{"id":11426,"date":"2025-07-07T12:24:24","date_gmt":"2025-07-07T15:24:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redecomua.org.br\/?p=11426"},"modified":"2025-07-07T12:24:26","modified_gmt":"2025-07-07T15:24:26","slug":"solidariedade-como-metodo-justica-como-horizonte-essa-e-a-filantropia-solidaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/en\/solidariedade-como-metodo-justica-como-horizonte-essa-e-a-filantropia-solidaria\/","title":{"rendered":"Solidariedade como m\u00e9todo, justi\u00e7a como horizonte. Essa \u00e9 a filantropia solid\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-small-font-size\"><em>Foto de <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/@throwingjungle?utm_content=creditCopyText&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=unsplash\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rineshkumar Ghirao<\/a> na <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/fotografias\/pessoa-vestindo-anel-de-prata-e-camisa-branca-de-manga-comprida-UdDjFekHQuk?utm_content=creditCopyText&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=unsplash\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Unsplash<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Albert Fran\u00e7a e Matheus Viana*<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, as organiza\u00e7\u00f5es populares \u2013 entre elas movimentos sociais, coletivos, associa\u00e7\u00f5es de base comunit\u00e1ria e tantas outras formas de luta coletiva popular \u2013 t\u00eam sido protagonistas centrais na defesa e na conquista de direitos. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, esses sujeitos coletivos v\u00eam construindo alternativas ao modelo hegem\u00f4nico de desenvolvimento, enfrentando desigualdades hist\u00f3ricas e enraizando pr\u00e1ticas de participa\u00e7\u00e3o popular nos territ\u00f3rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas foram fundamentais para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas como o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), resultado direto da mobiliza\u00e7\u00e3o da Reforma Sanit\u00e1ria; para a constru\u00e7\u00e3o do Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), que fortaleceu a agricultura familiar e chegou a movimentar R$ 1,2 bilh\u00e3o em 2012; e para a conquista de instrumentos como o Minha Casa Minha Vida \u2013 Entidades, voltado \u00e0 autogest\u00e3o habitacional por movimentos de moradia. Essas organiza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m estiveram na linha de frente das lutas por igualdade racial e de g\u00eanero, contribuindo para a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Igualdade Racial e para o reconhecimento do nome social de pessoas trans em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o elas que garantem, todos os dias, que a democracia brasileira exista para al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es formais, sendo viva, enraizada e em permanente disputa a partir dos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessa contribui\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel \u00e0 defesa da democracia e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a social, as organiza\u00e7\u00f5es populares seguem sendo alvos preferenciais da criminaliza\u00e7\u00e3o promovida pela extrema-direita e por setores neoliberais que, mesmo em governos progressistas, muitas vezes questionam sua legitimidade ou invisibilizam sua pot\u00eancia pol\u00edtica. Essa ofensiva ideol\u00f3gica e institucional se expressa tamb\u00e9m nas barreiras ao acesso a recursos financeiros, p\u00fablicos e privados.<\/p>\n\n\n\n<p>O Censo GIFE 2022-2023 revela o quanto esse cen\u00e1rio \u00e9 cr\u00edtico: apenas 9% dos recursos privados mapeados v\u00e3o para iniciativas de defesa da democracia, direitos e cultura de paz; outros 9% s\u00e3o destinados ao desenvolvimento local, territorial e comunit\u00e1rio; e somente 4% t\u00eam como foco o fortalecimento institucional de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e movimentos sociais. A exclus\u00e3o se aprofunda quando olhamos para os marcadores de ra\u00e7a, g\u00eanero, classe e territ\u00f3rio: organiza\u00e7\u00f5es lideradas por pessoas negras, ind\u00edgenas, mulheres, juventudes e LGBTQIA+ enfrentam ainda mais obst\u00e1culos para acessar editais, fundos e parcerias institucionais, perpetuando desigualdades hist\u00f3ricas no pr\u00f3prio campo da filantropia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa que desenvolvi no \u00e2mbito do Programa Saberes da Rede Comu\u00e1, intitulada \u201c<a href=\"https:\/\/wordpress-wyy8bhlsif5v8gukfr0yhxue.studio.tikovolpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Relatorio-Final_Albert_RedeComua.pdf\">A dificuldade de acesso dos movimentos sociais a recursos e a constru\u00e7\u00e3o de uma nova cultura pol\u00edtica de doa\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d, analisa mais profundamente essas desigualdades ao mapear, a partir do olhar das pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es, os principais entraves enfrentados no acesso a recursos. Os dados s\u00e3o reveladores: 40% das organiza\u00e7\u00f5es identificam a burocracia