5es para os territ\u00f3rios, mas de aprender com quem, mesmo diante da exclus\u00e3o, j\u00e1 vive solu\u00e7\u00f5es concretas. Como lembra Maria Santana, nascida e criada no Abacatal:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA maioria das terras se tornou disputa, com\u00e9rcio. Para n\u00f3s n\u00e3o. Terra n\u00e3o \u00e9 com\u00e9rcio. Terra \u00e9 vida, ch\u00e3o, terra \u00e9 m\u00e3e. Ela nos d\u00e1, a natureza nos oferece tanta coisa. [&#8230;] O territ\u00f3rio para n\u00f3s \u00e9 sagrado. O territ\u00f3rio para n\u00f3s, mulheres do quilombo de Abacatal, \u00e9 a nossa vida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sem reconhecer a sabedoria ancestral quilombola, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a clim\u00e1tica poss\u00edvel. Reconhecer a luta quilombola por titula\u00e7\u00e3o, soberania alimentar e preserva\u00e7\u00e3o territorial \u00e9 parte essencial das pol\u00edticas clim\u00e1ticas. \u00c9 nesse ch\u00e3o, onde vida e ancestralidade se entrela\u00e7am, que nascem as solu\u00e7\u00f5es. Como exemplifica Maria Malcher: \u201cAbacatal \u00e9 um quilombo estrat\u00e9gico nessa perspectiva. De voc\u00ea ainda ter essa rela\u00e7\u00e3o com a presun\u00e7\u00e3o da ancestralidade. [&#8230;] N\u00e3o s\u00f3 no campo da produ\u00e7\u00e3o, mas no campo tamb\u00e9m dos valores civilizat\u00f3rios da religi\u00e3o, da refer\u00eancia e tamb\u00e9m dessa rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio mesmo. Com o ch\u00e3o, com a terra. Isso \u00e9 muito importante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No cora\u00e7\u00e3o da floresta, no rio, na ginga ancestral do quilombo, pulsa uma esperan\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 id\u00edlica \u2014 como Nilma diz \u2014, mas feita de luta, cuidado e presen\u00e7a. Se a terra \u00e9 m\u00e3e, como dizem Santana e Vanuza, \u00e9 hora de que ela seja ouvida. O CEDENPA, em parceria com o ELAS+, segue fortalecendo esse protagonismo \u2014 porque manter a Amaz\u00f4nia viva \u00e9 transformar o presente para construir futuros poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por meio do CEDENPA, comunidades quilombolas fortalecem suas ra\u00edzes e semeiam futuros de resist\u00eancia na regi\u00e3o amaz\u00f4nica<\/p>","protected":false},"author":6,"featured_media":11877,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[139],"tags":[222,213,236],"class_list":["post-11876","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-elas-doar-para-transformar","tag-cop30","tag-filantropia-comunitaria","tag-quilombolas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11876\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}