excessiva como o principal obst\u00e1culo; 30% mencionam a falta de conhecimento t\u00e9cnico exigido nos processos de capta\u00e7\u00e3o; 15% apontam a rigidez na aplica\u00e7\u00e3o dos recursos; 10% relatam a aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es claras sobre oportunidades; e os 5% restantes destacam a falta de visibilidade e reconhecimento de suas iniciativas por parte de potenciais financiadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses n\u00fameros evidenciam um padr\u00e3o estrutural de exclus\u00e3o que afasta justamente quem mais precisa de apoio: \u00e0s iniciativas que est\u00e3o na base, inseridas em territ\u00f3rios vulnerabilizados, que atuam com criatividade, legitimidade e impacto direto. Mais do que uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, trata-se de uma escolha pol\u00edtica: os mecanismos tradicionais de financiamento, sejam eles p\u00fablicos ou privados, seguem operando sob l\u00f3gicas que concentram poder e desconfian\u00e7a, ignorando saberes locais e formas coletivas de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, cresce a urg\u00eancia de construir e fortalecer uma cultura de doa\u00e7\u00e3o e financiamento que seja ancorada na solidariedade, na confian\u00e7a e na redistribui\u00e7\u00e3o radical de recursos. \u00c9 nesse horizonte que emerge uma proposta que estamos trabalhando na Pacov\u00e1 &#8211; Articula\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o do Campo \u00e0 Cidade: a filantropia solid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A filantropia solid\u00e1ria parte do reconhecimento de que doar recursos \u00e9, antes de tudo, uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ao contr\u00e1rio da filantropia tradicional, marcada por rela\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas, exig\u00eancias burocr\u00e1ticas e centraliza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es, como j\u00e1 destacado pelas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es nos dados trazidos anteriormente, a filantropia solid\u00e1ria se estrutura a partir da escuta ativa, da confian\u00e7a m\u00fatua e da valoriza\u00e7\u00e3o dos saberes e estrat\u00e9gias produzidas nos territ\u00f3rios. Nessa abordagem, a solidariedade n\u00e3o \u00e9 um valor abstrato, mas um m\u00e9todo concreto: quem doa e quem recebe compartilham um mesmo compromisso com a transforma\u00e7\u00e3o da realidade e a constru\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a social. A doa\u00e7\u00e3o se torna, assim, um instrumento estrat\u00e9gico para fortalecer os territ\u00f3rios, reparar desigualdades hist\u00f3ricas e garantir a continuidade de lutas fundamentais para o presente e o futuro da democracia. Um lugar onde a solidariedade n\u00e3o \u00e9 caridade, mas pacto. Onde doar n\u00e3o \u00e9 ajudar, \u00e9 se corresponsabilizar. Onde apoiar organiza\u00e7\u00f5es populares n\u00e3o \u00e9 filantropia de ocasi\u00e3o, \u00e9 estrat\u00e9gia de justi\u00e7a social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditamos, no entanto, que esse m\u00e9todo solid\u00e1rio n\u00e3o deve se restringir ao campo filantr\u00f3pico privado. Acreditamos que o Estado tamb\u00e9m precisa incorporar tais princ\u00edpios no desenho e na implementa\u00e7\u00e3o de suas pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento. Isso significa construir mecanismos de financiamento p\u00fablico que respeitem a autonomia das organiza\u00e7\u00f5es populares, reduzam barreiras de acesso e reconhe\u00e7am a legitimidade pol\u00edtica dos seus projetos.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa de um modelo de financiamento p\u00fablico e privado que reconhe\u00e7a, sustente e proteja a a\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es populares como parte fundamental de uma democracia radical. A filantropia solid\u00e1ria, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas um gesto \u00e9tico, mas um compromisso com a justi\u00e7a hist\u00f3rica, com a transforma\u00e7\u00e3o social e com a sobreviv\u00eancia dos projetos coletivos que, desde sempre, sustentam as possibilidades de um outro Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong><em>*Albert Fran\u00e7a<\/em><\/strong><em> \u00e9 militante dos movimentos sociais, diretor-executivo da Pacov\u00e1 &#8211; Articula\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o do Campo \u00e0 Cidade e membro do Movimento por Uma Cultura de Doa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Matheus Viana<\/em><\/strong><em> \u00e9 coordenador de opera\u00e7\u00f5es da Pacov\u00e1 &#8211; Articula\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o do Campo \u00e0 Cidade e gestor do Fundo de Apoio a Organiza\u00e7\u00f5es Populares.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto de Rineshkumar Ghirao na Unsplash Por Albert Fran\u00e7a e Matheus Viana* No Brasil, as organiza\u00e7\u00f5es populares \u2013 entre elas movimentos sociais, coletivos, associa\u00e7\u00f5es de base comunit\u00e1ria e tantas outras formas de luta coletiva popular \u2013 t\u00eam sido protagonistas centrais na defesa e na conquista de direitos. 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